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Traficantes dominam noticiário internacional sobre o Rio

Cidade da final da Copa é retratada como local perigoso, onde traficantes atuam à vontade e policiais são caçados. 'NYT' e 'CNN' fazem críticas à ‘pacificação’ e mostram que moradores perderam a confiança na polícia

As favelas cariocas sempre foram, para o visitante estrangeiro, um ponto de preocupação, entre os prazeres que o Rio de Janeiro pode proporcionar. Justificadamente, o turista, assim como o morador da cidade, é bombardeado por informações sobre balas perdidas, guerras de traficantes e ataques de quadrilhas sem hora para acontecer. A imagem de cidade violenta começou a ser atenuada em 2008, quando surgiu a primeira Unidade de Polícia Pacificadora (UPP), notícia imediatamente seguida por uma campanha de marketing que incluía a visita de celebridades como Madonna às favelas “pacificadas”. O trabalho de convencimento de que o Rio mudou, e que as favelas são seguras, rolou ladeira abaixo justamente no período mais importante, a chegada dos turistas para a Copa do Mundo e a ‘época de ouro’ da cidade, sede da Olimpíada de 2016.

Os esforços do governo do Estado, com apoio federal e do município – que paga a gratificação aos policiais das UPPs -, foram neutralizados nos Estados Unidos e na Europa por uma sequência de reportagens que têm, como nas décadas de 1980 e 1990, o crime e a violência urbana como centro da questão. Na semana passada, a rede de TV CNN destacou, em seu site, uma reportagem que mostra traficantes armados vendendo cocaína, maconha e crack em uma favela não identificada. As câmeras também flagram o consumo de drogas à luz do dia, enquanto crianças brincam numa rua.

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A repórter Shasta Darlington entrevista traficante em favela do Rio de Janeiro A repórter Shasta Darlington entrevista traficante em favela do Rio de Janeiro

A repórter Shasta Darlington entrevista traficante em favela do Rio de Janeiro (/)

No fim de semana, o jornal americano New York Times publicou uma reportagem, com texto e vídeo, que parte de um ponto de vista específico, a morte de mais de 100 policiais este ano, 30 deles nas favelas com UPPs. Personagens cariocas entrevistados pelo NYT lançam a pergunta: se a polícia não consegue proteger os policiais, como garantirá a segurança de quem visita o Rio? Entram, em seguida, quase todos os tipos de problemas de segurança que atormentam os cariocas, como milícias, envolvimento de policiais com o crime, abusos de policiais – como a mulher arrastada por uma viatura – e protestos contra a UPP. Nem todos estão conectados, é verdade, mas contribuem de alguma forma para o momento turbulento que a cidade atravessa, num ‘revival’ indigesto dos piores momentos da insegurança de décadas atrás.

O destaque internacional para a criminalidade no Rio é impulsionado pela proximidade da Copa. E, para desespero das autoridades de segurança e da população, o período coincide com uma retomada do crescimento dos índices de violência. O Mapa da Violência, estudo anual que é referência para as ocorrências de homicídios e mortes de causas externas no país, cuja edição referente a 2012 será publicada nas próximas semanas, destaca a volta do crescimento dos homicídios. O Brasil, com 29 casos para cada 100.000 habitantes, voltou ao patamar de 1980. O Rio registrou taxa de 28,3, idêntica à de 2011 e bem inferior à de 2002, quando era de 56,5.

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O governo do Estado sustenta, com razão, que houve redução significativa no volume de assassinatos, com queda acentuada no período das UPPs. Mas como destaca uma prévia do Mapa da Violência, a curva voltou a ser ascendente. Especificamente no caso do Rio, houve, a partir do ano passado, uma retomada da ofensiva do tráfico de drogas, com ataques sistemáticos à polícia. O NYT cita a jornalista carioca Roberta Trindade, que mantém um blog dedicado a acompanhar casos de grande repercussão e, em especial, as mortes de policiais. Roberta acompanha de perto os casos de policiais baleados e mortos, e passou a ser, para os próprios policiais, a referência nesse tipo de contabilidade. O blog que atualiza diariamente cita caso a caso – ou seja, não trata apenas dos números colhidos na estatística oficial. Ao longo de 2014, de acordo com essa contagem, houve 121 policiais baleados – dos quais 119 militares. Trinta morreram. Estavam trabalhando 75 deles, outros 41, foram mortos de folga, seja como vítimas da criminalidade a que estão expostos os cidadãos comuns ou executados por serem policiais, descobertos por bandidos durante um assalto, por exemplo.

Os homicídios são, indiscutivelmente, os crimes mais graves e que servem para balizar o grau de civilidade de um país, uma cidade. Mas são crimes mais leves, e mais frequentes, os que impactam diretamente na sensação de segurança da população. E nesse quesito o Rio de Janeiro vai mal. Os roubos de rua – que compreendem os assaltos, os roubos de celular e os ataques dentro do transporte público – são os que mais rapidamente se refletem no comportamento da população. Como mostrou reportagem do site de VEJA, em janeiro deste ano o Rio bateu um recorde, com o maior índice de roubos dos últimos dez anos. Somados todos os tipos de roubo (residência, coletivos, transeuntes, carros e celulares), o primeiro mês do ano da Copa do Mundo foi o mais perigoso dos últimos dez anos, com 13.876 registros.

Isso quer dizer que os turistas estão em perigo? Não necessariamente, afinal, o esquema de policiamento para o período da Copa do Mundo envolve 20.000 agentes, entre policiais militares, civis e integrantes das Forças Armadas. Só no Maracanã, no início da Copa, estarão 2.500 policiais – mais que os cerca de 2.000 que atuam diariamente nas ruas da cidade. O perímetro e as vias que receberão o reforço de efetivo coincidem com a área por onde vão circular os turistas. E a porção turística do Rio, apesar de seus problemas, ainda é a mais segura da cidade. O reforço de segurança, pro enquanto, perde no noticiário internacional para a ofensiva dos bandidos.

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