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Cientistas descobrem linguagem secreta de primatas asiáticos

Társios das Filipinas, primatas com poucos centímetros de altura, se comunicam por ultrassons, frequência inaudível para predadores

Por Da Redação Atualizado em 6 Maio 2016, 16h46 - Publicado em 8 fev 2012, 12h39

Os társios das Filipinas (Tarsius syrichta), pequenos primatas que cabem na palma da mão de um homem e se alimentam de insetos, sempre foram considerados estranhamente quietos. E era isso mesmo o que eles queriam. Na verdade, esses mamíferos de olhos grandes gritam alto nas árvores em que vivem para se comunicar com parentes e membros do grupo. Tão alto que não conseguimos ouvi-los: eles se comunicam em frequências ultrassônicas, além da capacidade de audição do homem e da maioria dos predadores.

CONHEÇA A PESQUISA

Título original: Primate communication in the pure ultrasound

Onde foi divulgada: revista Biology Letters

Quem fez: Marissa Ramsier, Andrew Cunningham, Gillian Moritz, James Finneran, Cathy Williams, Perry Ong, Sharon Gursky-Doyen e Nathaniel Dominy

Instituição: Universidades Humboldt, da Califórnia, e Texas A&M, ambas dos EUA

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Dados de amostragem: Famílias de primatas Tarsius syrichta

Resultado: Esses primatas se comunicam em frequências ultrassônicas de até 90 quilohertz. Essa habilidade os protege de predadores e ajuda a achar comida.

A comunicação ultrassônica é uma habilidade para poucos animais, como os morcegos, e nunca havia sido registrada entre primatas modernos, incluindo os seres humanos. Nossa capacidade vai, aproximadamente, até os 20 quilohertz. Já os társios conseguem escutar frequências de até 90 quilohertz. As ondas de propagação dessas frequências são mais rápidas, o que faz com que, mesmo conseguindo escutá-las, seja difícil identificar sua origem.

A comunicação desses animais, portanto, os protege de pássaros e outros predadores. Essa é uma das maneiras de proteção da espécie, que não tem como se defender de inimigos maiores. A outra é dormir durante o dia e aproveitar a escuridão da noite para comer e socializar.

As conclusões foram publicadas em um artigo na última edição da revista Biology Letters e foram possíveis porque o pequeno primata se traiu em um detalhe. A bióloga e antropóloga Sharon Gursky-Doyen, da Universidade Texas A&M, nos Estados Unidos, percebeu que, apesar de não emitirem sons, os társios abrem bem a boca, como quem está gritando, e atraem a atenção dos companheiros. Ela estava estudando esses primatas em florestas do Sudeste Asiático e resolveu testar com eles um microfone usado para gravar morcegos. E sua linguagem secreta foi finalmente decifrada.

Além de protegê-los dos predadores, a capacidade de ouvir e emitir ultrassons também deve ajudar os társios a conseguir comida. Grilos e outros insetos que fazem parte do cardápio desse primata também se comunicam em altas frequências.

Em entrevista ao site da revista Science, o especialista em primatas Mark Coleman, da Universidade Midwestern, também nos EUA, disse que os társios podem não ser um exemplo de evolução de linguagem entre primatas, mas um elo com o passado do gênero. “Eles são um resquício de primatas realmente ancestrais, quando a alta frequência era a norma”, afirmou. Ele se baseia em fósseis de primatas de milhões de anos, cujo aparelho auditivo parece bem preparado para escutar ultrassons. Para o cientista, essa era uma arma para escapar de dinossauros famintos.

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