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A ciência de prever o fim do mundo

John Casti fundou um centro de pesquisas para estudar como a complexidade cada vez maior da sociedade pode levar ao colapso da civilização. Em entrevista ao site de VEJA, ele explica como esse tipo de desastre pode acontecer e o que fazer para evitá-lo

O mundo não acabou. A Terra e a humanidade passaram incólumes ao 21 de dezembro de 2012, provando que as previsões apocalípticas estavam, mais uma vez, completamente equivocadas. Isso não quer dizer, no entanto, que a preocupação com eventos capazes de varrer o homem do planeta acabou. Ao contrário, segundo o matemático americano John Casti, ela só está começando. Para o pesquisador, nossa sociedade está se tornando tão interligada e complexa que o colapso é quase inevitável. Casti, que já deu aulas nas faculdades de Princeton, Arizona e Nova York, inaugurou no início deste ano o X-Center, um centro de estudos sediado em Viena para analisar a probabilidade de desastres e desenvolver modos de preveni-los.

John Casti é um cientista da complexidade. Ele usa a matemática e modelos de computador para analisar sistemas complexos, nos quais a ação de diversos indivíduos se soma para produzir resultados inesperados. Segundo seu diagnóstico, a humanidade vive hoje uma sobrecarga de complexidade. Todas as infraestruturas necessárias para manter o estilo de vida atual estão construídas umas sobre as outras: a internet depende da energia elétrica, que por sua vez depende das usinas de carvão, gás, nucleares ou hidrelétricas, que, por sua vez, dependem da internet. O problema é que quando a complexidade se torna grande demais, o sistema pode entrar em colapso inesperadamente. Casti chama essa ruptura de um evento X. “Essa expressão é, basicamente, uma abreviação para evento extremo. Além disso, na matemática o X representa o desconhecido. E é disso que estamos falando aqui: dos desconhecidos que podem afetar nosso modo de vida”, diz o matemático, em entrevista ao site de VEJA.

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No X-Center, em Viena, John Casti desenvolve modelos para estudar os possíveis eventos, quais as condições necessárias para sua realização e como impedi-los. Até agora, ele já realizou uma parceria com o governo da Finlândia, para prever possíveis cenários catastróficos no país, e começa a estudar a mesma situação na Coreia do Sul. No começo deste ano, John Casti lançou o livro O Colapso de Tudo (Editora Intrínseca), para alertar sobre esses perigos. Em entrevista ao site de VEJA, ele explica o que exatamente são os eventos X, por que devem ser temidos e como se pode proteger deles.

John Casti

John Casti (/)

A humanidade ficou mais vulnerável a um evento extremo? Estamos mais vulneráveis do que nunca. O mundo inteiro está interconectado. Há algumas horas, eu fui para o mercado comprar comida, e encontrei nas prateleiras frutas que vieram hoje mesmo da América do Sul. Há 20 anos esses produtos não estariam ali. Para isso ser possível, existe toda uma estrutura que conecta várias partes do mundo e torna esses eventos ainda mais perigosos. Um pequeno evento em algum lugar pode desencadear algo muito grande em outro local.

Mas eventos extremos já aconteceram antes, não? Todos os eventos extremos que eu estudo já aconteceram no passado, desde pandemias globais a quedas na internet e nos sistemas financeiros. Mas aconteceram numa época em que as coisas não estavam tão dramaticamente conectadas. O impacto foi ruim, mas não se espalhou pelo mundo como aconteceria hoje.

Como a ciência da complexidade pode ajudar a estudar esses eventos? A ciência da complexidade estuda a interação de pequenos sistemas que agem de modos diferentes. Pense em indivíduos, como eu e você, que interagimos dirigindo nossos carros, por exemplo. Como sistemas individuais, nossas escolhas são muito simples, mas quando interagimos surge algo muito diferente. Um indivíduo dirigindo sozinho não causa trânsito. Ou pense em um jogo de futebol. Os jogadores interagem, cada um toma suas decisões, e a partir disso saem os gols. Você seria incapaz de prever o placar de um jogo se analisasse as ações de apenas um jogador. A interação dos indivíduos causa fenômenos novos. Em nossa sociedade cada vez mais complexa, é importante ser capaz de analisar o resultado dessas interações.

Hoje acontece uma sobrecarga de complexidade? Infelizmente, vejo isso em quase todos os temas que analiso. Um bom exemplo é o setor financeiro. Os bancos, fundos e casas de investimentos criaram vários instrumentos financeiros diferentes, cada um com sua lógica. Alguns desses instrumentos, mesmos os criadores tinham dificuldade para entender. Por outro lado, os reguladores desse mercado possuíam um baixíssimo nível de complexidade, com pouca capacidade de ação. Foi criado um grande desnível de complexidade entre esses dois sistemas. Se a diferença de complexidade se tornar muito grande, há uma crise, uma quebra.

É a isso que o senhor chama de evento X? Exatamente. Pense que você está no topo de uma montanha. Há muitos vales diferentes cercando esse pico. Se você for empurrado, vai acabar chegando a um desses vales. No começo, não é claro em que vale você vai terminar, porque depende do formato da montanha e da direção em que você é empurrado. A queda do pico é o começo de um evento X, o evento em si é o vale em que você termina. Quando um evento começa, não sabemos onde vamos parar. Na crise financeira atual, eu penso que já saímos do pico, estamos em queda livre, e não sabemos em que vale vamos parar.

Em seu livro, o senhor compara as infraestruturas atuais com um castelo de cartas. Por quê? Porque ela é muito frágil. Por causa de toda a conectividade entre nossas infraestruturas, não é preciso um choque muito grande para quebrar todo o sistema. Hoje, não dá para isolar uma parte que se quebra. Se alguém pega uma gripe em alguma parte do planeta, ela pode rapidamente ser transmitida para outra parte e se tornar uma pandemia.

Por que a sociedade humana parece ficar sempre mais complexa? Isso tem a ver com a natureza humana. Em um mesmo supermercado, podemos encontrar 16 variedades diferentes de comida para cachorro. Todo mundo acha que seu animal precisa de uma comida exclusiva. Ou pense nas novas máquinas caseiras de café expresso que, como robôs, fazem o café exatamente do jeito que você quer, com o simples apertar de um botão. O problema é que para ter esse tipo de serviço personalizado, devemos pagá-lo com complexidade. Em algum ponto essa complexidade se torna grande demais, e tudo entra em colapso. É nesse momento que as coisas voltam a ficar mais simples. Um choque, seja ele a queda da internet ou uma enorme pandemia, faz a vida se tornar muito simples. Pense sobre o que acontece quando acaba a luz elétrica. O sujeito, de repente, é jogado para um sistema de vida muito menos complexo.

Na virada dos anos 2000, alguns pesquisadores previram que todos os computadores entrariam em pane, no que ficou conhecido como o Bug do Milênio. Se isso acontecesse, seria um evento X? Esse é um bom exemplo. Muitos estudiosos começaram a estudar esse tema anos antes de ele acontecer. Pelo que me lembro, foram convocados até os programadores que escreveram os códigos originais usados nas máquinas, que já estavam aposentados, pois eles eram os únicos capazes de entender os programas. Eles tiveram tempo suficiente para sanar o problema e evitar um evento X. É sobre isso que estou falando: nós temos que nos antecipar a esses eventos.

Eles podem ser previstos? Você não pode prever um evento X do mesmo modo que prevê a movimentação de um planeta. Isso pode funcionar mais como a previsão do tempo. Ninguém pode prever como o clima estará amanhã em São Paulo com 100% de certeza. Mas um estudioso pode juntar todas as informações que tiver, como velocidade do vento, temperatura e humidade, e mostrar qual clima é mais provável de acontecer. Essas previsões são feitas de modo probabilístico. Os eventos X são similares. Eles têm um componente muito aleatório, que é o gatilho que dá início ao evento, mas é possível prever o contexto em que ele pode ocorrer. É o que estou tentando fazer no X-Center: desenvolver alguns modos de antecipar as condições dos eventos X. Quero ser capaz de dizer se estamos entrando em uma zona de perigo para determinado evento, e precisamos aumentar a atenção.

O senhor pode descrever algum trabalho realizado no Centro? Um de nossos projetos foi chamado Sete Choques para a Finlândia. Nos unimos a cerca de 20 agências governamentais e empresas do país e selecionamos eventos com os quais eles se preocupavam, como uma queda na internet, secas e alagamentos. No caso específico da Finlândia, eles também temiam que a sede da Nokia se mudasse do país. A partir de nossos estudos, tentamos responder as seguintes perguntas: como esses eventos poderiam acontecer? Se acontecessem, qual seria seu impacto nos próximos 20 anos? Que passos os governantes deveriam dar agora para se proteger desses eventos? Agora, estamos fazendo um estudo semelhante para a Coreia do Sul, e negociamos parcerias com outros países.

Um tema que parece lhe preocupar bastante é o colapso da infraestrutura do petróleo e da água. Por quê? A questão do petróleo é muito importante. Em algum momento, vamos ficar sem petróleo. É apenas uma questão de quando. Precisamos pensar o que devemos fazer antes disso para que a civilização não seja atingida como um todo. Quanto ao fornecimento de água, inúmeros fatores empurram para uma mesma direção. A população crescente, a mudança climática e as fontes de água cada vez mais localizadas vão inevitavelmente levar a uma escassez desse recurso. O problema é que esses dois casos são como um descarrilamento de trem muito demorado. Não é como se um dia você fosse tomar banho e começasse a cair areia de seu chuveiro. Você não vai chegar ao posto de gasolina e o frentista te avisar que a gasolina acabou. O processo será demorado e gradual. E isso pode ser ruim, porque não levamos a sério esse tipo de problema.

O senhor também cita a possibilidade de as nossas tecnologias saírem do controle. Como isso aconteceria? Vou te dar um exemplo. Imagine que a internet quebre hoje. De repente, ela cai, e ninguém tem ideia de quando irá voltar. Pense em todas as coisas que dependem desses computadores. As comidas no mercado, a eletricidade em sua casa. Você não terá nem caixas eletrônicos para retirar seu dinheiro. De várias maneiras, os computadores já estão no controle. Nós ainda acreditamos que temos a última palavra, que podemos tirá-los da tomada. Mas algum dia no futuro, os computadores se tornarão tão complexos que não os entenderemos mais. De repente, a internet pode simplesmente acordar, olhar em volta, e achar que pode fazer um trabalho melhor que os humanos ao administrar esse planeta. Qualquer tecnologia tem seus riscos e bênçãos. Enquanto nós tivermos no controle, podemos decidir qual usar.

O senhor tem algum plano pessoal para a eventualidade de um evento X? Eu vivo em um dos ambientes mais perigosos do mundo: o centro de uma grande cidade. Um lugar onde quase todos os aspectos da minha vida são dependentes da tecnologia e do funcionamento correto de nossa infraestrutura. Eu tenho alguns planos, mas não são ideias que eu gostaria de discutir em público, pois são todas desenhadas especificamente para a minha situação pessoal. Por exemplo, eu não gosto da ideia de me proteger de um desastre em um porão isolado e protegido. Mas penso assim porque já tenho certa idade, e não gostaria de passar os próximos 10 a 15 anos vivendo debaixo da terra. Se você for jovem, pode pensar em investir alguns anos vivendo em um porão, sair e ainda ter a vida pela frente. De qualquer forma, o que você tem que fazer é analisar, com seus recursos atuais, o que pode fazer para se proteger.