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Células-tronco personalizadas voltam ao centro das atenções

Cientistas anunciaram que conseguiram fazer avanços, em laboratório, em pesquisas com células-tronco personalizadas, reavivando o interesse em uma área da ciência antes ofuscada por fraudes e questões éticas, segundo um artigo publicado esta quarta-feira na revista científica Nature.

As células-tronco são células primitivas que se diferenciam, dando origem a vários tecidos no corpo e por isso são consideradas fundamentais para tratamentos futuros de doenças ou até para produzir substitutos de órgãos danificados.

A ideia das células-tronco personalizadas consiste em captar as versáteis células-tronco de embriões nos primeiros estágios de desenvolvimento que tenham sido “clonados” com o mesmo DNA do paciente. Desta forma, qualquer célula é reconhecida como amiga pelo sistema imunológico do paciente e não é atacada após o transplante.

A técnica de clonagem padrão consiste em pegar um óvulo e remover seu núcleo, que contém o vital código de DNA.

O interior é, então, substituído pelo núcleo da célula do doador e as duas partes são fundidas através de uma descarga elétrica. O óvulo, imerso em nutrientes, se divide e seu código genético é, então, reprogramado.

Em 2004, o cientista sul-coreano Hwang Woo-suk ocupou as manchetes de jornais de todo o mundo após alegar ter produzido uma linhagem de células-tronco geradas a partir do embrião de um clone humano.

Após desfrutar de prestígio, Hwang caiu em desgraça quando se revelou que ele teria forjado muitos dos resultados e obtido os óvulos de forma antiética e ilegal.

A nova pesquisa segue um caminho diferente do trabalho de Hwang.

Uma equipe chefiada por Dieter Egli, do Laboratório da Fundação de Células-tronco de Nova York, manteve intacto o DNA do óvulo e adicionou o material genético da célula de um doador adulto.

O resultado foi uma célula “triploide”, ou seja, com três pares de cromossomos: 23 do óvulo e 46 (dois pares de 23) da célula do doador.

Segundo o estudo, as células do embrião “triploide” demonstraram o que os cientistas dizem ser indícios de células-tronco embrionárias normais, provando a importância de se manter o DNA do óvulo.

A pesquisa trouxe de volta o debate sobre células-tronco embrionárias personalizadas, depois da derrocada de Hwang e das alegações discutíveis de que células-tronco não embrionárias reprogramadas por substâncias químicas seriam tão versáteis quanto as obtidas a partir de embriões.

No entanto, segundo editorial também publicado na revista Nature, os embriões triploides são geneticamente anômalos e inviáveis.

“Ainda não está claro como as células triploides imitariam o comportamento das células no tecido. Ninguém dirá que são clinicamente relevantes a curto prazo”, destacou o editorial.

O próximo desafio dos cientistas é produzir uma linhagem de células-tronco a partir de um embrião clonado “normal”, ou seja, diploide – com 46 cromossomos – como Hwang alegou ter feito.

Mas mesmo que consigam, segundo a Nature, ainda terão que enfrentar questões éticas.

As células-tronco embrionárias obtidas de clones ainda representam a destruição de um embrião e reativam os temores da clonagem reprodutiva, em que um bebê-cópia é gerado e trazido ao mundo.

O novo estudo, que se esmerou em demonstrar transparência, usou óvulos de voluntários pagos, mas evitou usar a palavra “embrião”.

Tampouco descreveu seu resultado como clonagem. Ao invés disso, asseverou que o DNA das células do doador foi reprogramado para um estágio primitivo pelo óvulo.

Apesar disso, segundo a Nature, “os últimos avanços apontam na mesma direção das alegações de Hwang”, acrescentou a revista.

“(…) Pode ser um bom momento para as Nações Unidas criarem regulamentações ou restrições sobre a clonagem, que têm sido paralisadas pelo debate político e religioso”, acrescentou.