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Jane Goodall: ‘Com destruição da natureza, novas doenças podem surgir’

A lendária primatóloga, em atuação há seis décadas, diz que a pandemia é resultado do desrespeito ao meio ambiente e pede aos jovens que lutem pelo planeta

Por Jennifer Ann Thomas - Atualizado em 11 set 2020, 10h19 - Publicado em 12 set 2020, 08h19

Em julho de 1960, a primatóloga e ambientalista britânica Jane Goodall desembarcava pela primeira vez no Parque Nacional de Gombe, na Tanzânia. Desde a primeira incursão na selva, Jane mergulhou a fundo no comportamento dos chimpanzés, tornando-se nos últimos 60 anos a principal referência mundial no estudo desses animais. Suas descobertas não apenas jogaram luz nas complexas relações sociais estabelecidas pelos macacos como ensinaram ao mundo que há menos diferenças entre homens e chimpanzés do que se imaginava. Jane publicou mais de 300 artigos sobre primatas, estrelou diversos documentários (um deles disponível na Netflix) e passou a ser uma das mais relevantes ativistas na defesa do meio ambiente. Aos 86 anos, ela está passando a quarentena em Bournemouth, cidade onde cresceu na Inglaterra. Jane falou a VEJA de sua casa, ao lado de porta-retratos com fotos da família, do cachorro e dos inesquecíveis amigos chimpanzés.

Após seis décadas de dedicação à natureza, como a senhora avalia a preservação ambiental hoje em dia? Gradualmente, a situação do meio ambiente ficou cada vez pior. O desaparecimento de animais resultou na sexta grande extinção (como a ciência se refere ao período atual, marcado pela aniquilação biológica de inúmeras espécies) e as mudanças climáticas causaram danos em várias partes do mundo, inclusive no Brasil, devido à destruição da Amazônia. A tragédia se traduz na pandemia que trouxemos para nós mesmos, marcada pelo desrespeito à natureza e aos animais.

Por que a senhora diz isso? Enquanto destruímos o mundo natural, nos aproximamos dos animais e novas doenças podem surgir. As espécies perdem o seu habitat e fica mais fácil para um vírus ou uma bactéria infectar um humano. Na África, os mercados de carne de chimpanzé levaram à epidemia de Aids. A MERS começou quando um patógeno passou de um camelo para um humano, no Oriente Médio. Todo o ambiente pode estar contaminado com urina e fezes e, assim, começa uma nova epidemia. Cientistas preveem esse tipo de comportamento há anos.

O que a senhora pensa a respeito da política ambiental brasileira? Líderes como o presidente Jair Bolsonaro estão cometendo crimes contra as gerações futuras. Seja Bolsonaro ou qualquer outro presidente, eles estão colocando o desenvolvimento econômico à frente do meio ambiente, o que é um grande equívoco. É política de curto prazo e os poderosos querem ganhos pessoais e lucro para as empresas. A estratégia é uma contradição por si só. Não há como ter desenvolvimento econômico global ilimitado em um planeta com recursos limitados. Em vários lugares, já estamos usando esses recursos de forma mais rápida do que a natureza consegue recuperar. Há mais de 7 bilhões de pessoas no planeta. Teremos 9,7 bilhões em 2050. Temos que pensar em uma nova economia verde e uma forma diferente de interagir com o mundo natural, do qual somos dependentes.

Qual é a sua avaliação sobre as ações de Bolsonaro? Desde que Bolsonaro assumiu, o impacto no meio ambiente foi extremamente negativo. Não há dúvidas quanto a isso. Neste sentido, há dois aspectos a se levar em consideração. O primeiro é o que ele está fazendo com as florestas e, consequentemente, com o clima global. O segundo é que a floresta está sendo transformada em pasto. Como o mundo está comendo mais carne, há mais indústrias. Esses animais precisam ser alimentados. Áreas enormes de habitat foram destruídas para produzir ração. Bilhões de animais que vivem de forma torturante produzem gás metano, altamente poluente. O manejo e a forma de criar os animais são ruins e causam impactos negativos no ambiente.

Há negacionismo sobre a pandemia e as mudanças climáticas. Como conversar com essas pessoas? Há duas opções para aqueles que dizem não acreditar nas mudanças climáticas: são 100% estúpidas ou falam que não acreditam por causa de seus interesses econômicos. É um ou outro. Só algumas pessoas são realmente burras e não acreditam nos efeitos do clima. A maioria sabe que é real e defende que as alterações não têm a ver com as ações humanas. No entanto, quando quero fazer alguém mudar de ideia, sempre digo para alcançar a pessoa pelo coração. Com os líderes que temos por aí, não sei se eles têm coração. Como alcançá-los neste lugar se ele não existe?

É uma questão de se investir mais em ciência? Em muitos países há mais dinheiro entrando em pesquisa científica, como nos Estados Unidos. Fiquei totalmente chocada quando, meses atrás, a equipe de conselheiros de Donald Trump explicou o impacto econômico das mudanças climáticas na Flórida. Trump olhou para o cientista e disse: não acredito em você. O que fazer? Está além da minha compreensão. Temos que trabalhar com o público em geral e espero que a pandemia mostre o luxo de ter ar limpo e um céu com estrelas. Na prática, estamos matando as nossas crianças. O futuro será impossível para elas no modelo em que vivemos. É terrível.

Por que proteger florestas como a Amazônia? A floresta amazônica, junto com as florestas do Congo, são grandes órgãos vitais do mundo. Ambas absorvem CO2, providenciam oxigênio e são regiões absolutamente fantásticas para a biodiversidade, com uma variedade muito rica de espécies. Nós dependemos do mundo natural. E ele depende de sua biodiversidade. Cada espécie tem uma função. Elas podem parecer insignificantes, mas um pequeno animal pode ser a fonte de alimento para outro e o efeito em cadeia pode levar a um colapso. Se não mudarmos logo, o planeta que sobrará não é um local em que eu gosto de pensar.

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A senhora acredita que as medidas para uma recuperação econômica verde serão implementadas? Se nossa única preocupação for econômica, será o fim da vida na Terra como a conhecemos. Esta não é uma fala da boca para fora. O planeta não pode continuar sendo alvo de ataques ambientais da mesma maneira como vem acontecendo nos últimos anos. É uma situação desesperadora. Torço para que a pandemia deixe mais pessoas determinadas a proteger o futuro para as próximas gerações.

O que precisa mudar? É importante entender o que fizemos de errado. Desrespeitamos a natureza. Cada um de nós pode ser um fator de mudança. Comer menos carne, proteger florestas. Tenho um programa para crianças, o Roots and Shoots. Quando você conversa com elas sobre as suas ideias, o leque é enorme. Uma quer plantar árvores, a outra quer defender os povos indígenas. Isso é animador. Entre os jovens, há quem queira resolver todos os problemas que temos e eu já não consigo mais fazer isso.

Qual é o objetivo desse trabalho? Entender que, todos os dias, cada um de nós causa um impacto no planeta. Só os mais pobres não têm escolha, eles fazem o que precisam para sobreviver. Vou deixar o mundo um pouco melhor ou não? Depende de nós.

Movimentos como o da sueca Greta Thunberg podem ser decisivos? Sim. Eles aumentaram a consciência sobre a causa ambiental. No entanto, nosso projeto é escolher um objetivo, arregaçar as mangas e agir. Não é só sobre protestar. As crianças aprendem que precisamos romper barreiras entre pessoas de nações, culturas e religiões diferentes. Com a globalização, podemos alcançar o mundo inteiro. É o que aconteceu comigo durante a quarentena. Nunca estive tão exausta.

A senhora defende uma dieta vegetariana? Cresci durante a Segunda Guerra e comíamos um pedaço de carne por semana. Hoje em dia as pessoas querem carne todos os dias. Mais jovem, não sabia que a produção em escala industrial existia. Quando li um livro sobre esse método, vi que havia uma espécie de campo de concentração para animais. Logo depois, ao ver um pedaço de carne no meu prato, percebi que ele simbolizava dor e morte. Decidi que não queria mais aquilo dentro de mim e assim mudei de dieta. Agora estou tentando ser vegana, porque aprendi demais sobre a crueldade com os animais.

A senhora foi muito questionada sobre as suas descobertas no campo do comportamento animal? Quando estudei em Cambridge, me falaram que só os humanos tinham personalidade. Por sorte, cresci com um cachorro e ele me ensinou o contrário. Quando pensamos em frigoríficos, temos que lembrar que cada animal tem personalidade e sentimentos. Quando a ciência saiu da forma reducionista de pensar sobre os bichos, abriu-se o caminho para que esse campo pudesse ser estudado. Sabemos que não só os humanos, mas também porcos, vacas e outras espécies são inteligentes.

Como lidou com os questionamentos? Veja, não tínhamos a comunicação de hoje. Alguns diziam: “por que acreditar na Jane, ela é apenas uma garota”. Não me importei. Eu sabia que tudo o que eu escrevia era totalmente preciso. Deixei que eles falassem. O objetivo era aprender mais sobre os chimpanzés e escrever livros. Meu mentor ameaçou me expulsar de Cambridge, porque cientistas não escreviam livros populares. Por sorte, minha pesquisa era nobre, única, e a universidade queria o meu estudo. Hoje em dia, o objetivo de todos os cientistas é escrever um livro popular para ganhar dinheiro.

A senhora foi julgada por ser mulher? Quando fui a campo, tive o apoio incondicional da National Geographic. Naquela época, me falaram: “Jane só está ganhando dinheiro porque ela está na capa da revista e isso só aconteceu porque ela tem belas pernas”. Eu pensei: “Bem, se minhas pernas me ajudaram, obrigada, pernas”. O documentário comprova, eram ótimas pernas. As atitudes naquele tempo eram completamente diferentes. Agora sabemos de histórias horríveis de homens abusadores. É realmente trágico e inaceitável.

Como tem sido a sua quarentena? Viajar 300 dias por ano é moleza perto do que vivemos agora. Nunca em minha vida estive tão ocupada. Todos os dias tenho uma sequência de compromissos virtuais. Acho que alcancei mais gente em diferentes países nos últimos quatro meses do que nos últimos quatro anos. Estou acostumada com o auditório e a plateia. Agora eu fico olhando para a câmera do computador e me tornei capaz de lidar com isso.

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