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Grã-Bretanha foca em parques eólicos para mudar seu perfil energético

País está entre os mais atrasados na Europa na expansão da cota de energia renovável de sua matriz energética

O vento é de longe a maior fonte de energia renovável da Grã-Bretanha, com capacidade geradora de energia que triplicou desde 2005, segundo estatísticas do governo

O gerente de informática aposentado Reg Thompson adora a vista da janela de seu quarto de dormir, com os campos verdejantes de Norfolk, no leste da Inglaterra. Mas se a E. ON, a companhia energética alemã, seguir seu projeto, a vista em breve vai incluir cinco turbinas eólicas com quinze vezes o tamanho de sua casa. A vista não é a única preocupação de Thompson, de 62 anos. Em abril, ele vestiu uma fantasia de pássaro com botas Wellington cor-de-rosa para protestar contra as turbinas e seus perigos para o ganso-de-pés-rosa, que tornou a região famosa. Restam apenas 250 mil deles e Thompson teme que as turbinas possam reduzir esse número.

“Fomos abençoados com esses animais raros, e o perigo é que eles se choquem com as turbinas ou percam seus alimentos no chão”, disse Thompson. O conselho local deverá decidir sobre os planos da E. ON ainda este ano.

Apesar da crescente oposição dos moradores, grupos de defesa da natureza e legisladores locais, o governo continua a pressionar por mais parques eólicos em todo o país. O tempo está passando para o prazo definido de 2020 pela União Europeia, quando a Grã-Bretanha terá de aumentar a quantidade de energia gerada por fontes renováveis para 15%, a partir dos 3% atuais. A Grã-Bretanha está entre os mais atrasados na Europa na expansão da cota de energia renovável de sua matriz energética e ocupa um dos três últimos lugares na classificação da União Europeia, à frente apenas de Luxemburgo e Malta.

Para muitos especialistas, a questão é saber se o governo cumprirá a meta dentro de uma década, especialmente em tempos de dinheiro curto. O governo de coalizão deve anunciar cortes drásticos nos gastos públicos em outubro como parte de um plano para reduzir o déficit recorde. E mesmo que o primeiro-ministro David Cameron tenha dito que a energia renovável permaneceria entre suas prioridades, não está claro o quanto ele será capaz de gastar em projetos enquanto o governo corta benefícios sociais.

Em um gigantesco salto para alcançar o objetivo da União Europeia, a Grã-Bretanha inaugurou, na semana passada, o maior parque de turbinas eólicas em alto mar do mundo, ao largo de Thanet, no Mar do Norte, na ponta sudeste da Inglaterra. Operada pela Vattenfall, uma companhia sueca de energia, tem cem turbinas espalhadas por mais de 35 quilômetros quadrados, com capacidade de gerar energia para 200 mil casas.

As turbinas da Vattenfall subiram a capacidade eólica da Grã-Bretanha para 5 gigawatts, energia suficiente para atender a todas casas da Escócia, disse o governo. Chris Huhne, secretário de energia da Grã-Bretanha, disse que o país estava “em uma posição única para se tornar líder mundial no setor”.

“Somos uma nação insular, e acredito firmemente que devemos aproveitar nossos recursos de vento, ondas e maré ao máximo”, disse Huhne. Na verdade, apesar da humilde posição no ranking do setor de energia renovável em termos percentuais, a Grã-Bretanha agora gera mais energia de origem eólica em alto mar do que qualquer outro país europeu, segundo o governo.

Com uma altura de 115 metros, as turbinas da Vattenfall são visíveis da costa, em Kent. Ao contrário dos parques eólicos em terra, no entanto, elas têm atraído menos objeção dos moradores locais. Como resultado, o governo passou a, recentemente, se concentrar mais em parques marinhos, embora sua construção seja mais cara.

Nos últimos cinco anos, também tem se focado em energia eólica, no lugar de outras fontes renováveis, como a energia de ondas e das marés, ou biocombustíveis. A Grã-Bretanha tem hoje 268 parques eólicos em comparação com um punhado de dispositivos de energia marinha, de acordo com a Renewable UK, uma associação da indústria. Isso desagrada alguns especialistas em energia, que alertaram sobre as limitações e desvantagens da energia eólica.

Ian Fells, professor de conversão de energia na Universidade de Newcastle, critica o governo por sua “obsessão” com a energia eólica. “Barragens de marés, por exemplo, poderiam produzir mais eletricidade do que parques eólicos marítimos por dois terços do custo”, disse Fells. “Além disso, o vento é mais ineficiente, pois é intermitente”, acrescentou, porque as correntes de ar mudam constantemente de velocidade e direção. “O governo está colocando todos os ovos no mesmo cesto.”

O vento é de longe a maior fonte de energia renovável da Grã-Bretanha, com capacidade geradora de energia que triplicou desde 2005, segundo estatísticas do governo. A capacidade de geração de energia hidrelétrica, a segunda maior fonte, permaneceu inalterada no período. Fells disse que uma das razões do gosto do governo pela energia eólica pode ser, ironicamente, porque as turbinas são visíveis para os contribuintes.

O governo também espera que o aumento do investimento na construção de parques eólicos e outras fontes renováveis de energia ajude a economia britânica a se recuperar da recessão econômica. Vários ministros saudaram a energia renovável como forma de criar empregos e competências locais, uma expectativa que pode se revelar excessivamente otimista.

Na construção do parque eólico de alto mar de Thanet, menos de um em cada três dos 3.600 trabalhadores eram britânicos, e menos de 20% do 1,2 bilhão de dólares que custou o projeto foi para empresas do Reino Unido, segundo Jason Ormiston, porta-voz da Vattenfall.

A Vattenfall e outros construtores e operadores do projeto de energia renovável britânico obtêm subsídios do programa oficial sustentado por um fundo que recolhe 1,4 bilhão de dólares anuais em pagamentos de multas de empresas poluidoras. O governo também concede milhões de libras em bolsas de pesquisa e desenvolvimento. Um dos favorecidos recentemente foi uma subsidiária da Mitsubishi, do Japão.