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Zoo de SP troca remédios por ‘terapia’ para desestressar animais

Atividades desenvolvidas por biólogos ajudam a eliminar o tédio do cativeiro e a evitar casos de doenças psíquicas

Por Eduardo Gonçalves - Atualizado em 18 set 2017, 12h54 - Publicado em 16 set 2013, 07h47

A vida em cativeiro provoca alterações no comportamento natural dos animais que, em casos mais graves, podem desencadear uma doença típica dos humanos: a depressão aguda. Esse tipo de problema poderia levar a um tratamento com antidepressivos de tarja preta, como foi o caso de algumas aves do Zoológico de São Paulo. Para evitar que os bichos precisem de medicamentos, o zoo, que é o maior da América Latina, desenvolveu um programa que funciona como uma terapia para os mais de 3 000 animais que abriga. O Programa de Enriquecimento Comportamental (Peca) tem como objetivo fazer os bichos se sentirem em casa, reproduzindo ações que fariam em seu habitat natural, além de outras “mordomias”.

As atividades funcionam como um hobby ou exercício físico para os humanos – elas são planejadas para minimizar o stress e a ansiedade dos bichos encarcerados e, ao mesmo tempo, driblar o tédio. Há 22 anos como biólogo do zoo, o coordenador do projeto, Oriel Nogali, relatou ao site de VEJA que presenciou apenas três casos de depressão, envolvendo algumas aves. Ele também fez questão de ressaltar que alterna os horários de aplicação do Peca justamente para evitar que o próprio programa vire uma rotina para os animais e deixe de funcionar como ferramenta para espantar a monotonia.

Segundo Nogali, o programa foi instaurado no Zoológico de São Paulo em 2002, quando “sentiram que era preciso” desenvolver um trabalho que aumentasse o bem-estar dos animais. Na época, o procedimento já era comum em instituições da Europa e dos Estados Unidos. Atualmente, o Peca conta com uma equipe de sete pessoas. Para o biólogo, o número reduzido de integrantes reflete a dificuldade de se contratar mais profissionais e do tempo exigido para a capacitação deles no projeto.

Raio-x do Zoo de SP

Número de animais:

3 196 (498 mamíferos, 1 843 aves, 582 répteis, 256 anfíbios e 17 invertebrados)

Extensão do parque:

824 529 m² de Mata Atlântica

Frequência:

média de 1,6 milhões de visitantes por ano

Número de funcionários:

388 (35 seguranças, 15 biólogos, 8 veterinários, além de estagiários e pessoal terceirizados)

Ano de fundação:

1958, no governo de Jânio Quadros

Um dos grupos que mais sentem os benefícios da “terapia” são os chimpanzés devido à sua personalidade explosiva e enérgica. O local onde moram é equipado com troncos, cordas, pneus, camas elásticas e um falso cupinzeiro. A mobília improvisada reproduz o ambiente natural da espécie: florestas tropicais e savanas.

O “cupinzeiro” consiste numa estrutura de plástico repleta de buracos, cujo fundo armazena uma papinha feita de mel e frutas. Os chimpanzés se apoderam de galhos, que ficam espalhados no recinto, afundam as pontas dos gravetos nas cavidades, e levam as geleias até a boca. É como se estivessem caçando insetos na natureza – com sabor mais adocicado.

Os chimpanzés também costumam passar os dias apanhando piolhos imaginários da cabeça de seus companheiros de recinto. Trata-se de um ato social, que ocorre mesmo que um companheiro de jaula não tenha nenhum parasita. É o caso do zoo, onde os animais precisam estar protegidos por exigência da Vigilância Sanitária.

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Atualmente, o grupo de chimpanzés é formado por oito fêmeas e um macho, Pepe, de 8 anos. Embora não seja o mais velho da turma – Faustina tem 29 – Pepe se comporta como tal, sentado no topo de um tronco, com pose de chefe do bando. Apesar da diferença numérica entre os gêneros, a taxa de natalidade precisa ser monitorada: as fêmeas recebem implementos hormonais – uma espécie de anticoncepcional especial para evitar a gravidez.

O mesmo acontece com os leões e os tigres. Uma determinação do Ibama proíbe essas espécies de se reproduzirem em cativeiro. Assim como os chimpanzés, os três leões – Salita, Zomba e Kirongozi – e o casal de tigres – Tigresa e Baboo – também estão no Peca.

Bonecos de papelão em formato de girafa, veado e antílope são colocados, semanalmente, nas jaulas dos grandes felinos. Eles miram os “bichos”, preparam-se para o bote, e os caçam como se fossem presas de verdade. No fim da caçada, não sobra um papel em pé. A alimentação de verdade dos leões e tigres é realizada três vezes por semana de carne bovina e suína.

Dois machos de onça pintada, Virgulino e Raimundinho, também recebem caixas de papelão como parte dos trabalhos do Peca. Dentro delas há cravo, canela e capim. Donos de um faro aguçado, parecem estar sempre à espreita de algum invasor – o que jamais acontecerá numa cela do zoológico. Ao perceber a presença do objeto estranho, avançam sobre ele e, depois, o esfregam no pêlo. Trata-se de uma maneira de “impor o seu odor” no perímetro do que consideram seu território.

As elefantas asiáticas do Zoológico de São Paulo, Serva e Hangun, de aproximadamente 50 anos cada uma, não tiveram um passado feliz. Antes de irem morar em instituições de zoo, eram atrações de um circo internacional. A antiga profissão lhes rendeu cicatrizes para o resto da vida: marcas de corte na tromba e na barriga, provavelmente oriundas de agressões com correntes, ficam evidentes quando os animais tomam banho. Porém, as duas elefantas passam a maior parte do tempo cobertas por lama.

Isso acontece porque elas têm dentro da jaula um chuveiro que podem acionar quando querem com a tromba. Um dos passatempos preferidos da espécie no habitat natural é se banhar emrios e se jogar em poços de lama. E é isso que Serva e Hangun fazem boa parte do dia em sua cela, que conta com um lamaçal no fundo do ambiente. Outro passatempo é brincar com toras de madeira.

Resultados – Além de fazer com que os animais se sintam à vontade em suas celas, o Peca também permite o estreitamento nas relações entre os bichos e os seus cuidadores. A interação assemelha-se a um adestramento, mas com finalidade diferente. Isto é, treina-se o animal para responder a alguns comandos, como levantar as patas e se virar de barriga para cima, com o objetivo de examiná-lo sem que haja a necessidade de dopá-lo ou amarrá-lo.

Outro exemplo são os chimpanzés. O contato deles com os seus cuidadores chega a ser tão intenso, que até já lhes confiaram tablets e espelhos para brincar. Com esses objetos, a reação foi instantânea: ficaram paralisados com o reflexo no espelho e não tiraram os dedos da tela touch do aparelho.

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Mordomias – Além das atividades que simulam seu habitat, os animas têm algumas “mordomias” para adaptar o corpo ao cativeiro. Se estivessem na natureza, os orangotangos Shinta e Sansão – de 20 e 30 anos, respectivamente – gastariam suas unhas naturalmente na escalada de árvores. No cativeiro, elas crescem mais rápido e precisam ser cortadas e lixadas todos os dias.

O mesmo ocorre com o trio de bichos preguiça, Querida, Tupã e Potira, que têm as garras aparadas semanalmente. Trazidos de um cativeiro africano, o casal de rinocerontes Adão e Eva, de aproximadamente 20 anos, costuma receber um agrado de seus tratadores durante a alimentação: escovação nas costas para esfoliar a pele.

Bem alimentados, os jacarés-de-papo-amarelo compartilham o mesmo recinto com espécies de tartarugas, jabutis, cágados e tracajás. Na natureza, esses bichos com casco fariam parte da cadeia alimentar dos grandes répteis, que também costumam devorar bezerros, capivaras e cervos uma vez por mês. Como no zoológico são alimentados diariamente com sardinhas, não veem as companheiras de recinto como potenciais refeições.

Sentindo-se seguras, as tartarugas encaram os seus predadores naturais como extensão do ambiente onde vivem. É comum vê-las empoleiradas nos jacarés, que, imóveis, passam a maior parte do dia tomando sol à beira do lago artificial, relata Lucas Mantovani, biólogo responsável pelo setor de répteis. Tanto a água como as tocas nas quais eles se refugiam têm aquecedores elétricos, que regulam a temperatura de acordo com o que estão acostumados no habitat natural.

O mais novo morador do zoo, entre os mamíferos, é Girafales, um filhote de girafa que nasceu no dia 7 de julho. Com 1,85 metro, acabou entalado no corpo da mãe na hora do parto. Para extraí-lo, veterinários precisaram laçar as suas pernas e, em seguida, puxá-las para fora.

Já o mais velho do parque é um pelicano fêmea, que não tem nome – só de tempo de zoo, tem cinquenta anos, sendo que chegou à instituição com idade avançada. Fora dos perigos da natureza, com alimentação fácil e diária, além de imunização contra doenças, os animais de cativeiro costumam viver 50% mais que seus semelhantes que estão nas selvas e savanas.

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