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Missão Rosetta: cometa é uma ‘sopa orgânica congelada’

Sete estudos publicados nesta quinta-feira (30) na revista 'Science' fazem o retrato mais preciso do cometa onde pousou o robô Philae, levado pela sonda Rosetta

Por Rita Loiola Atualizado em 9 Maio 2016, 14h45 - Publicado em 30 jul 2015, 20h18

Uma série de estudos publicados nesta quinta-feira (30) na revista Science fez o retrato mais preciso até o momento do cometa 67P/Churyumov-Gerasimenko, onde pousou o robô Philae, entregue pela sonda Rosetta, em novembro do ano passado.

Os cientistas descrevem em sete artigos os detalhes do pouso (Philae inesperadamente ‘quicou’ duas vezes antes de se ancorar no cometa), aspectos do interior e da superfície do cometa e, o mais revelador, sua composição. Na definição dos pesquisadores envolvidos nos estudos, o cometa parece uma ‘sopa orgânica congelada’, com moléculas que podem ser consideradas precursoras da vida na Terra. Um planeta com condições favoráveis à vida que recebesse o cometa poderia provocar a multiplicação desses compostos que, no futuro, talvez gerassem algum processo vital.

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Compostos orgânicos – Feito pelos restos de um sistema solar de 4,5 bilhões de anos, o 67P é composto em sua maior parte de gelo (são cinco vezes mais gelo que rochas), tem uma superfície granulada e fofa que recobre um interior duro. Parece uma esponja, muito porosa, com 75% a 85% do volume total feito de espaços vazios.

Todo esse corpo é rico em moléculas orgânicas, mais variadas que o esperado. Os instrumentos Cosac (Cometary Sampling and Composition) e Ptolemy, responsáveis por colher e analisar amostras da superfície, encontraram dezesseis compostos orgânicos. Desses, quatro (metil-isocianato, acetona, propionaldeído e acetamido) jamais tinham sido identificados em um cometa. Ele seria assim uma “sopa primordial congelada”, nas palavras do astrônomo Ian Wright, responsável pelo instrumento Ptolemy, o que significa, em outras palavras, uma “sopa orgânica congelada”.

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De acordo com os cientistas, algumas dessas moléculas são consideradas como possíveis de dar origem à vida, pois intervêm na formação de aminoácidos essenciais e de bases nucleicas.

Segundo algumas teorias, os cometas podem ter sido os responsáveis por trazer a água ou até mesmo vida à Terra. Um dos principais objetivos da missão Rosetta era verificar a composição do gelo que forma o 67P, pra ver se corresponde à composição de isótopos da água da Terra (veja outros detalhes em reportagem a ser publicada neste fim de semana no site de VEJA). Um estudo publicado em dezembro do ano passado também na Science mostrou que a água do cometa é diferente da existente em nosso planeta.

Contudo, os cometas são um objeto de estudo importante por serem considerados “restos” da formação do Sistema Solar que continuam vagando pelo Universo. A composição química desses corpos celestes proporciona informações cruciais sobre a matéria presente nos primeiros instantes de nossa galáxia, cujo estudo tem grande importância do ponto de vista geológico, pois apresenta algumas das chaves para se entender como aconteceu sua formação.

“Dizer que a água do 67P é diferente da existente na Terra não elimina a teoria de que os cometas poderiam ter trazido água e/ou vida para nosso planeta. Ele é apenas um dos cometas vagando pelo Universo e a presença das moléculas orgânicas é uma pista importante”, diz Daniel Mello, astrônomo do Observatório do Valongo, na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). “Afinal, os cometas se formaram nos confins do Sistema Solar, onde a temperatura é muito baixa e eles podem manter em sua composição materiais como metano ou amônia.”

Aspectos do cometa – Até a ‘quicada’ de Philae foi importante para os cientistas, que conseguiram analisar mais que uma região do cometa. De acordo com os estudos, depois de pousar na região designada para a aterrissagem, que tem uma camada de aproximadamente 25 centímetros, macia e arenosa, o módulo foi parar sobre uma área distante, de consistência rochosa, à beira de uma cratera e em um terreno desnivelado.

Há evidências de erosão na superfície, semelhante à causada pelos ventos na Terra. As medições dos sensores sugerem que a cabeça do cometa tem uma composição bastante homogênea e seu interior é uniforme.

Os cientistas ainda não analisaram todos os dados enviados pela missão, que foi prolongada até setembro de 2016. Os cientistas discutem a possível aterrissagem da nave Rosetta no mesmo ponto onde está o robô Philae, para, talvez, aproveitar mais dados. A sonda estava silenciosa desde o fim do ano passado e, em junho, despertou. No entanto, há algumas semanas os cientistas não conseguem estabelecer conexão com o módulo, levantando suspeitas de que ela pode ter mudado de posição novamente.

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