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Em um coach, deve-se “buscar pela ciência”, sugere psicólogo

O americano Scott Kaufman falou a VEJA sobre coaching e educação; ele vem ao Brasil para palestra em São Paulo

Scott Kaufman, psicólogo e professor da Universidade de Columbia, especializado em inteligência e criatividade, virá ao Brasil na sexta-feira 20 para realizar uma palestra em um evento de educação, o G.A.T.E. Academy. Ele conversou com VEJA sobre o tema. E também sobre um assunto em voga, e que tem dividido especialistas na área (assim como psicólogos): a onda dos coaches.

O senhor defende a chamada “educação criativa”, afirmando que seria um processo de aprendizagem diferente do tradicional, e mais benéfico às crianças. O que seria isso? Grande parte da educação tradicional se baseia em um currículo fixo e é medida por meio de testes padronizados, como provas. Cada aluno é comparado aos outros com base em suas notas. A educação criativa é bem diferente. Ela muda o foco da avaliação para a inspiração. O estudante sente que o ambiente em que ele está não serve para testá-lo, mas para valorizá-lo enquanto pessoa. Eles têm mais oportunidades de escolher o que estudam e o que querem se tornar. Não é só o intelecto que é posto à prova, mas o aluno por inteiro, como pessoa. Seu caráter, suas paixões. A imaginação pode se expressar melhor assim, o que revela muito potencial em crianças que, normalmente, não têm espaço para serem elas mesmas. Para mim, a educação criativa dá abertura para se alcançar o potencial total, como ser humano, e não só como intelectual.

Isso tem ligação com educação política, que é outro tema que, digamos assim, está na moda? Tentamos manter a política fora da sala de aula nos Estados Unidos, mas a importância de pontos de vista é muito importante e deve ser prezada também nesse âmbito. Não acho que haja espaço para qualquer assunto político na educação. Melhor, ao menos qualquer tipo de ensino nesse sentido que não envolva ajudar os alunos a pensarem criticamente sobre a questão. Deve-se apresentar todas as informações relevantes, gerando um ambiente saudável e cheio de perspectivas diferentes. Nos EUA, há professores que afirmam que a evolução é uma farsa, por exemplo. Se o foco vira a crença do professor, os alunos não têm acesso à verdade. A verdade é um dos valores mais importantes na educação — se não o mais importante. O estudante deve decidir por si só com base em todas as evidências que recebe. 

Você é psicólogo. No Brasil, tivemos longas discussões entre psicólogos e coaches, com os primeiros afirmando que a prática de coaching deveria ser banida ou muito bem regulada. Qual é a sua opinião? Esse é um problema muito grande nos EUA também. O espectro de qualidade dos coaches existentes é vasto. Como qualquer um pode se chamar de coach, não há a necessidade de fazer cursos ou faculdade, por exemplo. Todos podem ser coaches. Por isso, a questão da qualidade é um problema.

Por quê? Pois aí os coaches podem afirmar coisas que nunca serão testadas, como: “Eu tenho uma relação com o divino que me mantém informado”. Alguns usam alegações assim para legitimar o exercício da atividade. O ideal seria ter uma empresa que regulasse a questão, testando a qualidade dos coaches, separando os bons dos ruins. Temos algumas organizações assim nos EUA. Nessas iniciativas, o processo de seleção é bem rigoroso. Sem esse tipo de peneira, o público está sujeito a indivíduos que se aproveitam dos vulneráveis, somente os explorando. Há quem veja o coaching apenas como uma forma de ganhar dinheiro, falando o que o cliente quer ouvir. 

Mas há bons profissionais nessa área? Sim. Há muitos ótimos coaches — alguns são até melhores do que vários psicólogos. Os bons coaches têm talentos sociais e fazem um ótimo trabalho, mesmo sem estudar tanto quanto psicólogos. Eles têm a habilidade inata de, por meio da intuição, chegar à raiz do problema de uma pessoa. Esses profissionais merecem ser coaches. Nem sempre os mais qualificados academicamente são bons profissionais, vale frisar. Eu conheço, por exemplo, vários psicólogos e terapeutas que são indivíduos horríveis.

Mas como detectar quem é bom nisso? Na hora de escolher um coach, o ideal é buscar por empresas que selecionam bons profissionais. Esse controle também pode vir do governo. Quaisquer organizações com experiência no assunto e que saibam quais qualidades procurar em um bom coach têm potencial de fazer um ótimo trabalho nessa questão.

Como essas organizações conseguem identificar um coach sério? Deve-se buscar pela ciência. Se o coach estudou ou se atualizou sobre as últimas pesquisas sobre o assunto, é um bom sinal, porque mostra que ele se importa com o que comprovadamente ajuda seus clientes. Há também alguns sinais que indicam que o coach não deve ser muito bom. Um indivíduo que faz mais marketing, do que fala de seu histórico, por exemplo. Quando a pessoa não tem muito treinamento ou avaliação de clientes anteriores, é bom dar um passo para trás. Agora, em resumo, um coach ancorado na ciência é sempre preferível.

Sobre o evento em que você discursará no Brasil, quais são as suas expectativas? Quero falar do potencial humano e de como extrair a totalidade das pessoas. Pais e professores limitam indivíduos, determinando como seria alguém bem-sucedido. E essa ilusão vem desde cedo. Quando o indivíduo é inspirado de formas mais criativas, ele pode nos mostrar tipos de inteligência que nós desconhecíamos. Vou falar sobre esse entendimento amplo que deveríamos ter das crianças e de seus jeitos de ser.

Você acha que a sociedade tem um papel opressor no sentido de determinar um modelo específico de pessoa que todos deveríamos seguir, sem considerar as diferenças entre nós? Com certeza. A mídia, por exemplo, estampa nas capas de revista os tipos de pessoa que devemos ser, e são sempre o mesmo tipo: os mais ricos, os mais poderosos. Precisamos de uma ideia ampla de quem nossos modelos podem ser. Necessitamos de referências de pessoas bem-sucedidas autistas, ou que batalharam contra doenças mentais ou contra a pobreza. É importante redefinir o que é o sucesso, e quais são nossos objetivos. A meta deveria ser o desenvolvimento pessoal, a autorrealização. É isso que deveríamos promover. E cabe aos pais, aos professores, aos líderes e à mídia mudar esse paradigma. Até mesmo os coaches podem ter papel, ajudando o cliente a encontrar as riquezas que ele já tem, em vez de buscar coisas externas a si.