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Vítimas da farra: populismo fiscal do governo Lula leva a juros altos e uma onda de empresas quebradas

Estímulos à economia ampliaram as pressões inflacionárias e o custo do crédito, levando a recordes de inadimplência, recuperações judiciais e falências

Por Márcio Juliboni Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO , Felipe Erlich Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO , Carolina Ferraz Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 25 set 2026, 06h00
Vítimas da farra: populismo fiscal do governo Lula leva a juros altos e uma onda de empresas quebradas Priorize VEJA no Google

Nos últimos tempos, cada vez mais empresas têm se tornado vítimas indiretas do populismo fiscal com que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tenta garantir seu quarto mandato presidencial. Aferrado a uma lógica simplista de que basta estimular o consumo para que o país cresça, o governo Lula despejou bilhões de reais na economia com medidas como a isenção do Imposto de Renda, o Gás do Povo e o Crédito do Trabalhador, que oferece empréstimos mais baratos. “Houve um impulso fiscal gigante”, afirma Roberto Padovani, economista-chefe do banco BV. “O problema é que ele veio em um mau momento.” Quando o petista voltou ao poder em 2023, o produto interno bruto potencial do Brasil — isto é, a taxa que o país pode crescer sem gerar inflação — era estimado em 2%. Anabolizado pela farra fiscal, porém, o PIB avançou 3,1% naquele ano e 3,4% no seguinte. Ao forçar o país a acelerar além de suas possibilidades, Lula desequilibrou a economia e complicou a vida de milhões de pessoas e de empresas que perderam as condições de honrar suas dívidas.

Rua arborizada com prédios antigos e lojas vazias em um dia ensolarado. Carros estacionados e uma barreira de construção listrada à direita.
Lojas fechadas: os pequenos negócios já acumulam mais de 200 bilhões de reais em dívidas (Saulo Angelo/Thenews2/Folhapress/.)

Segundo o bureau de crédito Serasa Experian, 84 milhões de brasileiros e 9,2 milhões de negócios estão inadimplentes — números recordistas. As dívidas corporativas atrasadas somam quase 240 bilhões de reais e já arrastaram mais de 6 300 companhias para a recuperação judicial ou extrajudicial — também o maior volume da história. Somente neste ano, entraram para essa lista medalhões do capitalismo nacional como as varejistas Casas Bahia, Marabraz e Grupo Pão de Açúcar, a Braskem, a maior petroquímica do país, e a Raízen, líder em etanol e dona dos postos Shell no Brasil. Isso não significa que a crise se restrinja às grandes corporações. De acordo com a consultoria RGF Associados, 2 400 micro e pequenas empresas estão em recuperação judicial, e as de médio porte somam mais 3 100. Em diversos casos, porém, mesmo a proteção legal para renegociar as dívidas se mostra incapaz de assegurar a sobrevivência do negócio e o caminho é sua liquidação. Os dados mais recentes do Serasa indicam que, de janeiro a abril, foram decretadas 292 falências no país. Trata-se do maior número para o período desde o início da série histórica em 2012. O cenário impressiona até os mais experientes. “Atuo com reestruturação de empresas há quarenta anos”, diz André Pimentel, sócio da consultoria Performa Partners. “Este é o pior período que já testemunhei.”

Gráfico de barras mostrando o aumento de empresas inadimplentes no Brasil de 2020 a 2026. Em 2020, 5,8 milhões de empresas com dívida total de 106 bilhões de reais. Em 2026, 9,2 milhões de empresas com dívida total de 239 bilhões de reais. A barra de 2026 e o valor da dívida são pretos, indicando projeção. Fonte: Serasa Experian

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Para entender como a gastança de Lula deixou um rastro de negócios quebrados, é preciso retornar a 2017, quando entrou em vigor o teto de gastos idealizado por Henrique Meirelles, então ministro da Fazenda do governo Temer. Concebido para conter a dívida pública, o teto levou a uma rápida queda na taxa básica de juro, a Selic, que recuou de 13% em janeiro de 2017 para 6,5% em março de 2018, mantendo-se aí até meados de 2019. Quanto mais a Selic baixava, mais as empresas contraíam créditos com taxas pós-fixadas, compostas pelo juro básico futuro mais um prêmio de risco. Assim, a cada corte feito pelo BC, as companhias pagavam menos juros pelos empréstimos já contraídos. A pandemia de covid-19 deu outro impulso ao processo. Para reavivar a economia abatida pelo coronavírus, a Selic foi baixada a 2% — o menor nível da história, e aí se manteve do fim de 2020 a março de 2021. Como esperado, o dinheiro barato e os contratos pós-fixados estimularam as concessões para pessoas jurídicas, que saltaram de 1,3 trilhão de reais em 2017 para 2 trilhões em 2020. “Mesmo contratos que embutiam grandes prêmios atraíam interessados”, diz Fábio Flores, sócio da TCP Partners, outro escritório de reestruturação. “Com a Selic a 2%, o empresário pagava uma taxa total de 5% ao ano e achava ótimo.”

Infográfico O retrato da crise sobre inadimplência e recuperações judiciais no Brasil. Detalha que 9,2 milhões de empresas estão endividadas, sendo 8,7 milhões micro e pequenas. O valor das dívidas é de 206 bilhões de reais. Das 6341 empresas em recuperação judicial, 3106 são de médio porte, 2400 micro e pequenas, e 835 de grande porte. Comércio, indústria de transformação e agropecuária lideram os setores afetados

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A situação mudou quando a curva de juros inverteu a trajetória. O primeiro ciclo de alta ocorreu com a reabertura da economia após a pandemia. A forte demanda reprimida se chocou com a dificuldade das empresas de retomar o ritmo de produção, dado o desarranjo das cadeias de fornecedores. Em janeiro de 2023, quando Lula assumiu o terceiro mandato, a Selic já retornara a 13,75% e servia de pretexto para os virulentos ataques do petista ao então presidente do BC, Roberto Campos Neto, a quem Lula atribuía interesses de prejudicá-lo, uma vez que fora indicado por seu antecessor, Jair Bolsonaro. A troca de comando no BC, em janeiro de 2025, contudo, desmontou esse discurso. Indicado por Lula, Gabriel Galípolo elevou a Selic a 15% — o pico desde 2006. Sempre que pode, Galípolo sublinha os impactos da farra fiscal sobre a inflação. “O governo deveria respeitar a desaceleração da economia inerente a um ciclo de aperto monetário”, diz José Alfaix, economista da gestora Rio Bravo. “Mas ele optou por resistir e criar novos estímulos.”

Galípolo e Lula: o Banco Central tenta conter os efeitos da gastança do governo
Galípolo e Lula: o Banco Central tenta conter os efeitos da gastança do governo (./Reprodução)
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Tamanha teimosia dificulta o trabalho do BC e o resultado é a necessidade de manter o aperto por mais tempo. Em 16 de setembro, ao comunicar o corte de 0,25 ponto percentual na Selic, trazendo-a para 13,75% — um nível ainda capaz de esfriar a economia —, Galípolo e sua equipe voltaram a alertar sobre “estímulos à demanda agregada, em particular ao componente de consumo, que tenham como resultado o crescimento da atividade econômica acima do produto potencial”. Com a batalha entre Lula e o BC longe do fim, acumulam-se vítimas por todo o país. Os empréstimos com taxas pós-fixadas consomem cada vez mais o caixa das empresas. Com isso, os recursos para honrar outros compromissos, como o pagamento dos fornecedores e dos funcionários, minguam a cada dia. Mesmo negócios com margens razoáveis de lucro estão afundando. “Quando o juro estava em 2%, uma empresa com 14% de margem era bem saudável”, diz Flores, da TCP Partners. Agora, com o crédito custando de 18% a 30% ao ano, de acordo com a modalidade, a régua é muito maior. “Não tem margem de lucro que sustente um custo assim.”

Quatro colheitadeiras verdes em linha colhendo soja em um vasto campo marrom-claro, com áreas de terra escura e vegetação ao fundo sob céu azul
Colheita de soja: a queda dos preços e o salto dos juros aprofundam a crise do agro (Silvio Avila/AFP)
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Vista aérea de uma grande planta industrial com edifícios cinzas e tanques de armazenamento, cercada por densa vegetação verde. Uma estrada curva leva a um portão de entrada com guarita. À direita, um estacionamento com carros brancos e uma placa azul vertical com o logo da Braskem
Braskem: a recuperação extrajudicial envolve mais de 50 bilhões de reais em dívidas (Joa Souza/Shutterstock)

Por isso, os primeiros a sentir o baque foram os que operam com margens pequenas. O exemplo típico é o varejo. “É lamentável o que estamos vivendo”, afirma Nasser Fares, um dos donos da rede Marabraz (veja a entrevista), que pediu recuperação judicial em agosto, a fim de renegociar 140 milhões de reais em dívidas. “Os juros altos tornam ainda mais difícil a saída do endividamento.” Outros setores enfrentam desafios adicionais. No agronegócio, a escalada de juros se soma à queda dos preços das commodities agrícolas e à alta do custo de insumos como fertilizantes. Os eventos climáticos extremos coroam o momento difícil. “Com muita sorte, o produtor rural consegue hoje uma margem de lucro de 15%”, diz Eron Martins, presidente do grupo Belagrícola (veja a entrevista), que listou 2,2 bilhões de reais em dívidas na recuperação extrajudicial protocolada no início do ano.

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As conversas das empresas em apuros com os credores também são truncadas. No geral, para conceder dinheiro novo ou renegociar dívidas antigas, os grandes bancos estão exigindo garantias reais, como imóveis e máquinas que podem ser tomados em caso de inadimplência. A cautela torna inviável a negociação na maioria dos casos. Sem condições de resolver amigavelmente a situação, resta aos endividados apelar para a recuperação judicial ou extrajudicial. “Nessa hora, a única coisa que você sente é vergonha”, diz Fabio Zorzo, fundador da Inpower (veja a entrevista), uma varejista de equipamentos de informática que também recorreu em fevereiro à proteção da lei para reestruturar 285 milhões de reais em dívidas. “Você trabalha a vida inteira e, de repente, vira o patinho feio.” Economistas e especialistas em turnaround são unânimes em apontar que o calvário só será revertido se o próximo governo adotar medidas contundentes de austeridade fiscal, abrindo espaço para uma queda significativa das taxas de juros. Até lá, o Brasil seguirá contabilizando baixas pelo caminho.

Publicado em VEJA, setembro de 2026, edição VEJA Negócios nº 30

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