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Aumento de dióxido de carbono nos oceanos afeta cérebro de peixes

Aquecimento global coloca vida marinha em risco, alerta estudo australiano

O aumento do nível de dióxido de carbono na água do mar prejudica o sistema nervoso dos peixes. Os animais expostos a altos níveis da substância relacionada ao aquecimento global ouvem mal, sentem menos os cheiros característicos de predadores e abrigos e se cansam mais. Segundo os autores da pesquisa, a presença cada vez maior de CO2 nas águas marinhas é uma ameaça direta – e ainda não totalmente conhecida – à vida.

CONHEÇA A PESQUISA

Título original: Near-future CO2 levels alter fish behaviour by interfering with neurotransmitter function

Onde foi divulgada: revista Nature Climate Change

Quem fez: Göran Nilsson, Danielle Dixson, Paolo Domenici, Mark McCormick, Christina Sørensen, Sue-Ann Watson e Philip Munday

Instituição: Centro de Excelência para Estudos de Recifes de Coral, Austrália

Dados de amostragem: Filhotes de peixe-palhaço e peixe-donzela

Resultado: Peixes expostos a água com altos níveis de CO2 apresentam mudanças de comportamento e problemas em sentidos como audição e olfato.

A pesquisa foi feita pelo Centro de Excelência para Estudos de Recifes de Coral, na Austrália, com exemplares de peixe-palhaço e peixe-donzela, espécies que vivem próximas a recifes, na água do mar com altos níveis de dióxido de carbono dissolvido por vários anos. “Já estamos realizando essa pesquisa por vários anos e está bem claro que eles sofrem uma alteração significativa em seu sistema nervoso central, podendo prejudicar suas chances de sobrevivência”, afirmou Philip Munday, que publicou a descoberta na revista Nature Climate Change.

Os filhotes dos peixes, afirmam os cientistas, são os mais afetados pelos altos níveis de dióxido de carbono. Mas os predadores desses filhotes também apresentaram mudanças no comportamento quando expostos a níveis elevados de CO2. “Nosso trabalho demonstrou que o sentido do olfato foi afetado pela presença de mais CO2 na água, o que significa que eles tiveram mais dificuldade de localizar um coral para se abrigar ou detectar o odor de alerta de um peixe predador”, disse Munday.

A audição foi outro sentido afetado. “Eles ficaram confusos e deixaram de evitar os sons dos corais durante o dia. Ser atraído pelos corais à luz do dia os torna presas fáceis para os predadores”, afirma o pesquisador.

Até a capacidade de navegação no ambiente aquático, como as curvas para esquerda ou direita, foram prejudicados nas cobaias expostas a água com muito CO2. “Isto nos levou a suspeitar que o que estava acontecendo não era simplesmente um dano aos sentidos individuais, mas que níveis mais altos de dióxido de carbono estavam afetando o sistema nervoso central dos peixes como um todo”, avalia Munday.

A causa da mudança de comportamento nos peixes, segundo os cientistas, está em um receptor chamado GABA-A em seus cérebros. Esse receptor é extremamente sensível ao CO2. A maioria de animais com cérebros têm receptores GABA-A, mas animais que vivem na água são mais sensíveis a variações de CO2 porque seu sangue tem níveis baixos da substância.

Segundo a pesquisa, 2,3 bilhões de toneladas de emissões de CO2 se dissolvem nos oceanos do mundo todo ano, provocando mudanças na química da água. Para eles, se as emissões seguirem nessa quantidade, até o fim deste século as consequências para a vida marinha podem ser desastrosas, com extinções em massa de centenas de espécies.