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Tragédia em SP reforça urgência de ações para reverter mudanças climáticas

Destruição lamentável provocada pelas chuvas expõe a importância de um movimento imediato do poder público e da sociedade contra a crise do clima

Por André Sollitto Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO
Atualizado em 24 fev 2023, 10h09 - Publicado em 24 fev 2023, 06h00

Os primeiros estudos sobre o impacto das mudanças climáticas para o planeta foram publicados há cinco décadas. Desde então, os cientistas — pelo menos os sérios e engajados — alertam sobre os riscos imediatos do aquecimento global. Apesar dos dados incontestáveis, muitas pessoas os consideram exagerados e distantes de sua realidade cotidiana. Para essa parcela descrente, os eventos provocados pelos extremos do clima ficariam restritos, digamos, a uma geleira descongelada na Antártica ou a um pouco mais de calor nas temporadas de verão. O negacionismo estúpido e inconsequente foi golpeado no domingo 19, quando os efeitos perversos das mudanças climáticas desabaram sobre milhares de brasileiros.

Na ocasião, o litoral de São Paulo, principalmente as cidades de Bertioga, Caraguatatuba, Ilhabela, São Sebastião e Ubatuba, recebeu a maior quantidade de chuvas da história do país. As tormentas duraram dez horas. Em Bertioga, resultaram no acúmulo de 682 milímetros de água — 1 milímetro de chuva equivale a 1 litro de água por metro quadrado. Em São Sebastião, o volume chegou a 626 milímetros. Trata-se de algo jamais visto: o recorde anterior pertencia a Petrópolis, no Rio de Janeiro, com 530 milímetros registrados em 2022. Ressalte-se: a maior marca até então é de apenas um ano atrás. Isso sugere, infelizmente, que novos recordes serão quebrados em breve.

TRANSIÇÃO - Geração de energia eólica e a carvão na Alemanha: o país ainda depende de fontes “sujas” -
TRANSIÇÃO - Geração de energia eólica e a carvão na Alemanha: o país ainda depende de fontes “sujas” – (Michael Probst/AP/Image Plus)

A tempestade que despencou sobre o litoral paulista varreu encostas, derrubou casas, carregou carros para longe e deixou um rastro de destruição que se estendeu por centenas de quilômetros. De acordo com o governo do estado, ao menos 48 pessoas morreram, mas o número deverá aumentar, já que muitas estão desaparecidas. O que provocou a tragédia? A resposta é clara e indubitável: ela é resultado direto das mudanças climáticas e do descaso. Segundo o Instituto de Estudos Avançados da USP, a temperatura das águas do litoral de São Paulo estava entre 27 e 28 graus, o que significa 1 grau acima da média histórica. Quando a temperatura do oceano se eleva para além da normalidade, a evaporação atinge níveis indesejáveis, estimulando a formação de nuvens e chuvas intensas. Foi isso que provocou o desastre em São Paulo, que levou a monumentais tormentas no passado, como a da Bahia em 2022 e a de Teresópolis em 2011, e levará a novas enchentes no futuro. Em um país como o Brasil, com a ocupação desordenada das cidades — e das encostas nos municípios litorâneos —, os eventos climáticos, na verdade, poderão se tornar ainda mais graves.

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Em certa medida, a humanidade colhe o que começou a plantar há dois séculos, desde o advento da Revolução Industrial. Com ela, vieram a exploração crescente e o possível esgotamento dos recursos naturais. A partir do desabrochar tecnológico, as distâncias ficaram menores e a produção de bens se tornou mais eficiente. Na esteira dessa jornada, o consumo explodiu — é o que se chama de progresso. Obviamente, o crescimento econômico é desejável e inerente à própria evolução da sociedade. Graças a ele, as indústrias produzem carros, remédios, smart­phones, computadores e tudo o que tornou a nossa vida melhor ao longo da história. O problema é que a velha fórmula se exauriu. “Precisamos ficar atentos aos limites planetários”, diz Gabriela Di Giulio, professora do Departamento de Saúde Ambiental da USP. “O modelo atual de desenvolvimento incorre em colocar em risco a sobrevivência humana.”

AQUECIDO - Fazenda solar no Chile: o planeta vem ampliando o uso de fontes renováveis -
AQUECIDO - Fazenda solar no Chile: o planeta vem ampliando o uso de fontes renováveis – (John Moore/Getty Images)

Até pouco tempo atrás, afirmações como essa soariam como exagero, mas o desastre no litoral paulista mostra que a professora está coberta de razão. Além da falta de planejamento das autoridades para enfrentar situações como essa, existe uma influência direta das ações da sociedade nesse cenário. Não se trata simplesmente de um act of God, uma fúria da natureza sobre a qual não temos nenhuma conexão. A emissão de gases poluentes como o dióxido de carbono (CO2) se deve apenas — e exclusivamente — às atividades humanas. É ela que esquenta a atmosfera e aumenta a frequência de eventos extremos, como secas severas e temporais. Somos, portanto, responsáveis pela nova realidade. Os danos trazidos pelas mudanças climáticas têm alcance global. Ao mesmo tempo que os brasileiros choravam as mortes no litoral, os italianos assustavam-se com a secura dos canais de Veneza. As águas que banham a cidade sumiram por causa da escassez de chuvas, ela também um reflexo das alterações do clima.

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arte mudanças climáticas

Os gritos de alerta estão por toda parte, mas há caminhos para a humanidade trilhar. O cenário, aponte-se mais uma vez, é gravíssimo. No entanto, alguns sinais trazem a esperança de que o quadro pode mudar. Nos últimos anos, o avanço de fontes renováveis de energia tem reduzido a queima de combustíveis fósseis como petróleo, gás e, especialmente, carvão, que liberam CO2 na atmosfera. Em 2021, pela primeira vez na história, o uso global de energia solar e eólica em relação ao total consumido superou a marca de dois dígitos. Naquele ano, a participação foi de 10,3%, conforme estudo da consultoria Ember. Em 2022, o índice se aproximou de 13%.

Nesse contexto, os veículos elétricos, que não emitem gases durante a sua operação, podem assumir papel vital. Eles respondem atualmente por 13% das vendas globais, número baixo diante da elevada expectativa que traziam. O problema é o preço: perto dos rivais poluentes, os elétricos são mais caros. De acordo com observadores do mercado, a produção em escala cada vez maior tende a baixar os valores. No Brasil, estudo da consultoria McKinsey estima que os automóveis movidos a eletricidade responderão por 55% das vendas até 2040.

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Associe-se a crescente adoção de energias renováveis à preservação da biodiversidade e o que surge no horizonte é um cenário de esperança. Como se sabe, as florestas são vitais para a remoção de CO2 do ar. É dever da humanidade, portanto, mantê-las de pé. No Brasil, uma parte do agronegócio, pelo menos aquela que planta e colhe com responsabilidade, tem sido parceira da preservação do verde nacional. Graças ao uso intensivo de tecnologia no campo, as terras agrícolas passaram nos últimos anos a produzir mais usando áreas menores — o que significa menos desmatamento. Segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), a produção agrícola brasileira cresceu 400% entre 1975 e 2020. Isso foi possível porque, no Brasil, a produtividade total dos fatores (PTF) aumentou 3,3% ao ano nesse período, mais do que em qualquer outra nação.

POTÊNCIA VERDE - Rio Manicoré, no coração da Amazônia: zerar o desmatamento põe o Brasil em posição privilegiada -
POTÊNCIA VERDE - Rio Manicoré, no coração da Amazônia: zerar o desmatamento põe o Brasil em posição privilegiada – (Mauro Pimentel/AFP)

Iniciativas como essas já trazem resultados concretos para o socorro do planeta. Estudos recentes mostram que as emissões atingiram o pico em muitos países. Em outros, começaram a cair. Nos Estados Unidos, encolheram 10% desde 2005. Elas também estão em queda em nações como Rússia, Japão e na União Europeia. Não é só. Em 2022, as emissões de CO2 oriundas da queima de combustíveis cresceram menos de 1% — foi o menor avanço da história.

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O Brasil ocupa posição estratégica no combate às mudanças climáticas. É o único entre os grandes emissores com condições de assumir o protagonismo na proteção do planeta. O segredo, dizem os especialistas, está em acabar com o desmatamento. Quase 50% das emissões brasileiras vêm da derrubada, predominantemente ilegal, de árvores em biomas como a Amazônia e o cerrado. “Ao eliminarmos o desmatamento, poderíamos reduzir as emissões de maneira rápida, barata e com enormes benefícios ambientais, sociais e econômicos”, diz o físico Paulo Artaxo, professor do Instituto de Física da USP e vice-presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. “Nenhum outro país está em posição semelhante.”

O desafio, como sempre, diz respeito à quantidade de recursos financeiros disponíveis. Há boas políticas em andamento. Criado em 2008, o Fundo Amazônia quer captar recursos para ações de combate ao desmatamento. Durante a gestão Bolsonaro, Alemanha e Noruega, responsáveis pelos maiores aportes feitos até então, bloquearam a liberação do dinheiro por falta de empenho brasileiro na salvaguarda da floresta. Sob Lula, o fundo deverá ser revigorado. No campo ambiental, de fato, o governo petista começou bem. Em janeiro, o desmatamento da Amazônia caiu 61% em relação ao mesmo mês de 2022.

POLUIÇÃO - Voluntário recolhe plástico no mar da Turquia: o descarte inadequado amplia os efeitos do aquecimento global -
POLUIÇÃO - Voluntário recolhe plástico no mar da Turquia: o descarte inadequado amplia os efeitos do aquecimento global – (Ozan Efeoglu/Anadolu Agency/Getty Images)

O Brasil desfruta vantagens adicionais. Ao contrário de outros grandes emissores, dependentes de combustíveis fósseis para a geração de energia, o país é referência em alternativas limpas. Em 2022, a energia solar se tornou a terceira maior fonte de energia no território brasileiro, atrás das hidrelétricas e da energia eólica. E há espaço para avançar mais. “O Brasil possui condições meteorológicas ideais que justificam os investimentos econômicos nessa área”, explica Carlos Nobre, o primeiro cientista brasileiro a ser eleito membro da academia científica da Royal Society. Ele lembra que o regime de ventos da Região Nordeste favorece a geração de energia eólica, mas destaca a incidência solar como uma dádiva que precisa ser mais valorizada no país.

Se o planeta clama por socorro, a boa notícia é que os jovens parecem cada vez mais comprometidos com a sua proteção. Uma pesquisa global realizada no ano passado com 10 000 pessoas entre 16 e 25 anos constatou que 59% delas estão “extremamente preocupadas” com as mudanças climáticas. Se o mesmo estudo fosse realizado alguns anos atrás, o resultado seria diferente. “Há uma convergência de jovens se interessando por essa causa”, confirma Rodrigo Jesus, porta-voz de clima do Greenpeace Brasil. Ainda há muito a ser feito. Se cada um de nós, a despeito da idade, origem, atividade profissional ou inclinação ideológica, fizer a sua parte, talvez o planeta possa reverter a chaga das mudanças climáticas. E, quem sabe, tragédias como a do litoral de São Paulo não se repitam.

Publicado em VEJA de 1º de março de 2023, edição nº 2830

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