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A ventania extraterrestre e outros erros (e acertos) científicos de ‘Perdido em Marte’

No filme dirigido por Ridley Scott, apenas a ciência da mais alta qualidade poderá trazer o protagonista de volta para a Terra. Com base em um best seller apoiado em charadas científicas refinadas, a narrativa tem ganhado notas altas de astrônomos e astrofísicos. Confira o que pode ser real em uma futura missão a Marte e o que não passa de pura ficção

Nas primeiras cenas de Perdido em Marte, lançado no Brasil na última quinta-feira (1), os astronautas da missão Ares, da Nasa, recolhem amostras do inóspito solo marciano. Sobre eles, brilha um Sol inclemente que, em segundos, se converte em trevas, provocando uma colossal ventania, tão violenta que fará a equipe abandonar o planeta e deixar para trás Mark Watney, o incansável astronauta que precisará sobreviver ali, sozinho. Necessárias para colocar o roteiro em ação, as rajadas de vento criam um dos momentos mais espetaculares – e também mais improváveis do filme, de acordo com a ciência.

Com diversas referências a missões espaciais, cálculos astrofísicos e improvisos científicos, o filme mistura pesquisas da vida real a criações ficcionais, em cenários extremamente realistas (com exceção da água em estado líquido que flui pelas encostas sob certas circunstâncias, revelada esta semana). Todo o relevo de Marte é um retrato fiel das paisagens fotografadas por sondas e telescópios da Nasa que, nos últimos cinco anos, revelou a superfície do planeta em alta definição. A perfeição das paisagens tem sido elogiada por astrônomos e astrofísicos, o que acabou levando à análise mais detalhada de outros aspectos científicos do filme.

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Charadas – O filme é baseado em um best-seller escrito pelo ex-programador americano Andy Weir, em 2011. Assim que o autor começou a publicar os primeiros capítulos em um blog, ganhou o apoio dos leitores para as soluções científicas que Watney usa para se manter vivo em Marte. Revisado por meio dessa ‘estratégia wikipedia’ de colaboração, que incluiu pesquisadores e especialistas em astronomia e física, a ciência do livro ganhou cálculos e recursos da ciência mais precisa. Disponibilizado em Kindle, o texto foi comprado por uma grande editora e, em 2014, alcançou os milhões de exemplares vendidos, sendo um dos best sellers do ano pela lista do jornal americano The New York Times.

Para fazer o filme, entretanto, o roteirista de Perdido em Marte precisou escolher quais enigmas científicos mostrar na tela e quais deixar passar. Em vez de destrinchar longamente cálculos e fórmulas complexas, que nas páginas de um livro podem ser explicadas com calma e algum humor, o filme prefere revelar algumas charadas com bastante leveza, exigindo, em outras, que o público confie na ciência do protagonista. Para os especialistas, foi o bastante.

Lido pelos envolvidos em missões espaciais, o título chegou no início de setembro à Estação Espacial Internacional (ISS, na sigla em inglês), onde estão os astronautas americanos Scott Kelly, em uma missão de um ano, e Kjell Lindgren. A dupla participa de experimentos científicos para uma missão tripulada da Nasa a Marte prevista para 2030. Há poucas semanas, viram o filme – e gostaram.

“Que prazer ver Perdido no Espaço enquanto estou no espaço e perceber reflexos de nossa própria Jornada para Marte!”, escreveu Lindgen em seu Twitter.

A divulgação do filme tem o apoio da Nasa, que tem mostrado o que há de real nas imagens do longa. A agência espacial americana tem mesmo um plano para colonizar Marte marcado para 2030, com várias das estratégias reveladas nas cenas. Na última segunda-feira, a Nasa anunciou a confirmação de que existe água em estado líquido sobre Marte e o diretor Ridley Scott se apressou em dizer que sabia da novidade, mas não deu tempo de mostrá-la no filme.

Alguns dos equívocos científicos são claramente propositais, uma necessidade da ficção para tornar o roteiro acessível. Sobre o vento improvável em Marte, Weir afirmou que sabia da sua impossibilidade, mas precisava de algo que expulsasse os astronautas do planeta. “Achei também que uma tempestade seria bem divertida”, disse em um comunicado que acompanha o filme.

De acordo com os cientistas, o longa é uma bela mescla entre ciência de verdade e liberdades narrativas, usadas para tornar o enredo emocionante. “Eu poderia ficar reclamando infinitamente de cada detalhe científico ou me entusiasmar por horas com todos os acertos. Mas o que eu mais quero é ver o filme de novo e passar algum tempo naquele futuro, quando as viagens espaciais são bem sucedidas, celebradas e parecem ao alcance de qualquer um”, escreveu a astrofísica Katie Mack, da Universidade de Melbourne, na Austrália, no site da instituição. Um futuro que parece perto de ser vivido: essa é a sensação que deixam, afinal, as boas ficções científicas.

Confira outros aspectos reais e os improváveis do filme Perdido em Marte: