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Após três anos de atraso, Brasil lança satélite na China

Projeto sino-brasileiro CBERS-3 custou 125 milhões de dólares e terá duas câmeras para monitorar território do país

Em 9 de dezembro, 11h26 no horário de Pequim (1h26 em Brasília), um seleto grupo de engenheiros, cientistas, empresários e autoridades estará atento a uma contagem regressiva no Centro de Lançamento de Taiyuan, na China. Se tudo correr bem, um foguete de 45 metros, modelo Chang Zheng 4B, deverá subir aos céus, levando a bordo o novo Satélite Sino-brasileiro de Recursos Terrestres, conhecido como CBERS-3, construído pelo Brasil em parceria com a China ao custo de 125 milhões de dólares para cada país.

As expectativas são as maiores possíveis. Um fracasso na missão poderá significar um golpe quase fatal para o já fragilizado programa espacial brasileiro, que luta para se manter vivo e relevante em meio a uma série de limitações financeiras, tecnológicas e estruturais.

O programa CBERS (pronuncia-se “sibers”) é uma das poucas coisas que deram certo para o Brasil na área espacial. Apesar do número 3 no sobrenome, este será o quarto satélite da série, depois dos CBERS-1, 2 e 2B – o último dos quais parou de funcionar em maio de 2010, o que significa que o país está há três anos e cinco meses cego no espaço, dependendo exclusivamente das imagens de satélites estrangeiros para observar seu próprio território.

O plano original acertado com a China era lançar o CBERS-3 até 2010, no máximo, mas uma série de problemas levou a sucessivos adiamentos. O último deles, de ordem tecnológica, envolveu a detecção de falhas nos conversores elétricos usados na metade brasileira do projeto, quando o satélite já estava quase pronto para ser lançado, no final de 2012.

As peças defeituosas foram retiradas e, agora, após mais um ano de testes e revisões, o CBERS-3 parece estar finalmente pronto para entrar em órbita. Posicionado a 778 quilômetros de altitude, ele terá quatro câmeras para observar a superfície do planeta: duas construídas pelo Brasil e duas pela China, com diferentes resoluções e características espectrais.

“São câmeras extremamente sofisticadas, que representam um salto tecnológico significativo em relação aos satélites anteriores”, disse o diretor do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), Leonel Perondi. “É o projeto espacial mais sofisticado que já produzimos.”

Uma das câmeras brasileiras, chamada MuxCam, vai observar uma faixa de terra de 120 quilômetros de largura, permitindo escanear toda a superfície do planeta a cada 26 dias, com vinte metros de resolução. A outra, chamada WFI, terá uma resolução menor (de 64 metros), mas enxergará uma faixa muito maior (de 866 quilômetros), o que permitirá observar qualquer ponto da Terra repetidamente a cada cinco dias.

“É como se tivéssemos um supermercado de imagens”, diz o coordenador do Segmento de Aplicações do Programa CBERS no Inpe, José Carlos Epiphanio. “Poderemos optar por uma câmera ou outra, dependendo do tipo de fenômeno que queremos observar, em maior ou menor grau de detalhe.”

Apesar de trabalhar com satélites, Epiphanio é engenheiro agrônomo por formação, o que serve como um bom exemplo da variedade de empregos que se pode dar ao CBERS. A aplicação mais famosa é a de monitoramento de florestas, principalmente na Amazônia, mas há muitas outras, incluindo o acompanhamento de atividades agrícolas e ocupações urbanas, processos de erosão, uso de recursos hídricos, desastres naturais e até vazamentos de petróleo.

As imagens produzidas pelo CBERS-2B foram baixadas por mais de 50 000 usuários, de mais de 5 000 instituições, em mais de 50 países. “Não tem uma universidade, um órgão de governo no Brasil que não seja usuário do CBERS”, destaca Epiphanio. Todas as imagens geradas pelo programa eram distribuídas gratuitamente na internet pelo Inpe.

Ainda que as imagens de satélites estrangeiros também estejam disponíveis gratuitamente, Epiphanio diz que o país não pode abrir mão de ter seu próprio equipamento no espaço. “Vale a pena investir em satélites? Sem dúvida nenhuma. O Brasil não pode ficar sem isso.”

(Com Estadão Conteúdo)