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3D também se faz no Brasil. E da melhor qualidade

Pesquisadores colocam o Brasil na linha de frente da pesquisa 3D mundial

“Aqui no Brasil, muitas pessoas não acreditam que é possível desenvolver tecnologia de ponta em casa; o que fazemos mostra o contrário”

Marcelo Diamand

Muito antes de Avatar, o doutor em semiótica Hélio Godoy já estava nas trincheiras do cinema experimentando e filmando documentários em 3D. O pesquisador da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul montou, há sete anos, um laboratório de produção de conteúdo tridimensional chamado LAPIS (Laboratório de Pesquisa de Imagem e Som). A ideia de Hélio era descobrir, junto com alunos, como os filmes em 3D deveriam ser pensados, filmados e exibidos. Coisa que ninguém ainda sabe com certeza.

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O cinema já é velho o suficiente – tem mais de 120 anos – para que a forma de contar as histórias amadurecesse, seja em conteúdo ou em técnica. Mas, de acordo com Hélio, o cinema 3D precisa de novos profissionais com uma cabeça completamente diferente. “Por exemplo, não é possível filmar a pessoa de perto sem ter um equipamento especial”, explica o pesquisador. “Temos que pensar a fotografia e o movimento de câmera de maneiras completamente diferentes”, diz Godoy. Além disso, é preciso equipamento especial.

E esse equipamento especial é caro. Uma câmera 3D pode custar mais de 150 mil dólares. Ao invés de importar tudo que precisaria, Hélio começou a pesquisar e desenvolver equipamentos para auxiliar a filmagem em 3D dentro do laboratório em Campo Grande (MS). São os chamados ‘rigs’.”Um deles coloca uma câmera ao lado de outra, para fazer imagens de longe e outro utiliza um jogo de espelhos para filmar de perto”, disse o pesquisador. Parece tarefa fácil, mas ele explica que as medições e cálculos envolvidos são resultado de muita experimentação.

E para manter o laboratório funcionando, a equipe do LAPIS (Laboratório de Pesquisa de Imagem e Som) incubou uma empresa dentro da universidade, chamada Photon 3D. A empresa utiliza o conhecimento de pesquisa desenvolvido dentro do laboratório para produzir filmes e imagens em 3D. “Infelizmente, a quantidade de dinheiro para pesquisa no Brasil não nos dá muitas condições”, concluiu Hélio.

Tecnologia nacional – Enquanto a Nintendo se prepara para lançar um videogame portátil que não precisa de óculos, em 2011, o pesquisador e empresário carioca Marcelo Diamand já desenvolve, fabrica e vende monitores com tecnologia semelhante, 100% nacional, desde o ano passado. Desenvolver tecnologia brasileira – foi isso que motivou o pesquisador, de 41 anos, a pedir as contas, em 2007, do emprego que tinha em uma multinacional e viajar o mundo atrás da resposta. E ele encontrou.

Marcelo é o CEO da Lumina 3D, a primeira empresa brasileira que desenvolve e fabrica a própria tecnologia de monitores 3D que não necessitam de óculos. A empresa existe desde 2007 e no ano passado lançou sua linha de produtos – um monitor de 46 polegadas, que pode custar em torno de R$ 20.000 (dependendo dos impostos) e um de 22 polegadas com preço em torno de R$ 6.000. “Como somos uma empresa iniciante, a nossa intenção é trabalhar com o mercado de comunicação visual ou de visualização científica”. Ele diz que não sabe quando o produto estará pronto para chegar na casa das pessoas.

Diamand estudou engenharia na UFRJ e é mestre em física, com especialização em holografia, pela Unicamp. Utilizando seus conhecimentos, ele conseguiu desenvolver uma tecnologia que permite que até nove pessoas observem, de pontos de vista diferentes, uma mesma cena na tela.

A técnica que Marcelo utiliza se chama barreira de paralaxe, a mesma que a Nintendo utilizará no portátil 3DS, previsto para ser lançado em março do ano que vem. À partir de painéis de LCD, a equipe da Lumina 3D desenvolve uma máscara especial personalizada e milimetricamente calibrada para gerar o melhor efeito tridimensional possível. “Aqui no Brasil, muitas pessoas não acreditam que é possível desenvolver tecnologia de ponta em casa, nosso produto mostra o contrário”.

Tecnologia futurista – Fascinado pela fotografia, o argentino e físico Joaquin Lunazzi, nasceu no mesmo ano em que a holografia foi inventada, 1948. Com 14 anos, ele conheceu a fotografia tridimensional utilizando um banheiro escuro e um armário. Aos 20, Lunazzi fez o primeiro holograma da América Latina. Seis anos depois ele foi convidado pela Unicamp para pesquisar holografia no Brasil (foi professor de mestrado de Diamand).

Desde 1984, busca desenvolver o primeiro monitor volumétrico da humanidade, capaz de exibir imagens que realmente possuem três dimensões. E está quase lá.

Os monitores atuais, como as televisões, são projeções de imagens com três dimensões em uma tela de duas dimensões. A Holo TV, sistema desenvolvido pela equipe de Lunazzi na Unicamp, “está no meio do caminho entre os monitores 3D convencionais e os que seriam os holográficos”, explica o pesquisador.

De acordo com Lunazzi, “nenhum sistema do mundo é parecido com a Holo TV”. As imagens são projetadas em telas semi-transparentes, feitas com filme fotográfico, e recebem iluminação lateral – diferentemente das telas convencionais que são iluminadas por trás ou pela frente. O pesquisador explica que esse detalhe é importante para que o espectador tenha liberdade para mover a cabeça sem perder o efeito tridimensional – limitação existente nas técnicas atuais de projeção 3D.

A tecnologia desenvolvida na Unicamp já foi apresentada na China, Coreia do Sul, Estados Unidos, Japão e países da Europa. Apesar de ter sido sondado por grandes empresas, a equipe não fechou parceria com nenhuma grande empresa. Em 2008, representantes da Samsung visitaram o laboratório para conhecer as técnicas desenvolvidas pelo grupo da Unicamp. “A Holo TV tem a proposta de ser um protótipo experimental. Ela vai ser útil para incentivar a pesquisa no mundo e mostrar que o Brasil possui tecnologia de ponta”, concluiu Lunazzi.