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Autores de artigo sobre infanticídio publicam pedido de desculpas

Acadêmicos pediram desculpas por ofensas causadas pelo texto. "Discussão deveria ter ficado dentro da esfera acadêmica", afirmaram

Uma semana depois da publicação do controverso artigo que discute se pais podem tirar a vida de filhos recém-nascidos, os autores Alberto Giublini e Francesca Minerva divulgaram uma carta aberta. Ambos filósofos da Universidade de Melbourne, da Austrália, ganharam manchetes ao redor do mundo durante a semana por causa do artigo After-birth abortion: why should the baby live? (Aborto pós-natal: por que o bebê deveria viver?, em tradução literal). O paper foi publicado no periódico britânico Journal of Medical Ethics. Nele, os filósofos defendem que, se o aborto é permitido em alguns casos, a vida do recém-nascido poderia ser terminada nas mesmas condições.

O que normalmente fica restrito ao ambiente acadêmico e aos leitores dos periódicos científicos, ganhou grande repercussão ao se espalhar pela internet. Na carta aberta ao público e publicada no blog do periódico, contudo, Giublini e Francesca se defendem dizendo que não faziam ideia de que o artigo levantaria um debate tão acalorado.

“O artigo deveria ter sido lido por outros profissionais de bioética que já estão familiarizados com o assunto e com os argumentos”, escreveram. O editor-chefe do periódico, Julian Savulescu, partiu em defesa dos autores, explicando em um editorial que o debate existe “há milhares de anos e está ativo há 40.” De acordo com Savulescu, pelo menos 100 papers foram publicados sobre infanticídio na história do periódico, alguns defendendo a prática e muitos contra.

Giublini e Francesca argumentaram que o artigo parte da definição de pessoa introduzida em 1975 por Michael Tooley, doutor em filosofia pela Universidade de Princeton e atual professor na Universidade de Colorado, nos Estados Unidos. A partir daí, a dupla de filósofos tentou definir conclusões lógicas derivadas dessa premissa. “Era para ser um exercício de pura lógica: se X, então Y”, afirmaram. “Esperávamos que outros estudiosos fossem desafiar seja a premissa ou o padrão lógico que seguimos, porque isso é o que acontece em debates acadêmicos.”

Os autores afirmaram que não sugeriram que tirar a vida de recém-nascidos se torne uma coisa legal. “Isso não ficou suficientemente claro no artigo”, admitiram. “As leis não consistem apenas de argumentos éticos racionais, pois existem aspectos mais práticos, emocionais e sociais que são relevantes na formulação de políticas”, continuaram. “Não somos legisladores, somos filósofos, e lidamos com conceitos, não com política.”

John Harris, um dos pensadores citados no artigo como defensor da ideia de que é eticamente aceitável tirar a vida de recém-nascidos em certas ocasiões, afirmou que existe uma distinção entre uma discussão que pretende filosofar e outra que aponta políticas públicas foi feita por . “Sempre defini uma linha clara entre o que chamo de ‘relatório verde’ e ‘relatório branco’ na ética”, disse em post publicado no blog do Journal of Medical Ethics. “Os verdes são discussões intelectuais sobre problemas, os brancos são propostas de políticas públicas. Nunca advoguei ou defendi o infanticídio como uma proposta política”, defendeu-se. Harris é diretor do Instituto para Ciência, Ética e Inovação da Universidade de Manchester, Inglaterra.

Os autores terminam a carta se desculpando “pela ofensa causada pelo artigo”. Afirmaram: “Sentimos muito que muitas pessoas, que não compartilham a bagagem da audiência intencionada para o paper, sentiram-se ofendidas, ameaçadas ou escandalizadas. Pedimos desculpas, mas não pudemos controlar a forma como a mensagem foi propagada pela internet e transmitida pela mídia. Esperamos que a nossa carta ajude as pessoas a entender a diferença essencial entre o que poderia ser discutido em um artigo acadêmico e o que poderia ser legalmente permissível.”

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