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Um dia na Rocinha, a favela-vitrine do Rio de Janeiro

Uma semana após a ocupação do Complexo do Alemão, uma tensão latente toma conta da favela da Rocinha, possível alvo de uma próxima ocupação, e de São Conrado

Em frente à Rocinha, os moradores de São Conrado já têm na cabeça o roteiro de como será o dia em que a favela for ocupada pelas forças de segurança. Ao contrário da ocupação do Alemão, de onde os tiros só eram ouvidos pela televisão, a zona Sul carioca acompanharia o combate de perto

Uma semana após a ocupação do Complexo do Alemão, na zona norte do Rio de Janeiro, as favelas cariocas vivem a tensão de uma operação iminente. Os chefes do tráfico já iniciaram a proteção de seu território. Moradores da Rocinha, na zona sul, denunciam que, à espera da polícia, os traficantes montaram barricadas, exacerbando a dominação que exercem há décadas sobre os que vivem ali. Eles também dizem que para lá fugiram muitos bandidos que conseguiram escapar da ocupação do Alemão, embora sejam do Comando Vermelho, uma facção tradicionalmente inimiga da Amigos dos Amigos (ADA), que controla a área. Nas vielas da favela mais famosa da cidade, há mudanças. Ruas fechadas, homens armados e uma espera tensa, surda e latente, conforme a reportagem do site de VEJA acompanhou, na última quinta-feira.

Não se notava de longe. Evidente era o esgoto molhando os pés, as centenas de motos novas que passavam, o cheiro do bolo de padaria misturado com a urina na calçada. No percurso, havia quatro revólveres e três metralhadoras, mas não se notava. Os estabelecimentos comerciais – 6.500, calcula-se – funcionavam no ritmo de lojas de shopping em véspera de Natal, como acontece o ano todo, independentemente da data. Nos cabeleireiros, cadeiras ocupadas. Nas lan houses, a um real e cinquenta centavos a hora, meninos brincavam em todos os computadores de ponta. No grande açougue perto da rua principal, a Via Ápia, mais de quinze pessoas esperando atendimento em frente à picanha e ao contra-filé. Mas quanto mais se subia as vielas íngremes, coloridas, sujas e apinhadas, mais homens armados observando de lugares onde não costumam estar.

Menos movimento – “Não, não, vamos mudar só um pouquinho, um desvio mínimo, senhores, por esta rua à esquerda, não tirem foto, por favor, me sigam aqui, aqui”, diz, nervoso, o guia do Favela Tour. É ele que nota a diferença no trajeto que faz há mais de dez anos. Tão logo percebe um homem segurando uma metralhadora do alto de uma escada do labirinto interminável, saca o celular preso à cintura e se distancia do casal de portugueses a quem serve de cicerone da pobreza. Seriam doze no tour, e não dois, mas o movimento está ruim por causa dos últimos acontecimentos. Em cima da hora, turistas cancelaram o passeio.

O guia volta trinta segundos depois e sai correndo na frente, replanejando o trajeto. Repetirá o gesto mais quatro vezes durante o passeio que dura cerca de uma hora. Da primeira vez, a Via Ápia é evitada. “Porque estava fechada para trabalhos. É uma rua quente, se você me entende”, explicaria depois. Desde 1992, a Favela Tour, empresa para quem trabalha, oferece visitas guiadas à Rocinha. Para sua surpresa e ao contrário do que avisou quando a van saiu do hotel cinco estrelas na orla de Copacabana – “Fiquem tranquilos, tranquilos, no caminho que iremos fazer ninguém verá homens armados, narcotraficantes, violência, nada disso. É um lugar pacífico, e eles conhecem nossa rota” -, alguma coisa não anda bem. Ele, que não é brasileiro, começou explicando aos estrangeiros que o Brasil é um país com 27 estados e terminou com a determinação: “Fotos apenas para a paisagem de fora, que tem vistas lindas do mar, nada de conversar com os moradores, não falem em ‘favela’ só em ‘comunidade’, e evitem olhar demais para as pessoas.”

Uma das entradas da favela da Rocinha, onde vivem quase 70 mil pessoas, de acordo com o Censo 2010 Uma das entradas da favela da Rocinha, onde vivem quase 70 mil pessoas, de acordo com o Censo 2010

Uma das entradas da favela da Rocinha, onde vivem quase 70 mil pessoas, de acordo com o Censo 2010 (/)

Quando a excursão chega na entrada da favela, “vejam vocês, fazemos uma curva, deixamos para lá as casonas da Gávea e voilá, a Rocinha!”. Todos os vidros da van são abertos. “Agora, eles verão que estamos entrando”, diz o guia. Após outras duas curvas: “Pronto, estamos protegidos”. O primeiro aceno é para um menino sem camisa, apoiado na porta de um bar. Conforme dados do Censo de 2010, ele é um dos 68.530 moradores da Rocinha, onde o aumento da população em uma década foi de 23%, um crescimento que é quase o dobro da média nacional, de 12,3%. O carro segue e vem o segundo aceno, para um homem sentado na frente de um ferro velho. O terceiro cumprimento é quando os gringos pisam pela primeira vez na favela. A van é estacionada, descem todos, e o guia aperta a mão de um dos dez homens sentados em uma tenda de artesanato.

Tensão em São Conrado – “O Alemão repercutiu aqui”, diz Alex, um dos artesãos. Ele vende desenhos da Rocinha e do Cristo Redentor em discos de vinil pintados com tinta acrílica. A ocupação do maior complexo de favelas da cidade refletiu nos negócios. Alex vendia até dez discos por dia e em uma semana o movimento caiu para um ou dois. A vida também está mais difícil. “Aqui somos gente pacífica, não tem necessidade de acontecer o que aconteceu lá, não. Mas todo mundo fica com medo”, fala baixo, com os olhos rápidos, procurando alguma coisa nas casas acima. Muito perto dali, Mariana Barcelos, vizinha geográfica de Alex, mas moradora de São Conrado, também tem medo. Pensa em deixar sua casa e ir para a Barra da Tijuca assim que a polícia decidir ocupar a Rocinha. Sua casa, acredita, fica em um ponto que servirá de fuga para aqueles que trabalham para Antonio Francisco Bonfim Lopes, o Nem, comandante do tráfico na área e apresentado pelo guia do passeio turístico como “o narcotraficante mais chefão dessa região.”

Os moradores de São Conrado já têm na cabeça o roteiro de como será o dia em que a favela for ocupada pelas forças de segurança. Muito perto de suas janelas, se ouviria o barulho dos helicópteros. O shopping das marcas mais caras da cidade ficaria entre o fogo cruzado dos bandidos e BOPE, Exército e polícias Civil e Militar. Traficantes em fuga poderiam entrar nos prédios, render porteiros, fazer moradores de reféns. Ao contrário da ocupação do Alemão, de onde os tiros só eram ouvidos pela televisão, a zona sul carioca acompanharia de muito perto a violência.

“E este narcotraficante é bonzinho, ajuda as pessoas?”, quer saber o português João, policial militar de Lisboa, que pagou 130 reais mais gorjeta por um passeio pela Rocinha com a mulher, Julieta. Ele acabou de aprender a chamar o lugar de comunidade, e não favela, mas se engana a toda hora. “E moram todos nestas barracas? Como fazem para viver nesta favela?”, exclama João, do alto de uma laje. Sua mulher o repreende com um beliscão. “Pronto, agora morreremos aqui porque não sabes que não se diz favela nem barracas. São as casas da comunidade, não ouviste?”, diz a mulher, que adora passear “por lugares por demais exóticos, como Zâmbia, Moçambique e Brasil.”

As leis do tráfico – A resposta à pergunta sobre Nem é assustadora, mas o guia parece achar tudo muito normal. “As pessoas aqui podem dormir de janelas e portas abertas, à vontade. Ninguém será roubado, assaltado, porque se isso acontecer os narcotraficantes julgam o caso e, dependendo do veredito, convidam a pessoa a se retirar. Em casos mais graves, como pedofilia, o sujeito pode ser queimado entre três pneumáticos, gasolina e fósforo. É bom ou ruim? Julguem vocês mesmos.”

Julgamentos não param de ser feitos. Os portugueses discutem a pobreza e fazem suas considerações enquanto desviam de motos que surgem de repente, aos montes, a toda velocidade. “Mais atentos, mais atentos”, sugere o guia. Mas Julieta quer explicar a ele sua solução: “O governo deveria colocar tudo a baixo, fazer casinhas novas, daria um outro aspecto, outro visual, toda uma outra coisa para essa gente”. Ela se surpreende com a quantidade de lojas e com a estrutura da lanchonete Bobs, das joalherias, agências de viagens e com a vitrine de uma farmácia, onde o anúncio em folhas de papel sulfite, uma para cada letra, avisa: “Promoção!!! Pílula do dia seguinte por apenas 9,90”. O guia se apressa em ensinar. “Nas periferias cariocas, os bebezinhos das jovens meninas são o grande problema. A avó é muito nova, tem lá os seus quarenta anos, não pode cuidar dos netinhos, o garoto já se mandou e a mãe fica sozinha”, diz.

Favela da Rocinha, Rio de Janeiro Favela da Rocinha, Rio de Janeiro

Favela da Rocinha, Rio de Janeiro (/)

Entre as muitas ruas, portas, portinhas, janelas, buracos e um calor que causa tonturas, o forró a todo volume os deixa confusos. “Mas já ouvi essa música na Bahia. Não é mesmo carioca, não é?”, pergunta a mulher ao guia. “É nordestina. Há muitos nordestinos aqui, muitos mesmo. Eles vieram para conseguir trabalho, e conseguiram, como vocês podem ver”, é a resposta. Não está errado. Segundo um estudo da Fundação Getúlio Vargas, feito com base no Censo do ano 2000, 34,8% dos moradores da Rocinha vieram do nordeste do país. Foi essa constatação que fez em 2007 a companhia aérea Ocean Air abrir uma loja dentro da favela, para atrair as pessoas que querem ver os parentes distantes pelo menos uma vez por ano.

Muitas vielas e uma hora depois, o passeio acaba com os turistas dentro da van, na saída do morro, com a polícia batendo na janela, mandando o veículo parar. O guia fica nervoso e antes de responder ao policial avisa aos passageiros que isso não costuma acontecer. “Senhor, somos do Favela Tour, estamos fazendo um passeio, são estrangeiros, vieram conhecer o Rio de Janeiro, são portugueses!”. O policial quer saber se tudo correu bem, se estava tudo normal no passeio. “Sim, claro, claro. Como sempre”. O carro é liberado. O guia se vira para os turistas e esclarece: “No Brasil, é muito importante ser gentil, pedir as coisas com jeitinho. Aqui nós conseguimos muitas coisas assim. Até o que não deveríamos”, e ri.

Caso não haja acordos e os traficantes não consigam o que não deveriam, a ocupação da Rocinha é iminente. Para o chefe de Polícia Civil, Allan Turnowksi, “o estado acabou com os pontos críticos. Rocinha, Mangueira, Maré, não importa. Esses são lugares aonde podemos chegar tranquilamente, e vamos chegar”. Neste dia, muito perto dos janelões dos prédios de São Conrado, se ouvirá o barulho dos helicópteros. Centenas de homens subirão a favela-vitrine do Rio de Janeiro, e a guerra contra o tráfico terá como cenário a via que une a zona sul à zona oeste da cidade, e alguns dos endereços mais chiques do Rio. Em frente à Rocinha, onde a separação entre o muito e o pouco é só uma curva, a cidade já está partida.

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