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Mesmo sem rostos, as plantas também querem viver

Por que as plantas mereceriam morrer mais que os animais? Sob esse aspecto, não há razão para ser vegetariano, defende a bióloga e autora do livro 'Naming Nature - The Clash Between Instinct and Science', Carol Kaesuk Yoon

Por Carol Kaesuk Yoon, The New York Times - Atualizado em 6 maio 2016, 17h09 - Publicado em 19 mar 2011, 15h10

Acontece que, se comer uma salsicha vegetariana é um crime tão grave quanto comer um salsichão de porco, então eu fico com o salsichão

Há alguns anos, após dirigir por tempo demais atrás de um caminhão repleto de porcos malcheirosos sendo levados ao abate, parei de comer carne. Eu já vinha criando uma crescente aversão pela crueldade que pode ser a pecuária industrial, mas o verdadeiro problema era uma antiga simpatia por suas (na verdade, minhas) vítimas. Até mesmo sujos e berrantes porcos, ou talvez especialmente os sujos e berrantes porcos, podem evocar uma forte compaixão, enquanto se amontoam num caminhão que os leva à morte.

Se você pensar no assunto, e é muito mais simples não pensar, pode ser difícil justificar o fato de outros seres precisarem sofrer dor, medo e morte para que nós possamos aproveitar sua carne. Em especial, devido às nossas muitas ligações aos animais, e sem esquecer que nós mesmos somos animais, isso pode gerar uma pausa para reflexão: nosso contato mais frequente com esses seres pode ser exatamente quando os devoramos.

Minha entrada no que parecia ser um alto patamar moral, contudo, foi surpreendentemente desagradável. Fui confrontada não só por um desejo incrivelmente intenso por frango, mas também por pesadelos nos quais eu comia maravilhosos bifes mal passados – sentindo com distinção os sabores da gordura – e dos quais acordava em pânico, até perceber que estava sendo carnívora apenas na imaginação.

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Tentações e provações estavam em toda parte. A mais surpreendente foi a percepção de que eu não conseguia realmente explicar, a mim mesma ou a qualquer pessoa, por que matar um animal era pior do que matar as muitas plantas que passei a comer.

Claro, pensei, a ciência pode defender o óbvio, que a carnificina do matadouro é errada sob aspectos em que colher um campo de alfaces ou, digamos, aparar um gramado, não é. Em vez disso, começou a parecer que formular uma lógica verdadeiramente racional para não comer animais, ao menos enquanto consumimos todo tipo de outros organismos, era bastante difícil, se não impossível.

Antes que você clique “enviar” em seu e-mail de ódio, deixe-me dizer isto. Diferentes pessoas têm diferentes motivos para as escolhas sobre o que matar para comer. Talvez não exista uma escolha mais pessoal, ou menos sujeita à racionalidade ou ao julgamento dos outros, que essa. Acontece que, se comer uma salsicha vegetariana é um crime tão grave quanto comer um salsichão de porco, então eu fico com o salsichão.

Quais são as reais diferenças entre animais e plantas? Existem muitas. As células das plantas, por exemplo, abrigam os cloroplastos, minúsculas organelas que conseguem transformar a energia da luz em açúcar. Quase nenhuma dessas diferenças, porém, parece importar àqueles que estão tentando descobrir o que comer.

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As diferenças de importância aparente são coisas como o fato de as plantas não possuírem nervos ou cérebros. Com isso concluímos que elas não sentiriam dor. Em outras palavras, as diferenças que importam são aquelas que provam que uma planta não sofre como nós. Também se torna importante o fato de plantas não terem rostos. Rosto é um requisito para os humanos, não só para provar que lidamos com um indivíduo, mas também que aquele indivíduo é capaz de sofrer.

Por outro lado, os animais (e não apenas os evolutivamente mais próximos, como chimpanzés e gorilas, mas espécies bastante distintas, mamíferos como vacas e porcos), podem sentir o que qualquer um concordaria ser sofrimento e dor. Quando atacados, esses animais entram em agonia, gritam, lutam e correm o mais rápido que conseguem. Obviamente, se não matarmos esses animais para comê-los, todo esse sofrimento é evitado.

Enquanto isso, se você arranca uma folha ou um pedaço de caule, uma planta não faz caretas ou grita de dor. As plantas não parecem se importar em serem mortas, pelo menos até onde podemos ver. Mas a dificuldade pode ser exatamente essa.

Diferente de uma vaca em fuga, as reações das plantas a um ataque são muito mais difíceis de notar. Porém, assim como uma galinha correndo em círculos sem a cabeça, um pé de milho arrancado do solo luta para se salvar com o mesmo ardor e inutilidade, mesmo sendo menos óbvio aos ouvidos e olhos humanos.

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Quando uma planta é ferida, entra imediatamente em modo de proteção. Ela libera um conjunto de químicos voláteis que mostrou, em alguns casos, induzir as plantas vizinhas a iniciarem suas próprias defesas químicas e, em outros, atrair predadores dos seres que causam os danos. Dentro da planta, sistemas de reparos são iniciados e as defesas se preparam. Os detalhes moleculares ainda estão sendo estudados por cientistas, mas o processo envolve moléculas de sinalização fluindo pelo corpo para reunir as tropas celulares, chegando a alistar o próprio genoma – que começa a produzir proteínas ligadas à defesa.

Mas as plantas não se limitam a reagir aos ataques. Elas ficam sempre de prontidão. Note que elas são armadas de inúmeros espinhos, pelos que ferroam e transmitem venenos mortais. Se todo esse esforço não se parece com um organismo tentando sobreviver, nada mais pareceria. As plantas não são tão inertes quanto gostaríamos que fossem.

Se os inúmeros esforços das plantas para evitar seu consumo não são suficientes para fazê-lo parar de comer salada, talvez ajude saber que as plantas fazem muitas coisas que consideramos típicas de animais. Elas se movem, realizando atividades que só poderiam ser consideradas como comportamento, mesmo que num ritmo visível apenas por fotografias de alta velocidade. Não muito tempo atrás, cientistas reportaram evidências de que as plantas podiam detectar e crescer de forma diferente caso estivessem na presença de parentes próximos, um nível de sofisticação comportamental ainda não identificado na maioria dos animais.

Para deixar a questão ainda mais confusa, os animais nem sempre são os poços de sensibilidade que imaginamos. Esponjas são animais, mas assim como as plantas, elas não possuem nervos ou cérebro. A água-viva, que pode ser muito saborosa quando fatiada e posta em conserva, não possui cérebro – somente uma rede simples de nervos, uma estrutura comprovadamente menos complexa do que os sistemas de sinalização de muitas plantas. Como decidir a importância do grau e do tipo de sensibilidade?

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Àqueles buscando evitar esse dilema com uma dieta somente de cogumelos, esqueçam. Sob quase qualquer aspecto de comparação, os fungos são provavelmente mais similares a nós do que as plantas, já que eles são nossas relações evolutivas mais próximas.

Pensando a respeito, porém, por que deveríamos esperar que qualquer organismo se deite e morra para ser nosso jantar? Os seres evoluíram para fazer tudo em seu poder para evitar a extinção. Por quanto tempo uma linhagem seguiria existindo se os seus membros realmente não se importassem em serem mortos?

Talvez o verdadeiro problema em afirmar que matar plantas é aceitável porque elas não “sentem” como nós seja que esse era o mesmo argumento usado para justificar o que hoje enxergamos como erros imperdoáveis.

A escravidão e o genocídio foram justificados pela afirmação de que alguns tipos de pessoas não sentiam dor ou amor – não seriam realmente humanos – da mesma forma que outros. O mesmo pensamento levou a outras práticas, menos drásticas, mas igualmente terríveis. Por exemplo, médicos não usavam anestesia em bebês durante cirurgias, pois acreditavam que esses “quase-humanos” não sentiam dor.

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Ainda assim, mesmo meneando a cabeça em relação ao passado, continuamos lutando para definir a linha ao redor daqueles considerados realmente humanos. Questionamos se aqueles que amam pessoas do mesmo sexo merecem todos os direitos humanos. O mesmo fazemos com fetos.

O cardápio do jantar nos empurra ainda além. Outras espécies de animais seriam merecedoras de nossa consideração? E o que dizer de plantas, fungos e micróbios?

Talvez tudo isso lhe pareça sem sentido. Talvez você esteja com dificuldades para equiparar um rabanete a uma ovelha e a seu amado primogênito. Isso não é uma surpresa. É extremamente difícil aceitar novos membros em nossa tribo e isso só piora quanto menos eles se parecem conosco. Pode ser incrivelmente inconveniente se pôr no lugar de cada indivíduo que encontramos e compartilhar com ele a mais preciosa das mercadorias: a compaixão.

O que devemos fazer para o jantar de hoje? Quem sabe?

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Os seres humanos sobrevivem consumindo outros seres vivos. Eu quero não só comer, mas sobreviver. Mesmo assim, uma forma cruamente lógica de julgar o valor de um organismo sobre outro – a legitimidade da morte de uma planta frente à de um animal – para mim parece fora do alcance.

Meu empenho em renunciar à carne não durou mais que dois anos. Ainda assim, imagino o que nossos tataranetos pensarão de nós. Será que teremos problemas em explicar-lhes por que matamos animais ou plantas com fins alimentícios? E se for esse o caso, o que estaremos comendo?

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