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Cientistas deixam vírus da gripe aviária mais letal. Devem revelar ao mundo a receita?

Órgão de análise científica dos EUA tenta barrar a publicação de pesquisa que fez o vírus da gripe aviária se tornar transmissível pelo ar entre humanos

Por Aretha Yarak - Atualizado em 6 maio 2016, 16h49 - Publicado em 15 jan 2012, 10h25

Em setembro de 2011, cientistas holandeses e americanos, coordenados por Ron Fouchier e Yoshihiro Kawaoka, criaram uma mutação no vírus Influenza A H5N1, causador da temida gripe aviária. Após a alteração, o vírus se tornou ainda mais perigoso: pela primeira vez, ele ganhou a ‘habilidade’ de contaminar mamíferos pelo ar. O Painel Científico Consultivo para Biossegurança Nacional (NSABB, na sigla em inglês), órgão do Departamento de Saúde dos Estados Unidos, considerou a pesquisa um risco à saúde pública e vem tentando, convencer as revistas científicas Nature e Science a publicarem versões modificadas do estudo.

Vírus Influenza A H5N1

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O vírus H5N1 raramente infecta humanos. Desde 1997, quando foi relatado o primeiro episódio, em uma criança asiática de três anos de idade, a Organização Mundial de Saúde registrou cerca de 600 casos. O temor que ele provoca tem a ver com o alto grau de letalidade – dos 600 infectados, mais de 300 morreram. Para a nossa sorte, o vírus é de difícil contágio em humanos. Para infectar o homem, é necessário o contato com aves doentes e, ainda mais raramente, alguém contaminado pode transmitir a doença para outra pessoa. Os poucos casos documentados de transmissão entre humanos nunca foram inteiramente confirmados e teriam se dado após longo convívio entre uma pessoa doente e outra infectada, não pela via aérea.

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O estudo realizado pela equipe de Fouchier conseguiu reverter essa ‘dificuldade’ de infecção entre humanos do H5N1: após uma série de mutações, o vírus se tornou altamente transmissível pelo ar entre furões (modelo animal preferido para o estudo da gripe em humanos). Os caminhos percorridos para se chegar a esse resultado, no entanto, ainda permanecem desconhecidos. A pesquisa ainda não foi publicada, graças aos reiterados pedidos do governo americano para que seja censurada.

A censura – Em comunicado oficial, o NSABB recomendou em dezembro às revistas Nature e Science (periódicos aos quais os artigos foram submetidos para veiculação) que publicassem apenas uma versão modificada, excluindo a metodologia da mutação dos originais. O órgão, que não tem poder para de fato censurar ou mesmo julgar alguém pela publicação do estudo, justifica a recomendação com o risco do estudo ser usado por “pessoas que desejem fazer o mal.” Em outras palavras, para fins de bioterrorismo. Tanto a Science como a Nature resolveram aguardar pelas próximas recomendações do governo americano.

“Uma preocupação importante é a de que o vírus seja replicado mundo afora e acabe escapando dos laboratórios. Essa pesquisa não deveria nem ter sido feita”, diz Donald Henderson, professor emérito da Escola de Medicina da Universidade Johns Hopkins e conceituado pesquisador em bioterrorismo. Para o especialista, os riscos apresentados em um estudo como esse são muito maiores do que os benefícios. “Não dá para garantir que esses resultados ajudarão na criação de drogas ou vacinas mais eficientes. A pesquisa toda não faz sentido”, condena.

A opção pela censura, no entanto, é rebatida energicamente pela comunidade científica. Segundo Ricardo José Giordano, presidente da Comissão Interna de Biossegurança do Instituto de Química da USP, impedir a disseminação do conhecimento é impor barreiras ao avanço da ciência. “Os benefícios da publicação desse material são muito maiores. É importante que os cientistas que trabalham com esse vírus tenham acesso a esses dados”, diz.

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O que dizem os especialistas:

Donald Henderson

“Uma preocupação importante é a de que esse vírus possa ser replicado mundo afora e acabar escapando dos laboratórios. Isso levaria à contaminação de milhares de pessoas. Essa pesquisa não deveria nem ter sido feita.”

Donald Henderson, professor emérito da Universidade Johns Hopkins e pesquisador em bioterrorismo

Vincent Racaniello

“É fundamental que todo pesquisador tenha acesso aos resultados desse estudo. Essa é a base da ciência: o conhecimento tem de ser rotativo, dando a oportunidade de diversas mentes pensarem juntas um mesmo problema. Só assim é possível encontrar soluções.”

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Vincent Racaniello, professor de virologia na Universidade de Columbia

Para Vincent Racaniello, professor de virologia na Universidade de Columbia, proibir a publicação da pesquisa beira o absurdo. “Para começar, não é possível afirmar que o vírus será transmissível entre os humanos”, diz. Apesar do furão ser o mamífero mais seguro nas pesquisas científicas sobre a gripe, estudos anteriores já provaram que a transferência de resultados para o homem não é automática: o que acontece com o animal pode não se repetir no homem. “Há muito medo de terrorismo, isso pesa muito em todo esse alarde”, afirma.

Segundo Racaniello, a mortalidade do H5N1 também pode não ser tão elevada como o estimado. Há evidências de que muito mais do que as 600 pessoas registradas pela OMS foram infectadas pelo vírus. “Apenas aquelas que ficaram realmente doentes foram hospitalizadas e entraram no registro. As demais não foram contabilizadas, e isso levou a crer que o vírus seja mais mortal do que ele pode realmente vir a ser”, diz.

Vírus de proveta – O H5N1 não é o primeiro vírus letal a ser refeito em laboratório. Em 2002, cientistas da Universidade de Nova York recriaram o vírus da poliomielite, cujo genoma completo já foi publicado e também está a disposição de quem, porventura, deseje “fazer o mal”.

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Três anos depois, também nos Estados Unidos, foi recriado o vírus da gripe espanhola, que matou entre 20 e 50 milhões de pessoas em 1918. Os dois estudos foram realizados a partir de informações genéticas disponíveis em bancos de dados científicos. Ambos foram publicados e ajudaram a comunidade científica a entender melhor esses micro-organismos.

De acordo com o biológo José Roberto Goldim, professor da Faculdade de Medicina da PUC do Rio Grande do Sul e chefe do Setor de Bioética do Hospital das Clínicas de Porto Alegre, não é a publicação desse material que vai fazer diferença em relação ao bioterrorismo, por exemplo. “O que realmente importa é a transparência perante a sociedade do que está sendo feito. Se existe um risco, é preciso ter controle sobre ele, não escondê-lo.”

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