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A matemática do amor

Autora de uma palestra que faz estrondoso sucesso na internet, agora transformada em livro, professora inglesa tenta conferir lógica a um sentimento que sempre esteve mais próximo da poesia do que da álgebra. É improvável que funcione, mas, em se tratando de coração, por que não tentar alguma explicação racional?

Do amor quase tudo já foi dito, escrito e cantado. Descrevê-lo, mais até do que encontrá-lo, é uma das mais frequentes buscas do ser humano. E, no entanto, nas palavras de Shakespeare, “é um amor pobre aquele que se pode medir” (desculpado o uso muito provável e esperado de uma citação shakespeariana numa reportagem sobre o mais doído dos sentimentos). Se a poesia não basta para descrever o amor sentido, por que não tentar uma âncora nas ciências exatas? A matemática inglesa Hannah Fry, da Universidade College London, dá passos firmes nessa direção no livro The Mathematics of Love (A Matemática do Amor), fruto de uma famosa palestra com milhões de acessos on-line em um evento do TED, organização sem fins lucrativos que promove ideias inovadoras. Hannah compila equações capazes de explicar cada estágio do amor: como encontrar o par ideal; a fórmula para saber se rolou química; a probabilidade de a relação durar. Seus cálculos, dispostos em jogos de lógica, anseiam definir os padrões da busca pela sonhada paixão eterna.

O sucesso das apresentações de Hannah está colado a uma tendência que foi levada ao estrelato com a série de livros Freakonomics, de Steven Levitt e Stephen Dubner, craques em associar ciências supostamente áridas, como a economia, para desvendar aspectos do comportamento humano, desde a sexualidade e o respeito às leis até a propensão à violência. Hannah caminha na mesma estrada, aplicando razão ao que sempre foi descontrolado e mercurial.

Para tratar de amor, Hannah passeia numa seara que começou a ascender nos anos 90, década em que a antropóloga americana Helen Fisher tirou a emoção do campo etéreo e a racionalizou ao associá-la a reações químicas do corpo, facilmente explicáveis. Para Helen, o amor virou um hormônio, a oxitocina, liberada quando uma mãe olha seu filho ou quando se estabelece a paixão de um casal. Conceder certezas ao irracional fez com que cientistas se debruçassem sobre o tema. Biólogos buscaram a resposta nos corpos. Matemáticos, nos números. Foi um marco a série de estudos conduzidos pelo psicólogo americano Arthur Aron. Em um exercício lógico composto de 36 perguntas que deveriam ser feitas por um casal, de um para o outro, Aron garantiu ser plenamente possível fazer com que quaisquer estranhos se apaixonassem, desde que as respostas casassem. O método se mostrou furado quando posto à prova em experiências, mas reforçou o nascimento do interesse científico. Em 2005, os matemáticos Peter Sozou e Robert Seymour buscaram na economia a resposta à mesma pergunta no cerne das pesquisas de Aron: como seduzir um amado? Com base na teoria dos jogos da economia, a dupla definiu que parceiros devem ser considerados oponentes. Sempre existiria o conquistador e o conquistado, e é preciso escolher de qual lado se estará. Disse a VEJA Hannah Fry: “A matemática é a linguagem que ordena a natureza. As emoções humanas são naturais e, portanto, seguem padrões que podem ser numerados e organizados”. Em seu livro, Hannah se apoia principalmente nas recentes e extraordinárias facilidades da era do big data para levar suas apostas à mesa.

Hoje, a cada dois dias, produzimos e conseguimos medir mais dados digitais do que tudo que foi criado até 2003. Essa possibilidade inédita de aferição permitiu que Hannah compilasse números que brotam ao redor de nossas relações pessoais. Ela bebeu da fonte dos sites de namoro. Há mais de 2 500 serviços do tipo nos Estados Unidos, que registram as preferências amorosas de milhões de indivíduos e são atalho para a construção de fórmulas capazes de definir se uma pessoa é a adequada para a outra. Com uma amostra de 5 000 mulheres do OkCupid, Hannah tentou desvendar se beleza é realmente fundamental na formação de pares. A descoberta: homens belos, assim como os considerados feios, afastam pretendentes. Já indivíduos de beleza tida como mediana, mas com diferenciais (como tatuagens), ganham interessadas. Os criadores do OkCupid, ressalve-se, são matemáticos, o que tornou possível o bom uso de algoritmos capazes de cruzar informações indicativas de quais usuários são apropriados para uma relação amorosa promissora. As pessoas são separadas em uma lista, por porcentagem de compatibilidade, como num cardápio. Parece frio, mas vale destacar: um terço dos casamentos americanos começa nesses sites.

Um dos segredos de Hannah Fry é não se levar muito a sério. Evidentemente, ela tenta atrair a atenção de quem deseja acertar no amor, mas se contenta apenas em divertir. As fórmulas até ajudam a explicar a paixão óbvia de pessoas que compartilham gostos. No entanto, justificariam, matematicamente, a atração improvável – fictícia, mas ao mesmo tempo tão real – de Ben Braddock (Dustin Hoffman) por Elaine Robinson (Katharine Ross), filha de sua amante, a Ms. Robinson (Anne Bancroft) do clássico, de 1967, A Primeira Noite de um Homem? Muito possivelmente não, porém pouco importa. Entre uma montanha e outra de números, fatores e produtos, o melhor é se comportar como sugere um poema minúsculo de Oswald de Andrade, feito de apenas duas palavras sem nada a separá-las: “Amor Humor”.

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