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Vamos trocar “gay” por “judeu”?

Proponho um exercício singelo para estas vésperas de eleição

As finanças públicas foram para o saco. A população luta para escapar da pobreza. Os inimigos, responsáveis pelo caos, são: gente de outras etnias ou que não nasceu na pátria, os gays e os comunistas. Devem ser combatidos custe o que custar. Só o amor à bandeira nos salvará. As forças militares são um exemplo a ser seguido. Chega de bagunça: hora de ordem. O país precisa sair do vermelho e voltar a prosperar. A solução é endireitar.

Na Alemanha, o resultado das frases acima foram 6 milhões de mortos. A fusão de nacionalismo, extrema direita, combate à ameaça “vermelha” e a noção de superioridade racial levaram à ascensão do nazismo. Sim, existe a “Lei de Godwin”, que diz que quando alguém quer ganhar uma discussão apela e fala em nazismo. Mas será exagero comparar a Alemanha ao Brasil?

A exemplo de uma postagem que circulou, vamos fazer um exercício e trocar as palavras “gay”, “negro”, “índio” e “mulher” pela palavra “judeu”, nas declarações dadas por um candidato. “Se eu assumir, judeu não terá mais um centímetro de terra.” “Prefiro um filho morto em acidente a um judeu.” “Se um casal judeu vier a morar ao meu lado, isso vai desvalorizar minha casa.” “O próximo passo será a adoção de crianças por casais judeus e a legalização da pedofilia.” As frases são muitas.

Eu sou gay, judeu e descendente de refugiados do Holocausto. Tenho claro para mim que toda vida é valiosa e todas as minorias devem ser igualmente respeitadas. Recentemente, a torcida de um time de futebol gritou em coro para a torcida adversária se cuidar porque o referido candidato vai matar “viados”. Alguns dirão: “Mas é brincadeira”. Se você não acredita que existe um ódio assassino aos LGBTQs, recomendo que assista ao vídeo no YouTube de uma jovem transexual sendo espancada até a morte.

Uma vez entrevistei num dos meus filmes o médico Drauzio Varella. Ele me disse: “O problema da ditadura não é só a ditadura, mas o efeito que ela tem no guarda de trânsito”. Sabemos que a lei no Brasil não vale para todos, e fica a pergunta: que efeito terá sobre as pequenas autoridades um presidente que legitima violências como as descritas, defende a tortura e já pregou a sonegação de impostos e o fuzilamento de oponentes?

Aos amigos do mercado financeiro que estão desesperados com a situação das contas públicas: não se esqueçam que o desespero passa, mas que a história pode ficar manchada para sempre. O nosso maior patrimônio não é financeiro, é o nosso nome. Paulo Guedes deve tomar cuidado para não entrar para a história como Paulo Goebbels. Empresários respei­tados na comunidade judaica como Meyer Nigri, dono da Tecnisa, erram ao apoiar candidatos acusados de racismo: o risco é manchar seu nome e o de sua empresa. E, sim, também estou preocupado com as finanças nacionais. Aliás, considero-as grandes aliadas, e não inimigas, dos direitos humanos. E, para quem não sabe, um dos coautores da Declaração Universal dos Direitos Humanos é um judeu sobrevivente de guerra, exatamente como meu avô.

Publicado em VEJA de 3 de outubro de 2018, edição nº 2602