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Cientistas detectam atividade cerebral em coma profundo

Fenômeno, identificado em um paciente que recebia remédios para epilepsia, foi reproduzido em gatos e pode levar a novos tipos de terapias

Cientistas descobriram um novo tipo de estado de coma, mais profundo do que o conhecido atualmente. Nesse novo estado, o coma está em um estágio além do marcador de morte cerebral atual – a linha reta do eletroencefalograma, que indica nenhuma atividade cerebral. No novo tipo de coma, no entanto, uma pequena atividade cerebral volta a acontecer. O estudo foi descrito no periódico médico Plos One.

CONHEÇA A PESQUISA

Título original: Human Brain Activity Patterns beyond the Isoelectric Line of Extreme Deep Coma

Onde foi divulgada: periódico Plos One

Quem fez: Daniel Kroeger, Bogdan Florea e Florin Amzica

Instituição: Universidade de Montreal, Canadá, e Centro Médico Regina Maria, na Romênia

Resultado: Os pesquisadores encontraram um novo tipo de atividade cerebral no hipocampo, que ocorre em um estado de coma profundo, quando não há mais atividade na região principal do cérebro

Os pesquisadores puderam observar essa atividade cerebral em um paciente que se encontrava em coma profundo e estava recebendo medicamentos antiepilépticos. “O médico Bogdan Florea, da Romênia, entrou em contato com nossa equipe porque observou um fenômeno inexplicável no eletroencefalograma de um paciente em coma. Percebemos que havia uma atividade cerebral, até hoje desconhecida, no cérebro desse paciente”, conta Florin Amzica, principal autor do estudo e professor da Universidade de Montreal.

Para estudar melhor o fenômeno, os pesquisadores decidiram recriar o estado do paciente em gatos, animal usado como modelo para estudos de neurologia. Com o anestésico isoflurano, induziram 26 gatos a um coma profundo, mas reversível. Os animais deixaram de apresentar atividade no córtex, região dominante do cérebro, passando a apresentar uma linha reta no eletroencefalograma. Porém, em seguida, todos apresentaram oscilações geradas no hipocampo (parte do cérebro responsável pela memória e pelo aprendizado), que eram transmitidas para o córtex, da mesma forma como havia sido observado no paciente.

Morte cerebral – Os autores ressaltam, no entanto, que a descoberta não significa que o conceito de morte cerebral utilizado até hoje esteja incorreto. “Pessoas que decidiram ou precisaram desligar os aparelhos de um parente não precisam se preocupar ou desconfiar dos médicos. Os critérios atuais para diagnosticar morte cerebral são muito rigorosos. Nossa descoberta pode, em longo prazo, levar a uma redefinição de critérios, mas estamos longe disso”, afirma Amzica.

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Potencial terapêutico – Um dos potenciais da descoberta é a possibilidade do uso terapêutico de um coma extremamente profundo. Quando alguns pacientes se encontram em condições muito severas, os médicos induzem o coma para proteger o organismo e o cérebro, até que a pessoa possa se recuperar.

Segundo Amzica, o coma mais profundo – produzido nos gatos – pode oferecer uma proteção ainda maior. Isso porque a ausência total de atividade cerebral do coma induzido pode levar à atrofia no cérebro, algo prejudicial ao paciente. Assim, um estado de coma em que uma pequena parte da atividade é mantida pode ter o efeito contrário, e ser benéfico. Ainda serão, entretanto, necessários mais estudos para que essa hipótese seja confirmada.