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Bonobos trocam comida por companhia

Assim como os humanos, os animais também compartilham para fazer amigos

Compartilhar comida com outras pessoas, incluindo estranhos, não é característica exclusiva dos seres humanos. Uma pesquisa publicada na última edição do periódico Plos One por cientistas da Universidade de Duke, nos Estados Unidos, afirma que o bonobo (Pan paniscus), uma espécie de primata também conhecida como chimpanzé pigmeu ou anão, é capaz de algo raro na natureza: ter interações sociais com indivíduos que não pertecem ao seu grupo. Segundo os pesquisadores, o comportamento incomum dos bonobos pode ter evoluído para permitir a expansão de suas redes de relacionamento.

CONHEÇA A PESQUISA

Título original: Bonobos Share with Strangers

Onde foi divulgada: Plos One

Quem fez: Jingzhi Tan e Brian Hare

Instituição: Universidade de Duke, Estados Unidos

Dados de amostragem: 15 bonobos

Resultado: Bonobos gostam de compartilhar com estranhos para obter interação social, diferentemente dos chimpanzés comuns, que só interagem com membros do próprio grupo.

O bonobo é o parente vivo mais próximo dos homens, juntamente ao chimpanzé comum (Pan troglodytes). Tanto chimpanzés como bonobos são conhecidos ajudar compartilhar comida voluntariamente com colegas de grupo. Esse comportamento voluntário, aparentemente altruísta, pode ser motivado por um cálculo de fundo egoísta: reforçar os laços sociais pode trazer benefícios para o próprio indivíduo. Mas os chimpanzés comuns só agem desse modo com membros do grupo ao qual pertencem – a aproximação de chimpanzés ‘estranhos’ pode terminar em lutas fatais. Esse comportamento os diferencia dos bonobos, que também compartilham comida com estranhos – às vezes preferencialmente.

“Em quatro experiências realizadas com os bonobos, mostramos que eles foram capazes de renunciar à própria comida pelo benefício de interagir com um estranho”, afirma o estudo. Os pesquisadores verificaram que quando há uma grande possibilidade de benefício imediato, como companhia e interação física, os bonobos agem de modo social tanto com estranhos quanto com colegas de seu próprio grupo. Mas isso desde que o custo da perda de comida e energia seja baixo: quando a probabilidade de perder comida e energia é alta, os bonobos só compartilham com estranhos.

Generosidade – Com o experimento percebeu-se que compartilhar comida com estranhos pode ajudar os bonobos a ampliar as amizades. Porém, ainda não está claro se a partilha voluntária representa apenas uma tática egoísta para obter um novo parceiro ou se eles também iriam compartilhar com estranhos se não houvesse nenhuma recompensa imediata e tangível.

“Nossos resultados mostram que a generosidade entre estranhos não é exclusiva dos humanos. Assim como os chipanzés, nossa espécie pode matar quem não conhece; e, assim como os bonobos, tratá-los bem. A pesquisa mostra a importância do estudo dos bonobos para entender completamente as origens desse tipo de comportamento entre os humanos”, diz Jingzhi Tan, um dos autores do estudo.

Como foi feito o experimento

No primeiro experimento realizado pelos pesquisadores, um bonobo entrava numa sala onde havia uma pilha de alimentos no centro. O bonobo poderia comê-la sozinho ou dividi-la com um estranho ou com um colega, ambos trancados em dois quartos de lados opostos. 14 bonobos participaram de 51 ensaios. A maioria compartilhou pelo menos uma vez. Os bonobos preferiam libertar estranhos que colegas. Nove bonobos liberaram o estranho antes de liberar o colega e apenas três bonobos fizeram o oposto.

No segundo experimento, apenas um quarto foi ocupado, ora por um colega de grupo, ora por um estranho. Caso o bonobo do lado de fora se sentisse motivado a compartilhar, ele iria abrir mais vezes a porta do quarto do bonobo preso, destrancando-o, que a porta do quarto vazio. 12 bonobos participaram, seis com estranhos e seis com colegas. 11 deles desbloquearam a porta pelo menos uma vez num total de 30 ensaios. No geral, destrancaram a porta da sala em que havia um bonobo mais frequentemente do que a vazia. No entanto, destrancaram mais vezes quando havia um estranho e não um colega de grupo.

No terceiro experimento, um bonobo foi colocado numa sala de controle da qual ele poderia puxar uma corda e liberar o bonobo preso para que este tivesse acesso à comida, que estava dentro de um túnel com duas portas, uma na saída de cada sala. Um novo brinquedo foi colocado na sala de controle, para que, caso quisesse ajudar o bonobo preso, teria que sacrificar tempo de brincadeira. Mas embora o bonobo solto pudesse ter acesso ao túnel, ele não tinha acesso à sala de controle, portanto não havia a possibilidade de interação física. Dez bonobos participaram, sete estranhos entre si e três conhecidos. Nove deles abriram a porta, o que mostrou que eles estão aptos a ajudar sem interesse desde que não haja perdas.

No quarto experimento, a mesma situação foi montada, mas a comida estava ao alcance do bonobo da sala de controle. Para ajudar ele teria que perder o alimento e ainda assim não haveria oportunidade de interação, ou seja, seria uma ajuda de alto custo. Como neste experimento ainda havia uma porta entre os bonobos, não havia benefício imediato algum. Ajudar ou não se tornava algo voluntário. Sete bonobos participaram, quatro com um estranho e três com um colega de grupo. Nenhum abriu a porta.