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Livro relata a torre de Babel dos pesos e medidas

O físico Robert Crease narra, em livro lançado nos EUA, a história do metro e do quilo. Pensadas para serem universais, as medidas até hoje geram conflitos

No dia 23 de setembro de 1999, a sonda Mars Climate Orbiter deveria entrar na órbita de Marte. Acabou sendo desintegrada. O aparelho entrou em parafuso graças à diferença dos sistemas de medida usados pelos engenheiros que o projetaram: enquanto o pessoal do Jet Propulsion Laboratory usou o nosso conhecido sistema métrico, os técnicos da Lockheed Martin, que presta serviços às agências espaciais americanas, usaram o sistema inglês. O resultado foi 125 milhões de dólares de prejuízo. Milênios depois dos egípcios criarem as primeiras medidas padrão da história, parece que no território dos pesos e medidas ainda há quem não fale a mesma língua.

Essa história – a criação do metro e do quilograma, símbolos da globalização de mercadorias – é contada em ritmo de thriller pelo físico e filósofo americano Robert P. Crease em seu último livro, lançado este ano nos EUA, World in the Balance, The Historic Quest for an Absolute System of Measurement (O mundo na balança, a busca histórica por um sistema absoluto de medida). Ainda sem título oficial em português, a obra deve chegar ao Brasil em 2013.

Autor de As Grandes Equações (Editora Zahar), lançado no Brasil em 2011, Crease vive no único país industrializado a ignorar o sistema global, os Estados Unidos. Ao lado dos americanos, usando um sistema milenar em parte baseado em porções do corpo de reis britânicos, estão Mianmar e Libéria.

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PADRÃO

Estão guardados em um cofre nos arredores de Paris os objetos que garantiram o padrão do metro e do quilograma desde 1889. O metro, porém, perdeu a majestade na década de 1960, quando o objeto foi substituído por uma constante: o espaço percorrido pela luz no vácuo em um curto período de tempo.

O quilograma deve seguir o mesmo caminho, quando os cientistas encontrarem uma equação para substituir um objeto que “engorda” e “emagrece” ao longo do tempo. O cilindro de 39 milímetros de diâmetro e altura, composto por 90% de platina e 10% de iridium, passa por variações em sua massa. “É algo em torno de 0,5 micrograma (milionésimo de grama) por ano”, explica Alain Picard, diretor do Departamento de Massas do Escritório Internacional de Pesos e Medidas.

METRO NO BRASIL

Até 1822, quando se tornou independente de Portugal, o Brasil usava vários padrões de medidas, como sua metrópole. Com a independência, a corte brasileira considerava implementar um sistema nacional, mas isso só aconteceu em 1862, quando a Lei 1.157 substituiu formalmente todo o sistema de unidades em uso no Império pelo sistema métrico francês. Dom Pedro II levou o país a abandonar varas, braças, léguas e quintais para adotar o metro.

Desencontros históricos e disputas políticas por trás da adoção ou não do sistema métrico-decimal são a principal atração da obra, que conta também as aventuras das medidas oficiais do metro e do quilo, guardadas a sete chaves em um bairro afastado de Paris. Em processo de substituição por equações que buscam garantir um valor exato e imune a variações causadas pelo tempo e ambiente, os objetos gozam de grande valor histórico.

Língua única no comércio – Eles são a versão moderna de uma prática que nasceu com a civilização, a de relacionar valores a bens. As primeiras medidas, relata Crease, baseado em documentos históricos, foram as partes do corpo. “Pés são acessíveis, todo mundo tem. Quase toda sociedade tinha uma medida de ‘pé’ subdivida em ‘dedos'”, afirma Crease, no livro.

Grãos foram usados como medida na Europa pré-moderna; sal nas sociedades mesoamericanas; e ouro em pó no oeste da África. Costumes, meio ambiente e políticas locais definiam as medidas que cada povo usava. O advento do comércio internacional e a globalização dos meios de produção, porém, exigiram um sistema padronizado, que pudesse ser entendido por todos os envolvidos.

O sistema métrico parecia perfeito para ocupar esse lugar. Com uma única unidade para diferentes quantidades físicas, o metro evita a necessidade de cálculos de conversão. Enquanto comprimentos e distâncias são medidos em metros, dezenas, centenas e milhares de metros, nos EUA há diferenças entre os valores de unidades como milhas, léguas, jardas, pés, furlongs… A lista é grande. Apesar da simplicidade, porém, a adoção do sistema métrico no mundo não foi algo natural. Mesmo na França, seu berço, demorou muitos anos para se tornar soberano.

Na década de 1780, Napoleão Bonaparte determinou o fim do calendário revolucionário e o metro quase foi pelo mesmo caminho. Napoleão, porém, deixou que o sistema continuasse existindo, mas junto com o antigo, que era uma mistura de medidas usadas pelo Império Romano com outras de origem feudal. Os franceses acabaram por aceitar o novo sistema ao longo da década seguinte. Mas chamavam o quilo de pound e o terço do metro de pé.

Os primeiros modelos oficiais do sistema métrico foram fabricados em 1799. O metro era uma vareta de metal com o tamanho de uma fração muito pequena do meridiano da Terra. O cálculo é bem complexo, e foi abandonado há quase três décadas, substituído por outro que leva em conta o deslocamento da luz no vácuo. O quilograma era um cilindro metálico, que ainda existe e está guardado na França. Esses objetos guiaram a expansão das medidas pelos 100 anos seguintes, quando grande parte da Europa, Ásia e Américas, incluindo o Brasil, adotaram o padrão.

Culpa dos corsários – Não fosse uma série de desventuras vividas por um azarado cientista francês chamado Joseph Dombey, hoje os Estados Unidos estariam usando o mesmo sistema que o resto do planeta. Em janeiro de 1794, o estado revolucionário francês fez a primeira tentativa de inserir o sistema métrico nos EUA. Havia um terreno fértil para isso. No período pós-independência, os americanos queriam livrar-se dos laços que os prendiam à antiga metrópole, a Inglaterra.

Dombey embarcou em um navio para a América levando uma carta do Comitê Revolucionário de Segurança Pública e dois modelos das medidas do quilo e do metro. Nunca chegou ao porto da Filadélfia. Primeiro, uma tempestade desviou sua embarcação para as Antilhas, colônia francesa em ebulição política. O governo era fiel à metrópole, mas teve de prender o emissário do governo em resposta ao crescente clima de revolta nas ruas.

Após ser libertado, Dombey tentou seguir viagem, mas seu transporte foi atacado por corsários britânicos que roubaram a carga e fizeram a tripulação refém. Joseph acabou morrendo em uma prisão no mesmo ano e não conseguiu o que queria: entregar a proposta ao Congresso Americano.

“Eram objetos fáceis de copiar e enviar a todos os estados nos EUA junto com argumentos científicos que os defendessem. Dombey poderia facilmente ter convencido os congressistas. E hoje os EUA poderiam não ser o último grande país a resistir ao sistema métrico”, afirma o historiador Andro Linklater, citado no livro.

A Inglaterra resistiu ao sistema métrico primeiro por razões políticas. Suas relações com a França estavam estremecidas no século 18. O Reino Unido, estado mais desenvolvido do mundo na época, não possuía sequer um sistema oficial de pesos e medidas até 1824, quando foi aprovado o Imperial Weights and Measures Act, como resposta ao metro.

O sistema colonial, como ficou conhecido, não passou das fronteiras inglesas e de suas colônias. Até que, em 1987, os britânicos abriram o precedente e autorizaram o uso do metro no comércio e em outras áreas. Hoje o sistema é oficial no país, mas pouco usado. Isso não impede, no entanto, que os dois sistemas, como atesta a sonda perdida no espaço, não entrem em conflito e acabem gerando confusão e prejuízo ao redor do mundo – e até mesmo de outros planetas.