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Devagar se vai longe — só que não

Há uma forte correlação entre ritmo de vida e saúde econômica: países ricos miram no longo prazo, perseguem metas e andam depressa

Existe uma forte correlação entre percepção temporal, ritmo de vida e saúde econômica. Nos países ricos, a vida tende a ser acelerada, as pessoas costumam olhar além do aqui-agora e sabem perseguir metas. Ao contrário, nos países pobres, a vida é mais arrastada, a preferência é pelo presente, e objetivos distantes são negligenciados.

Em mais de trinta anos de pesquisas, os psicólogos americanos Philip Zimbardo e John Boyd tentaram entender as diferentes atitudes das pessoas em relação ao tempo e seu profundo impacto na sociedade. Para a dupla, as pessoas podem ser classificadas em três categorias: orientadas para o passado, presente ou futuro. Diversos fatores influem nessa orientação: religião, escolaridade, cultura, estabilidade socioeconômica, geografia e até o clima.

Pessoas focadas no passado tendem a remoer memórias, boas ou más. São ligadas às tradições familiares e frequentemente se entregam a fantasias sobre um passado idealizado. Abominam mudanças – a não ser que sejam para voltar no tempo. Sociedades voltadas para o passado costumam ser marcadas por um trauma passado, o que eleva a propensão à vingança e à violência e reduz a disposição para a conciliação. Convivem com baixo desenvolvimento econômico e tendem a ter maioria muçulmana ou católica.

Já os indivíduos focados no presente têm tendência a serem impulsivos, espontâneos, amigáveis, sensuais, aventureiros e altruístas. Negativamente, são indisciplinados, impontuais, têm comportamento sexual de risco, usam mais drogas e álcool e são menos cuidadosos com a saúde. Morar próximo à linha do Equador, viver em um país de maioria católica e com política e economia instáveis são fatores que predispõem à orientação para o presente.

Por fim, pessoas focadas no futuro tendem a ser mais bem-sucedidas na escola e no trabalho, comer bem, exercitar-se e fazer check-ups médicos. Torram menos dinheiro com bobagem, fazem economias e planejam a aposentadoria. Negativamente, trabalham demais, divertem-se de menos e são pouco altruístas. Fatores que influenciam a orientação no futuro são morar em região de clima temperado, ter família e governo estáveis, ser protestante ou judeu e ter alta escolaridade.

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Tempo e confiança – Para além dos fatores de ordem pessoal, os pesquisadores destacam a impacto das variáveis políticas e econômicas sobre a orientação temporal. “Quanto menos as pessoas confiam nas promessas do governo, das instituições e das famílias, mais elas evitam o futuro e focam no presente, criando um mundo de sim e não, branco e preto, em vez de um mundo de contingências e probabilidades”, dizem os psicólogos no livro O Paradoxo do Tempo, lançado em 2009 no Brasil. “O desenvolvimento de uma orientação para o futuro requer estabilidade e consistência no presente, ou as pessoas não podem fazer uma estimativa razoável das consequências de suas ações.”

Assim, quando a inflação sobe, o PIB cai e o índice de desemprego aumenta, o impacto não é somente no bolso de uma pessoa, mas no seu grau de confiança em relação ao governo. O mesmo critério se aplica às instituições jurídicas e legislativas. A cada vez que um juiz aparece dirigindo o carro que ele mandou apreender de um réu ou que o nome de um deputado surge na lista de acusados de corrupção, o país como um todo anda para trás.

A biologia do imediatismo – Ninguém nasce orientado para o futuro. Biologicamente, o ser humano é imediatista. Os genes programam as células para dar o melhor de si no começo da vida, e empurrar com a barriga o que há de pior. Como resumiu o biólogo inglês William Hamilton, a lógica do organismo é “viver agora, pagar depois”. Os espermas e óvulos produzidos na juventude, por exemplo, são de melhor qualidade do que aqueles do meio para o fim da vida fértil.

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Essa lógica faz sentido do ponto de vista evolutivo. Num ambiente repleto de ameaças, não há tempo a perder – por isso, nossos ancestrais caçadores-coletores viviam sob a égide do imediatismo. Com o advento da agricultura, os homens começaram a olhar mais longe e planejar: construir abrigos, confinar animais, armazenar alimentos etc. A perspectiva temporal mudou: em vez de olhar somente para o ciclo noite/dia, o homem passou a observar as fases da lua e as estações do ano. Pensar à frente foi um elemento essencial para nossos antepassados que sobreviveram aos invernos sem comida.

A capacidade de olhar para o futuro é um aprendizado para cada ser humano. Um bebê não está preocupado com a refeição de amanhã, mas com a fome que sente agora. Ele terá de aprender a controlar seus impulsos. No famoso “experimento do marshmallow”, o psicólogo Walter Mischel, da Universidade Stanford, testou a habilidade de autocontrole de crianças de quatro anos. A maioria não conseguiu controlar o desejo de gratificação imediata e comeu o doce, enquanto um terço esperou 15 minutos e foi recompensado com duas guloseimas.

Pesquisas com as mesmas crianças anos depois mostraram que aquelas que esperaram tinham mais autoconfiança e lidavam melhor com o stress e a adversidade na vida adulta. Além disso, tiraram notas mais altas no SAT, o vestibular americano, do que as que não controlaram o impulso. Elas começaram a desenvolver, desde cedo, a habilidade de olhar para o futuro.

Brasil em ritmo lento – Por razões culturais profundas, o Brasil está em grande parte orientado para o presente. Nos anos 1970, durante uma temporada em Niterói (RJ), a impontualidade dos brasileiros, o descompromisso e a imprecisão dos relógios desnortearam o psicólogo americano Robert Levine. “Por mais que eu tentasse desacelerar”, lembra, “acabava sempre ouvindo um ‘Calma, Bobby, calma’.” O choque cultural o levou a centrar suas pesquisas nas relações entre cultura e perspectiva temporal.

Levine viajou o mundo e comparou o ritmo de 31 países, com atenção a três variáveis: velocidade do pedestre; agilidade dos Correios; acurácia dos relógios. Ele descreveu o resultado no livro Uma Geografia do tempo: o brasileiro caminha devagar (última posição no ranking), é impreciso na contagem das horas (28º lugar) e perde tempo para comprar um selo (24º lugar). Na média geral, o país ficou em 29º lugar, entre El Salvador e Indonésia. O primeiro lugar é da Suíça.

O psicólogo retornou ao Brasil em 2013 e acredita que o país ainda demonstra uma incrível vocação para relaxar. Desta vez ele foi à Bahia. A bagagem se perdeu no caminho. Até reavê-la, foram três dias – quase o tempo de toda sua estadia. Não passou despercebido ao americano que ‘esperar’, em português, pode assumir os sentidos de espera, esperança e expectativa (‘wait’, ‘hope’ e ‘expect’).

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Acelerando – Então estamos condenados a viver no dia da marmota? Para John Boyd e Philip Zimbardo, não. “A atitude de uma pessoa em relação ao tempo é em grande parte fruto do aprendizado”, dizem. O ritmo da vida e a percepção do tempo na comunidade onde vivemos são internalizados, aceitos e disseminados por nós. Investir em educação é uma maneira de se ensinar uma criança a dar valor ao futuro.

Levine concorda. “A maneira como a pessoa enxerga o tempo reflete o modo como ela encara a vida”, diz. Não se trata de perder a espontaneidade – uma qualidade da orientação no presente – e tornar-se um maníaco por controle – um defeito que pode emergir do foco no futuro -, mas de encontrar um meio termo saudável e aprender a mudar de ritmo conforme a necessidade. Levine ressalta que algumas pessoas não separam o ritmo no trabalho dos demais momentos da vida. “Tem gente que precisa se sentir ocupada o tempo todo. No Brasil, notei que as pessoas que trabalhavam em ritmo acelerado podiam adotar um ritmo mais lento de vida ao final do expediente”, diz. “A chave é procurar um equilíbrio e tomar controle da situação, para que você não sinta que está abrindo mão de outras coisas da sua vida.”