Entenda como microrganismos terrestres conseguem viver em condições similares às da lua gelada de Saturno
Encélado é uma das luas mais estudadas de Saturno por sua superfície congelada que esconde um oceano subterrâneo, espaço em que pode haver vida
Já distante da Terra, o planeta Saturno tem como característica em todo o Sistema Solar a sua grande quantidade de satélites. Dentre esses corpos que orbitam o planeta, um de grande destaque é Encélado, reconhecido pela ciência por seu gelo extenso e pelo oceano subterrâneo que ele esconde. Em uma pesquisa publicada na última semana pela Science Advances, pesquisadores alemães descobriram que microorganismos terrestres conseguem sobreviver em condições similares às do oceano escondido do satélite Encélado.
Encélado tem como uma de suas principais características os gêiseres que expulsam a água de seu oceano subterrâneo para fora da camada de gelo que cobre o corpo celeste. O fato fez com que, assim como Titã — lua de Saturno que contém uma atmosfera considerável — o satélite fosse estudado em larga escala pela ciência e visto como um possível ponto de vida fora da Terra, ao menos após a descoberta do fato, que só aconteceu durante os anos 2000.
Os organismos terrestres
Nas águas profundas do Japão, alguns microrganismos conseguem sobreviver em condições complexas de vida, como águas extremamente salgadas e gélidas. Foram esses seres microscópicos que, durante a pesquisa, conseguiram sobreviver à condições similares às do oceano de Encélado. Os seres são chamados de Methanothermococcus okinawensis e vivem perto de fontes hidrotermais no fundo do oceano — como gêiseres subterrâneos — e tem o trabalho de converter hidrogênio e dióxido de carbono em metano.
Nos anos 2000, a Nasa enviou ao espaço a nave Cassini, que tinha como missão principal o estudo de Saturno. Junto das observações do Telescópio Espacial James Webb, a agência americana identificou à época os gêiseres de Encélado, e com a ajuda da nave Cassini, coletou amostras da água da lua. A análise desses componentes encontrou traços de compostos orgânicos.
O estudo começou quando o autor líder, William Orsi, professor de geomicrobiologia na Universidade Ludwig-Maximilian em Munique, decidiu testar junto de sua equipe se conseguiam simular as condições aquáticas de Encélado, marcadas por águas salgadas e alcalinas. Ao combinar água com sais, carbonatos e pó de rochas, eles conseguiram gerar uma versão em miniatura do oceano do satélite.
A reação entre a água e as rochas começou a produzir hidrogênio na água simulada, e a inserção dos organismos metanógenos — ou seja, que produzem o gás como produto de seu metabolismo energético — diretamente do Japão mostrou que eles conseguiam sobreviver na água, até mesmo em condições que ultrapassam aquelas em que eles são encontrados naturalmente na Terra.
A descoberta abre espaço para que novas pesquisas possam ter como foco a busca por vida fora da Terra em um campo mais perto do que se esperava: em uma das luas de Saturno, “vizinho” dentro do Sistema Solar. “Se usarmos a definição celular de vida que entendemos hoje na Terra, os experimentos mostram que esses organismos, ou algo similar a eles, se estivessem em Encélado, teriam uma grande chance de sobreviver”, explica Orsi.







