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Defensores da ‘ciência aberta’ escancaram processo científico

Corrente critica revistas científicas e propõe modelos alternativos para divulgação de pesquisas

Por Thomas Lin - Atualizado em 6 Maio 2016, 16h47 - Publicado em 5 fev 2012, 10h33

Neste ano, o periódico The New England Journal of Medicine marca seu 200º aniversário com uma programação em comemoração aos avanços científicos descritos pela primeira vez em suas páginas: o estetoscópio (1816), o uso de éter para fins anestésicos (1846) e a desinfecção das mãos e de instrumentos antes de cirurgias (1867), entre outros.

Durante séculos, a ciência tem funcionado assim – por meio de pesquisas conduzidas no âmbito privado, submetidas em seguida a periódicos científicos e médicos para serem revistas por pareceristas e publicadas visando o benefício de outros pesquisadores e do público em geral. Contudo, para muitos cientistas, a longevidade desse processo não merece comemorações.

Para eles, esse sistema é inflexível, caro e elitista. Os pareceres às vezes levam meses para sair, o alto custo das assinaturas dos periódicos pode ser proibitivo e alguns poucos “guardiões” limitam o fluxo de informações. Para o físico quântico Michael Nielsen, o sistema é ideal para partilhar o conhecimento – mas apenas “se você estiver preso à tecnologia do século XVII”.

Nielsen e outros defensores da “ciência aberta” afirmam que a ciência pode realizar muito mais, muito mais rápido, em um ambiente de colaboração livre por meio da Internet. E, apesar de uma série de obstáculos, incluindo o ceticismo de muitos cientistas consagrados, as suas ideias têm ganhado força.

Nos últimos anos, surgiram arquivos e revistas de acesso livre, como o arXiv e a Biblioteca Pública de Ciência (PLoS). O GalaxyZoo, um site de ciência-cidadã, classificou milhões de objetos presentes no espaço, revelando características que levaram a uma série de trabalhos científicos.

No blog colaborativo MathOverflow, os matemáticos somam pontos por contribuírem com soluções para problemas; em 2009, durante outro experimento matemático, batizado de Polymath Project, os matemáticos que comentaram no blog de Timothy Gower, medalhista do prêmio Fields, encontraram uma nova demonstração para um teorema particularmente complicado em apenas seis semanas.

Além disso, a rede social ResearchGate – um site onde os cientistas podem responder a perguntas uns dos outros, compartilhar artigos e encontrar colaboradores – está ganhando popularidade rapidamente.

Os editores dos periódicos tradicionais dizem que ciência aberta parece ótima na teoria. Na prática, porém, “a comunidade científica é bastante conservadora”, afirmou Maxine Clarke, editora executiva da Nature, revista que possui fins lucrativos. Ela acrescentou que a publicação tradicional de artigos em formato impresso ainda é vista como “um critério de atribuição de subvenções ou avaliação de cargos e títulos”.

Nielsen, de 38 anos, que abandonou uma carreira bem sucedida como cientista para escrever “Reinventing Discovery: The New Era of Networked Science” (“Reinventando a Descoberta: A Nova Era da Ciência em Rede”, em tradução literal), concordou que os cientistas têm sido “muito inibidos e lentos no que diz respeito à adoção de uma série de ferramentas disponíveis online”. Ele acrescentou, porém, que a ciência aberta tem começado a constituir algo que “se assemelha a um movimento”.

Facebook para cientistas? – “Quero tornar a ciência mais aberta. Quero mudar esse quadro”, disse Ijad Madisch, 31, virologista formado em Harvard e cientista da computação por trás do ResearchGate, a rede social online destinada aos cientistas.

Criado em 2008 com poucos recursos, o site foi reformulado a partir da opinião de cientistas. Seu número de membros cresceu rapidamente, para mais de 1,3 milhões, contou Madisch, o que tem atraído vários milhões de dólares em capital de risco de alguns dos investidores que apostaram pela primeira vez no Twitter, no eBay e no Facebook.

Um ano atrás, o ResearchGate tinha 12 funcionários. Agora, tem 70 e continua a contratar pessoal. A empresa, sediada em Berlim, é inspirada em startups do Vale do Silício. Oferece almoço, bebidas e frutas gratuitamente, e cada um dos funcionários é dono de parte da empresa.

O site é uma espécie de mistura entre Facebook, Twitter e LinkedIn, com páginas com perfis, comentários, grupos, listas de trabalho e botões de “curtir” e “seguir” (mas sem fotos de bebês, vídeos de gatos e autoelogios velados). Só os cientistas são convidados a fazer e a responder perguntas – uma regra que não deve ser difícil de aplicar, já que apenas um cientista poderia adorar tópicos de discussão sobre temas como reações em cadeia da polimerase.

Os cientistas completam os seus perfis no ResearchGate com seus nomes verdadeiros, detalhes profissionais e publicações – dados que o site usa para sugerir conexões com outros membros. Os usuários podem criar grupos de discussão pública ou privada, além de compartilhar artigos e materiais de aula. O ResearchGate também está desenvolvendo um sistema de “classificação de reputação” para recompensar os membros pelas contribuições disponibilizadas online.

O ResearchGate provê uma manobra simples, mas eficaz, para driblar a restrição de acesso a periódicos com o seu “repositório de autoarquivamento”. Como a maioria dos periódicos permite que os cientistas linkem para os seus trabalhos em seus próprios sites, Madisch sugere que os usuários o façam nos seus perfis do ResearchGate. Além de abrigar mais de 350 mil artigos, a plataforma oferece acesso a 40 milhões de resumos e artigos de outros bancos de dados científicos.

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O comércio de artigos – Segundo escreveu o Dr. Soenke H. Bartling, pesquisador do Centro Alemão de Pesquisa do Câncer que está editando um livro sobre a “Ciência 2.0”, para os cientistas se afastarem do que atualmente constitui “um processo altamente coeso e controlado”, é necessário um novo sistema de avaliação do valor das pesquisas. Se o acesso livre for providenciado por meio de blogs, seria isso realmente algo bom, questionou ele, “se o pesquisador não adquirir renome nem verba desse jeito?”.

Alterar o status quo – disponibilizar dados, documentos, ideias de pesquisa e soluções parciais para toda e qualquer pessoa – ainda é muito mais uma ideia do que uma realidade. Como argumentam os periódicos consagrados, eles prestam um serviço fundamental que não sai barato.

“Eu adoraria que ela fosse de graça”, afirmou Alan Leshner, editor executivo da revista Science, mas “temos de cobrir os custos.” Esses custos giram em torno de 40 milhões de dólares por ano para produzir a respeitada revista sem fins lucrativos, que possuiu mais de 25 editores e autores, equipes de vendas e produção e escritórios na América do Norte, Europa e Ásia, para não mencionar as despesas de impressão e distribuição (como outras organizações da mídia, a Science tem respondido ao declínio nas receitas de publicidade enfatizando sua presença na Internet, e a maior parte do crescimento de sua renda vem de assinaturas online).

Da mesma forma, a Nature emprega uma grande equipe editorial para gerenciar o processo de emissão de pareceres, além de selecionar e preparar artigos “surpreendentes e originais” para publicação, contou Clarke, o editor. E custa caro verificar a ocorrência de plágio e inspecionar os dados “para assegurar que eles não foram manipulados”.

Os periódicos revisados por pareceristas que podem ser acessados livremente, como o Nature Communications e o PLoS One, cobram dos autores taxas pela publicação dos artigos – 5,000 e 1,350 dólares, respectivamente – para custear suas despesas mais modestas.

A maior das editoras de periódicos, Elsevier, cujos produtos incluem os periódicos The Lancet e Cell e o ScienceDirect, um arquivo on-line que pode ser acessado por meio de assinaturas, tem atraído críticas consideráveis de defensores do acesso livre e bibliotecários, que estão especialmente irritados com o seu apoio ao Projeto de Lei Contra o Acesso Livre, apresentado ao Congresso norte-americano em dezembro, que visa a proteger os direitos das editoras por meio da restrição efetiva do acesso a trabalhos e dados de pesquisa.

Ciência 2.0 – Scott Aaronson, teórico de computação quântica do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, tem se recusado a emitir pareceres e a enviar artigos para revistas com fins lucrativos. “Eu cansei de trabalhar de graça para essas empresas endinheiradas que visam lucro”, justificou.

Aaronson também é membro ativo de comunidades científicas online, como a MathOverflow, na qual ele acumulou pontos suficientes para editar comentários de outras pessoas. “Nós não estamos falando de novas tecnologias que têm que ser inventadas”, disse ele. “As coisas estão se modificando nesse sentido. Os periódicos parecem visivelmente menos importantes do que há 10 anos.”

Leshner, editor da revista Science, concorda que as coisas estão se modificando. “Será que o modelo das revistas de divulgação científica será o mesmo daqui a 10 anos? Eu duvido”, afirmou. “Eu acredito na evolução.”

“Quando surgir um sistema melhor, dotado de qualidade e confiabilidade, isso vai acontecer. É assim que a ciência progride, por meio de experiências científicas. Isso também deveria ser feito com a publicação de textos científicos.”

Matt Cohler, o antigo vice-presidente de gestão de produto do Facebook, que agora representa a Benchmark Capital na diretoria da ResearchGate, vê um enorme potencial de mercado na ciência online.

“É uma das últimas áreas onde não existe nada que responda às necessidades fundamentais desse grupo de pessoas na Internet”, disse ele, acrescentando que “trilhões” são gastos anualmente em pesquisas científicas ao redor do mundo. A aposta dos investidores é de que um site que atenda os cientistas de modo bem sucedido possa abocanhar pelo menos uma fatia desse mercado.

Madisch, do ResearchGate, reconheceu que talvez nunca atraia os cientistas consagrados para quem as redes sociais podem soar como uma língua estrangeira ou uma perda de tempo. Porém, segundo ele, a situação será completamente diferente quando os jovens cientistas de hoje, que cresceram em meio às mídias sociais e à colaboração em código aberto, inaugurarem seu próprio laboratório.

“Se anos atrás você dissesse: ‘Um dia você vai estar no Facebook compartilhando todas as suas fotos e informações pessoais com as pessoas’, não acreditariam em você”, disse ele. “Estamos apenas no início. Ainda vem mudança por aí.”

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