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Assassino confesso de Mayara é indiciado por latrocínio

Com base em e-mails interceptados, polícia suspeita que crime foi motivado por discussão entre baterista e musicista envolvendo suposta contaminação por DST

Por Ullisses Campbell - Atualizado em 8 ago 2017, 11h50 - Publicado em 7 ago 2017, 22h44

A Polícia Civil do Mato Grosso do Sul indiciou o baterista e técnico em informática Luís Alberto Bastos Barbosa, de 29 anos, por latrocínio. O inquérito, que chegou na segunda-feira ao Ministério Público, conclui que ele deu três marteladas na cabeça da musicista Mayara Amaral, de 27 anos, dentro de um motel na cidade de Campo Grande na madrugada do dia 25 de julho para roubar o seu carro, um Gol modelo 1992, uma guitarra, um violão, um amplificador e um computador portátil, bens avaliados em 17 000 reais.

Em entrevista a VEJA concedida dentro do Presídio de Trânsito, em Campo Grande (MS), Luís Alberto confessou que matou por causa de uma briga entre ele e Mayara, com quem mantinha um relacionamento às escondidas, já que tem uma namorada. A investigação aponta que o desentendimento ocorreu por causa de uma discussão envolvendo suposta contaminação por DST (doença sexualmente transmissível). A suspeita foi possível a partir da interceptação de e-mails trocados entre Mayara e Luís Alberto e entre ela e Fábio Benevides Gonzales, um tatuador conhecido como Loco Love, com quem a musicista se relacionava simultaneamente. Fábio admitiu à delegada Gabriela Stainle, que presidiu o inquérito, que teve a doença e que poderia ter contaminado Mayara. A discussão no motel chegou ao ápice quando Luís Alberto disse a musicista que tinha receio de transmitir a doença para a namorada, e ela teria tido uma reação debochada. “Foi nesse rompante que peguei o martelo e desferi os golpes”, sustentou o baterista.

Fábio Benevides Barbosa, que disse à polícia que tinha um relacionamento com Mayara Reprodução/Reprodução

Em depoimento à polícia, Fábio contou que conheceu Mayara pelo aplicativo Tinder há dois meses e que se encontraram pela última vez no dia 22 de julho, ou seja, três dias antes de ela ser assassinada por Luís Alberto. Em seu depoimento, dado no dia 26, a mãe de Mayara, Ilda Cardoso, relatou que estava andando no parque da cidade com a filha um mês antes do crime quando encontraram ocasionalmente com Fábio, que fazia uma apresentação de hip-hop ao ar livre. Segundo a mãe, o jovem foi até elas e as cumprimentou. “Era um rapaz todo tatuado e cheio de piercings. Ela me disse que estava ‘ficando’ com ele e na mesma hora comentei que eles não combinavam”, registrou Ilda em depoimento.

O baterista e técnico em informática Luís Alberto Bastos Barbosa, que foi indiciado pela morte da musicista Jefferson Coppola/VEJA

Latrocínio

Mesmo estando provado que Luís Alberto e Mayara tinham um relacionamento, e apesar de haver fortes indícios de que ele a matou em meio a uma discussão dentro do motel, a delegada Daniela Stainle resolveu indiciá-lo por latrocínio porque ele ficou com o carro e os equipamentos musicais da vítima. Outro indício de latrocínio apontado pela delegada: após atear fogo ao corpo em um terreno baldio, Luís Alberto procurou por Ronaldo Olmedo, o Cachorrão, um traficante com passagem pela polícia, para vender o carro de Mayara por 1 000 reais.

Em depoimento, Cachorrão, disse que pensou em ficar com o veículo, mas que não tinha dinheiro para pagar naquele momento. Luís Alberto teria dito que aceitava qualquer coisa pelo carro, inclusive cocaína, e deixou o veículo com o traficante. No entanto, ao ver que se tratava de um carro velho, a mulher de Cachorrão mandou que ele devolvesse o Gol. Luís Alberto, então, repassou o carro para um amigo de Cachorrão, Anderson Sanches, que iria levá-lo para vender no Paraguai. Mas a polícia prendeu ambos em flagrante dentro do carro.

Como Cachorrão assumiu que ficou pouco tempo com o carro e que vendia drogas, a delegada o indiciou por tráfico e receptação de veículo roubado, o que pode dar de 5 a 15 anos de prisão. Anderson foi indiciado só por interceptação, o que pode lhe render entre um e quatro anos. “Nós ouvimos 20 testemunhas e resolvemos indiciar Luís Alberto por latrocínio, que pode dar entre 20 e 30 anos. Se ele for julgado por homicídio ou feminicídio poderá pegar penas menores”, justifica delegada. Agora, caberá ao promotor Clovis Smaniotto, do Ministério Público do Mato Grosso do Sul,  tipificar o crime. “Já estou debruçado no caso e vou tomar umas providências adicionais”, afirmou Smaniotto, que tem até a próxima sexta-feira para denunciar – ou não –  os réus à Justiça.

O advogado de Luís, Conrado Passos, vai tentar convencer o Ministério Público a qualificar o crime como feminicídio, “como desejava os familiares da vítima até pouco tempo atrás”. Especialistas consultados por VEJA disseram que, mesmo que o crime cometido por Luís seja qualificado como homicídio ou feminicídio, há tantos agravantes (método cruel, sem chance de defesa à vítima e ocultação de cadáver), que, se for submetido a um júri popular, Luís terá poucas chances de se livrar da pena máxima de 30 anos, ainda mais sendo réu confesso.

 

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