Clique e Assine VEJA por R$ 9,90/mês
Continua após publicidade

Novos estudos desmontam ideias preconceituosas sobre corpo feminino

Eles também reformulam o papel da mulher na história da evolução da espécie

Por Marília Monitchele Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 7 jul 2024, 08h00

O ser humano como o conhecemos habita a Terra há pelo menos 300 000 anos — pouquíssimo tempo, considerando que as estimativas da formação do planeta remontam a 4,5 bilhões de anos atrás. Ao longo desse curto período, a predominância dos feitos masculinos fez com que o papel da mulher na evolução da espécie fosse considerado menor e pouco significativo. Na Grécia antiga, o filósofo Aristóteles a descreveu como um “homem mutilado”. A ciência contribuiu para reforçar essa visão, sempre diminuindo a participação feminina no processo civilizatório e minimizando suas capacidades físicas e psicológicas. No século XVIII, ideias e técnicas médicas se empenharam em confirmar e justificar a desigualdade de gênero. Felizmente, novos estudos, baseados em uma mudança de perspectiva nas diversas áreas do conhecimento, estão mudando essa escrita.

Durante séculos, a medicina preencheu a falta de compreensão do corpo feminino com diagnósticos duvidosos e depreciativos, atribuindo-lhe “fraquezas” como a propensão à histeria e, mais recentemente, manifestações de descontrole devido à tensão pré-menstrual (TPM) — esse último conceito, introduzido na década de 1930, foi usado para impedir que mulheres integrassem o programa espacial dos Estados Unidos, sob a alegação de serem “temperamentais”. Também se disseminou a ideia de que diferenças estruturais, hormonais ou cerebrais indicavam funções cognitivas distintas entre os gêneros — uma balela que a neurocientista britânica Gina Rippon tratou de corrigir. Rip­pon pesquisou a fundo a noção equivocada de que o cérebro feminino, em média 10% menor do que o masculino, tem capacidade intelectual inferior. Sua conclusão: as diferenças não estão no funcionamento do órgão, altamente plástico e moldável, mas na influência de fatores como ambiente e cultura.

Outra concepção carregada de preconceito, a do homem primitivo como caçador e provedor por excelência, foi recentemente desmistificada em um estudo liderado pelas cientistas Cara Ocobock, da Universidade de Notre Dame, e Sarah Lacey, da Universidade de Delaware, ambas nos Estados Unidos. A investigação mostrou que, na verdade, as mulheres eram — e ainda são — mais aptas a atividades de resistência física, enquanto os homens se destacam naquilo que demanda força e explosão muscular. A explicação fisiológica, baseada no papel de hormônios femininos como o estrogênio e a adiponectina em organismos adaptados a esforços de longa duração, é corroborada por achados arqueológicos: na pré-história, as mulheres não apenas participavam ativamente da caça, compartilhando riscos e ferimentos, como contribuíam decisivamente para seu sucesso, por serem mais resilientes. “Abrimos uma nova perspectiva para uma questão antiga, especialmente neste momento cheio de controvérsias sobre sexo e gênero”, afirmou Ocobock a VEJA.

EVOLUÇÃO - Lucy, o fóssil, e como ela teria sido: ancestral moldou a espécie
EVOLUÇÃO - Lucy, o fóssil, e como ela teria sido: ancestral moldou a espécie (Boisvieux Christophe/AFP/Getty Images)

Seguindo esse raciocínio, a pesquisadora Cat Bohannon, no livro Eva (Companhia das Letras), inverte o roteiro das visões tradicionais sobre a evolução humana ao argumentar que as mulheres, e não os homens, foram a força motriz do avanço da espécie. Bohannon destaca em seu trabalho o poder muitas vezes esquecido do corpo feminino, aquele que concebe, alimenta, cuida e vive mais, e discorre também sobre o impacto das estruturas sociais e matriarcais no desenvolvimento infantil. A pesquisadora relata que passou os últimos dez anos questionando cientistas, com a intenção de corrigir desequilíbrios e ressaltar as limitações do “raciocínio machista”. Para ela, as inovações que permitiram ao Homo sapiens sobreviver e progredir não foram a lança, o fogo, a roda ou a eletricidade, mas sim a capacidade de dar à luz, amamentar e nutrir, fomentada em uma coletividade essencialmente feminina.

Sem essa cooperação, segundo ela, nossos antepassados, que remontam ao célebre fóssil de Lucy e outras fêmeas ancestrais de milhões de anos, teriam desaparecido na pré-história, deixando apenas um rastro de ossos preservados. “As pessoas estão começando a perceber que estamos contando nossa história de maneira errada”, diz Bohannon. “Meu esforço é no sentido de revisar os fatos e incluir essa metade da nossa espécie na equação”, explica a pesquisadora. Por mais que a ciência tenha ignorado e desrespeitado os feitos femininos ao longo da história, torna-se cada vez mais claro que só chegamos aonde chegamos por causa deles. Quanto mais estudamos as mulheres — seus hormônios, seus circuitos cerebrais e suas realizações sociais —, mais dispostos ficamos a rejeitar preconceitos e repensar seu papel decisivo na formação dos lares e das sociedades de hoje. É o sexo frágil mostrando sua força.

Publicado em VEJA de 5 de julho de 2024, edição nº 2900

Publicidade

Matéria exclusiva para assinantes. Faça seu login

Este usuário não possui direito de acesso neste conteúdo. Para mudar de conta, faça seu login

Domine o fato. Confie na fonte.

10 grandes marcas em uma única assinatura digital

MELHOR
OFERTA

Digital Completo
Digital Completo

Acesso ilimitado ao site, edições digitais e acervo de todos os títulos Abril nos apps*

a partir de 9,90/mês*

ou
Impressa + Digital
Impressa + Digital

Receba Veja impressa e tenha acesso ilimitado ao site, edições digitais e acervo de todos os títulos Abril nos apps*

a partir de 49,90/mês

*Acesso ilimitado ao site e edições digitais de todos os títulos Abril, ao acervo completo de Veja e Quatro Rodas e todas as edições dos últimos 7 anos de Claudia, Superinteressante, VC S/A, Você RH e Veja Saúde, incluindo edições especiais e históricas no app.
*Pagamento único anual de R$118,80, equivalente a 9,90/mês.

PARABÉNS! Você já pode ler essa matéria grátis.
Fechar

Não vá embora sem ler essa matéria!
Assista um anúncio e leia grátis
CLIQUE AQUI.