Como um vírus escondido em múmias chilenas liga a varíola à colonização das Américas
Novo estudo identificou o genoma da até então primeira variante da varíola que chegou às Américas, e suas informações mostram que ela veio da Europa
Para a América Central e do Sul, grande parte do século 15 foi marcada pela chegada dos europeus que, durante todo o período de colonização, trouxeram em seus navios as doenças da região que ainda não haviam sequer chegado às populações que já viviam na área. Dentre esses povos, o corpo mumificado de dois indivíduos Incas hoje serviu como base para que pesquisadores do Trinity College de Dublin e da Universidade do Chile identificassem o genoma da mais antiga variante da varíola que chegou ao continente, diretamente dos europeus, e devastou as sociedades do Novo Mundo. O estudo foi publicado nesta quarta-feira, 30, na revista Science.
Durante o período colonial, além da violência por dominação, as doenças foram uma forma indireta de agressão que ceifou a vida de povos inteiros das Américas. A varíola, que rapidamente se espalhou entre as regiões Norte, Central e Sul do continente americano, causou cerca de três a quatro milhões de mortes. Os pesquisadores do estudo, liderados pelo geneticista Bruno González, analisaram os restos mortais de uma mulher e um homem incas, naturalmente mumificados no sítio arqueológico Camarones 9, na região norte do Chile.
A análise dos restos identificou uma variante da varíola nomeada como “CAM9”. Essa versão da doença foi comparada com versões antigas e modernas da varíola, para identificar as similaridades e diferenças entre elas. Após análises, o grupo identificou que a versão CAM9 do vírus faz parte de uma “linhagem” que vem diretamente das versões antigas da Europa, e que posteriormente se tornou a varíola moderna. O estudo conclui que a CAM9, variante mais antiga da varíola já encontrada no continente americano, não poderia ter se originado de outro lugar senão da Europa, tendo em vista sua linhagem.
O estudo da variante e de sua “história” mostrou que houve transmissão local da doença em populações indígenas da região, especificamente no período entre 1492 e 1631. Além disso, os dados analisados mostraram que diversas características da varíola já estavam presentes em sua versão CAM9. Durante os séculos seguintes, a doença evoluiu e sofreu mutações, até alcançar o seu estado conhecido por ser a varíola moderna, erradicada desde 1980 por causa da vacinação.







