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Suicídio nas redes

A ativista Sabrina Bittencourt, que denunciou o médium João de Deus, publicou uma carta de despedida na internet e desapareceu. Vivia com medo, escondida

“A minha mãe morreu no Líbano e será enterrada debaixo da sua oliveira”; “o corpo não será seu troféu. Ninguém tocará no corpo dela sem seu consentimento”. Curtas e cortantes, as frases foram publicadas por Gabriel Baum, de 17 anos, em uma rede social logo depois da veiculação de uma carta-despedida de sua mãe, a ativista Sabrina Bittencourt. Ela teria se suicidado no sábado 2, às 9 da noite, hora do Brasil. Usa-se o verbo no condicional porque desde então o episódio produziu mais perguntas do que respostas, e até o fechamento desta edição de VEJA as autoridades evitaram fornecer informações sobre a morte da ativista. O Ministério das Relações Exteriores não recebeu comunicado sobre o suicídio.

Poucas horas antes de supostamente dar cabo de sua vida, Sabrina conversou longamente com a psicóloga Maria do Carmo, cofundadora do Vítimas Unidas, entidade nascida para proteger vítimas do médico e estuprador Roger Abdelmassih. “Ela estava aflita e com medo”, diz a psicóloga. “Os ataques sofridos eram de causar pânico em qualquer um.” Sabrina e seus filhos receberam ameaças de morte, algumas das quais foram encaminhadas à Polícia Federal.

Sabrina Bittencourt, de 38 anos, ganhou projeção nacional ao ser uma das responsáveis por receber notícias de vítimas do médium João de Deus e apoiá-las para que formalizassem as denúncias ao Ministério Público. Ele está preso desde dezembro por ter abusado de centenas de mulheres e responde a processo por estupro de vulnerável, violação sexual e posse ilegal de armas. “Esse trabalho é minha missão de vida”, disse a ativista a VEJA em janeiro. Enquanto denunciava João de Deus, ela também tratava de um câncer no sistema linfático.

Para não deixar rastros, Sabrina, que morava recentemente em Barcelona, na Espanha, trocava de residência a cada dez dias. Como não houve registro do corpo nem velório, ganhou impulso a especulação de que o suicídio seria uma forma ensaiada de sair de cena. “Viva ou morta, não importa: Sabrina é mais uma vítima de João de Deus. Matar-se ou deixar de circular para sempre são duas decisões difíceis”, diz Gabriela Manssur, promotora de Justiça do Grupo de Atuação Especial de Enfrentamento à Violência Doméstica. “Uma coisa é certa: ao encorajar as vítimas, Sabrina ajudou a fazer justiça”.

FAMÍLIA PRESA – João de Deus (à esq.) e o filho Sandro Teixeira (à dir): detido provisoriamente por ameaçar, com uma arma, uma das testemunhas que depuseram contra seu pai

FAMÍLIA PRESA – João de Deus (à esq.) e o filho Sandro Teixeira (à dir): detido provisoriamente por ameaçar, com uma arma, uma das testemunhas que depuseram contra seu pai (Daniel Marenco/Agência O Globo/Policia Civil/Divulgação)

A ativista carregava, ela própria, as marcas profundas e doloridas do abuso sexual. Foi criada em uma família integrante da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, popularmente conhecida como mórmon, e contava ter sido abusada dos 4 aos 8 anos de idade por um pediatra ligado ao templo. Mais tarde, aos 16, foi estuprada por um homem em Pernambuco, na praia de Porto de Galinhas. Para ela, os abusadores religiosos deveriam ser combatidos com força. Eram, em suas palavras, “homens tóxicos”. Colhendo denúncias, desmascarou alguns deles: Prem Baba, guru de artistas, e Gê Marques, da igreja Reino do Sol, de São Paulo. No entanto, críticos questionam certos exageros na peroração de Sabrina. Ela chegou a afirmar que uma garota violentada por João de Deus teria se matado, mas a Justiça até hoje desconhece esse fato.

O anúncio do suicídio de Sabrina aconteceu no mesmo dia da prisão de Sandro Teixeira, filho de João de Deus, em Anápolis. Ele foi detido em caráter preventivo por tentar coagir uma testemunha com uma arma. O episódio ocorreu em 2016, mas só agora a vítima contou o caso. Sandro Teixeira, tal como o pai, tem um currículo criminal. “Em 2010, ele passou cinco meses detido por violentar uma enteada de 15 anos”, diz João Paulo, neto de João de Deus, filho de Dalva, que denunciou o próprio pai com o apoio de Sabrina. Dalva disse a VEJA que foi abusada pelo pai médium desde os 10 anos. Enquanto Sabrina sai de cena, a situação de João de Deus tem tudo para piorar. A psicóloga Maria do Carmo, do Vítimas Unidas, pediu a reabertura do caso da morte de Ligia, ex-mulher de João de Deus, que teria se suicidado há trinta anos. A suspeita, diz Maria do Carmo, é que tenha sido assassinada pelo marido.

Publicado em VEJA de 13 de fevereiro de 2019, edição nº 2621

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