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Cientistas europeus avaliam entrada do Brasil no CERN

O Brasil está a alguns passos de se tornar membro associado do Centro Europeu de Pesquisa Nuclear (CERN, na sigla em inglês), um dos mais importantes grupos de pesquisa do mundo, responsável pelas mais recentes descobertas na área da física de partículas elementares. Mas, para isso, a ciência brasileira precisa passar por uma avaliação. Durante esta semana, uma comissão de pesquisadores do CERN visitou o país, avaliando instalações de pesquisa, universidades e indústrias. A visita faz parte de um longo processo que teve início em 2010, quando a organização passou a aceitar membros não europeus e o Brasil demonstrou o interesse de fazer parte do grupo.

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LHC

O Grande Colisor de Hádrons (do inglês Large Hadron Collider, LHC) é o maior acelerador de partículas do mundo, com 27 quilômetros de circunferência. Ele pertence ao CERN, o centro europeu de pesquisas nucleares e está instalado na fronteira franco-suíça. Em seu interior, partículas são aceleradas até 99,9% da velocidade da luz. Os experimentos ajudam a responder questões sobre a criação do universo, a natureza da matéria e fenômenos exóticos observados no espaço.

BÓSON DE HIGGS

O bóson de Higgs é uma partícula subatômica prevista há quase 50 anos. Após décadas de procura, os físicos ainda não conseguiram nenhuma prova de que ela exista. O Higgs é importante porque a existência dele provaria que existe um campo invisível que permeia o universo. Sem o campo, ou algo parecido, nada do que conhecemos existiria. Os cientistas não esperam detectar o campo — em vez disso, eles esperam encontrar uma pequena deformação nele, chamada bóson de Higgs.

Vinte países europeus são oficialmente membros do CERN, fundado em 1954. Outros 40 países, incluindo o Brasil, possuem pesquisadores envolvidos nos projetos. A organização é responsável pela construção do maior acelerador de partículas do mundo, o LHC, onde foram descobertos recentemente indícios da existência do Bóson de Higgs.

“O Brasil está buscando uma associação mais formal com o CERN. Além de ajudar no desenvolvimento de experimentos, o país poderá se beneficiar da nossa tecnologia e de nossas parcerias educacionais”, disse ao site de VEJA Felicitas Pauss, chefe de Relações Internacionais do CERN, durante encontro com cientistas brasileiros na Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

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Felicitas Pauss liderou a equipe do CERN que visitou o Brasil. O grupo passou por Rio de Janeiro, Brasília, Campinas e São Paulo. Além de visitar universidades, a comitiva avaliou a indústria e a engenharia brasileiras, uma vez que, ao se tornar membro do CERN, o Brasil poderá fornecer tecnologia para novas pesquisas da organização.

O grupo também se encontrou com integrantes do governo para avaliar o incentivo à pesquisa e o potencial do país na área da física elementar. “Se tornar um membro do CERN é um comprometimento de longo prazo. Nós só podemos entender se o país está pronto para isso por meio da conversa com autoridades”, disse Felicitas Pauss.

Após a visita, o grupo deve produzir um relatório sobre as condições da pesquisa de física – principalmente na área das partículas elementares – no país. O documento será analisado pelo Conselho da entidade, que reúne os vinte membros atuais. São eles que decidirão se o Brasil passará ou não a fazer parte do grupo.

Felicitas Pauss

Felicitas Pauss (/)

“Vivemos um período muito interessante para a física, e o Brasil pode fazer parte disso”

Felicitas Pauss

Chefe de relações internacionais do CERN e coordenadora da missão no Brasil

O que significa para o Brasil se tornar um membro associado do CERN? É um compromisso de longo prazo – o CERN existe há cerca de 50 anos – e a chance de fazer parte de uma instituição mundial única. Não existe nada equivalente em nenhuma outra área de pesquisa. São mais de 11.000 cientistas e engenheiros de mais de 60 países participando de nossas atividades científicas. A nossa missão principal é a pesquisa fundamental na área da física de partículas. Queremos, basicamente, aprender mais sobre o nosso universo. Para conseguir isso, precisamos desenvolver novas tecnologias. Temos tido uma história interessante nessa área das tecnologias – a web como conhecemos surgiu no CERN há 22 anos [Foi Tim Berners-Lee, cientista do CERN, que criou a World Wide Web, em 1989]. Com a entrada do Brasil, o país também poderá fornecer tecnologias para nossos experimentos. Nós também nos preocupamos com a educação – estamos treinando a próxima geração de físicos e engenheiros. Nossos projetos nesse setor costumam ter um grande impacto na área, e o Brasil poderá ter uma participação maior nesses programas.

Quais seriam os benefícios para o CERN se o Brasil for aceito como membro? Para começar, os países membros têm de colaborar com uma taxa, que depende de seu PIB. É claro que isso significa um benefício para o CERN. Também ganhamos em a colaboração científica. Em 2010 decidimos que qualquer país, independentemente de ser europeu ou não, poderia fazer parte da organização. Fizemos isso porque a ciência funciona além de qualquer fronteira política. Nossos experimentos são globais, temos pessoas de vários países trabalhando juntas. Achamos que isso deveria estar refletido nos países membros.

Quando poderemos saber se o Brasil foi ou não aceito no CERN? Infelizmente não é possível adiantar quais são as conclusões da equipe. Agora, vamos produzir um relatório com as informações que temos e o enviaremos ao Conselho do CERN. A próxima reunião é em dezembro, a seguinte é em março – acho que conseguiremos produzir o documento até lá. Os conselheiros devem discutir a adesão do Brasil com base nesse texto. E, se o país for aceito, o CERN começa negociar com o governo brasileiro os termos do acordo a ser firmado.

A descoberta do Bóson de Higgs aconteceu em julho. O Brasil não pode estar entrando atrasado no CERN? De jeito nenhum. Estamos falando de duas coisas diferentes. Pesquisadores brasileiros estão envolvidos nessa pesquisa há muitos anos. Eles fazem parte da descoberta, e merecem tanto crédito pela descoberta quanto qualquer outro participante. Agora, o Brasil quer fazer parte do projeto de modo mais formal, ter uma participação maior em termos de inovação e no desenvolvimento das pesquisas. Ano que vem, devemos atualizar os equipamentos do LHC, e o Brasil poderá colaborar com a tecnologia. Além disso, a descoberta do Bóson de Higgs – que ainda precisa ser confirmada – é apenas o começo de uma longa jornada. Vivemos um período muito interessante para a física, e o Brasil pode fazer parte disso.