Em meio aos perigos das fake news, uma turma da ciência produz conteúdo de alto nível nas redes
E essa produção já traz impacto positivo às pessoas
Não é preciso se embrenhar tão fundo nas redes para esbarrar com os onipresentes influencers, uma turma que tenta sobressair em meio ao feroz duelo por cliques se revestindo de predicados e, não raro, falando com desenvoltura sobre quase tudo sem ser especialista em quase nada. Ainda que a motivação possa ser boa, o perigo aí embutido é a disseminação de fake news que acabam por sedimentar mitos e desinformar vastas audiências virtuais, um desserviço à humanidade em escaninhos diversos. Um dos mais castigados é o da ciência, em que são comuns posts que colidem contra o que a nata da academia mundial já estudou e provou com base em olhar rigoroso. A inexistência do aquecimento global, campanhas antivacina, soluções mágicas para o emagrecimento — eis um breve repertório das bobagens que costumam viralizar em um universo no qual é tão difícil estabelecer as fronteiras entre o que vale ser consumido e o que precisa ser descartado em prol da excelência e do zelo com a própria saúde.
É sob essa moldura que tanto preocupa quem vive às voltas com régua científica elevada que um recém-publicado artigo da prestigiada revista Nature veio à tona, atiçando um salutar debate. A publicação fez uma varredura no ambiente digital para justamente mapear figuras que alcançam centenas de milhares de pessoas, às vezes milhões, com um filtro que barra os agitadores de bandeiras sem lastro em pesquisas e destaca gente de lustrosos currículos capaz de promover a “influência do bem”. Cinco casos exemplares despontam em uma amostra sabidamente muito maior, como ressalta o trabalho, que ainda enfatiza: “Para neutralizar o dilúvio de informações ruins, criadores de conteúdo pró-ciência estão usando estratégias de influencers”.
Um elo entre os propagadores do conhecimento de alto nível é a habilidade para usar a linguagem da internet a seu favor, se despindo do jargão técnico para abraçar vocábulos simples e exprimir ideias com clareza, agilidade e um quê de show. Foi ao perceber o festival de tolices ventiladas nas redes que a nutricionista australiana Megan Rossi, 37 anos, do King’s College de Londres, resolveu se aventurar no metiê para tratar de tópicos essenciais ao bem-estar: alimentação, exercício e sono. “Há muita coisa vendida como milagrosa, sem nenhum embasamento”, indigna-se ela, uma das citadas pela Nature, que acumula o batente no consultório com o dia a dia digital. Acompanhado por 4 milhões de espectadores virtuais em experimentos químicos superinteressantes, um outro mencionado no rol do periódico, o inglês Emanuel Wallace, o Big Manny, 27 anos, reconhece: “Sei que não pareço um cientista típico”.
Especialistas celebram o ingresso nas redes desse pessoal bem preparado, uma onda que ajuda a ampliar o alcance da informação confiável. “É preciso haver cada vez mais discussões sobre saúde em canais não convencionais”, afirma Amelia Burke-Garcia, diretora do Centro de Ciências da Comunicação em Saúde da Universidade de Chicago. Um dos ingredientes dos perfis de sucesso é observar o que mobiliza as rodas de conversa no instante da postagem. “Busco sempre acompanhar o que está viralizando. É um desafio acompanhar a velocidade das redes”, lembra a química Kananda Eller, 29 anos. Campeã nacional de seguidores no nicho (4,4 milhões), a bióloga gaúcha Mariana Krüger, 36 anos, conta que na pandemia experimentou dissabores diante da fartura de fake news, como a suposta ineficácia de vacinas contra a covid-19 e a glorificação da cloroquina, e partiu para a ação. Hoje é influencer em tempo integral, faturando com publicidade, e ora se veste de bactéria, ora de cérebro, para estimular o engajamento em vídeos ligeiros. “Mergulho em artigos científicos antes de fazer os roteiros”, explica.
A leva de cientistas-influencers serve como contraponto para lá de necessário à enxurrada de dados enganosos que circulam na vastidão das redes. Um levantamento da Universidade de Sydney, que analisou 1 000 publicações de perfis de gente que se passa por entendida, dá contornos ao enrosco: 94% discorrem sobre tópicos complexos sem evidências, sendo que 87% se concentram tão somente nos benefícios do que defendem. “As mídias digitais são um poderoso veículo de marketing, o que é especialmente nocivo na área médica”, diz Brooke Nickel, à frente da pesquisa. Ao redor do mundo, governos até tentam reduzir a desinformação na área — França e China estão entre os que impõem salgadas multas a quem se arvora pela trilha da saúde sem formação apropriada. No Brasil, tramita no Congresso um projeto que exige certificação para falar de medicamentos, terapias e procedimentos médicos no ambiente on-line. Vale urgência no exame da matéria. “A toda hora surge algo a ser desmentido”, lamenta a bióloga Ana Bonassa, 37 anos, que cravou a marca de 1 milhão de seguidores ao lado da farmacêutica Laura Marise, 38, ambas com PhD e exclusividade digital. Vale a pena curtir o trabalho dessa turma.
Publicado em VEJA de 10 de abril de 2026, edição nº 2990





