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‘Só soube da morte da minha filha dois meses depois’

Leia o depoimento de Silvana Reis de Almeida, mãe de Valéria, brasileira assassinada pelo marido na África do Sul em 2018

Por Silvana Reis de Almeida Atualizado em 11 out 2019, 11h03 - Publicado em 11 out 2019, 06h00
‘Ainda guardo as cinzas da minha menina em uma urna, ao lado da minha cama, porque um dia vou escolher, junto com meu neto, onde vamos depositá-las’, conta Silvana Eduardo Monteiro/.

Finalmente consegui ver o assassino da minha menina condenado. Valéria tinha 30 anos quando foi sufocada pelo marido, o sul-africano Johan Oswald Schmid, em Margate, na África do Sul, em fevereiro do ano passado. Ela foi morta na frente do meu neto, Johann, que tinha 4 aninhos, e seu corpo nu acabou escondido dentro de um freezer. Oswald foi preso uma semana depois, confessou o crime e em setembro foi considerado culpado. Agora ele aguarda a sentença, que pode chegar a quinze anos de cadeia. Estou aliviada, mas gostaria que sua pena fosse maior.

Os dois se conheceram em 2008 no Rio de Janeiro, onde ele trabalhava como engenheiro de uma multinacional. Valéria era babá. Durante os cinco anos de namoro, Oswald se mostrou violento e controlador. Quando ele chegava alcoolizado em casa, minha filha me ligava de madrugada pedindo socorro. Ela tinha marcas roxas nos braços.

Eu a aconselhava a denunciar as agressões de Oswald, mas ela estava muito apaixonada e dizia que ele tinha tido uma infância difícil. Quando Valéria descobriu que estava grávida, ele a acusou de traição, expulsou-a de casa, jogou suas coisas na rua e pediu que nunca mais voltasse. Foi quando eu a convenci a denunciá-lo à polícia. Ela conseguiu uma medida protetiva para impedir a aproximação dele. No sétimo mês de gravidez, Valéria descobriu que esperava um menino. Oswald soube da notícia por amigos em comum e disse a ela que queria assumir o filho e reatar o relacionamento. Valéria estava resolvida a não aceitar, mas ele prometeu mudar suas atitudes — e ela acreditou. No fim de 2013, Oswald decidiu voltar para a África do Sul com Valéria. Implorei a ele que não levasse minha filha e meu neto, mas Oswald estava convencido de sua decisão, e Valéria permanecia iludida. Eles se casaram na África do Sul e me enviaram fotos em que pareciam felizes. Um ano depois, ela veio me visitar, trazendo Johann, e parecia disposta a ficar. Mas voltou para Oswald, que a proibiu de viajar sozinha para o Brasil.

Nunca imaginei que ele seria capaz de matá-la dessa forma, com tamanha frieza. Recebi a notícia dois meses após a morte da minha filha. A polícia teve dificuldade em me localizar porque, depois do crime, os pertences e documentos da Valéria foram queimados. Caí em depressão e me tranquei no meu quarto, mas tive de reunir forças e ir até a África do Sul reconhecer o corpo da minha filha. Lá, fui à prisão e perguntei a Oswald por que tinha cometido tamanha barbaridade. Ele não teve coragem de me olhar nos olhos e não respondeu. Meu neto Johann está sob os cuidados da irmã de Oswald, porém entrei com um pedido de guarda na Justiça sul-africana.

Sempre pedi a minhas duas filhas que tomassem cuidado com relacionamentos abusivos porque eu mesma já passei por situações difíceis. Fui estuprada aos 15 anos, mas não denunciei o fato por ter sofrido assédio na própria delegacia. Depois de casada, meu marido me agredia constantemente. Uma vez separados, ele me perseguia com um galão de gasolina para atear fogo em mim. O trauma é tão grande que tenho medo de qualquer homem que se aproxime de mim. Acho que o feminicídio só vai acabar quando houver penas mais duras contra os agressores e as pessoas pararem de culpar as mulheres. Espero que a condenação de Oswald sirva de exemplo para outros casos. Só não fui morta porque Deus não quis e porque houve pessoas que me defenderam. Infelizmente, minha filha se envolveu com o homem errado e estava longe de nós. Valéria era muito boa, generosa e sorridente. Ainda guardo as cinzas da minha menina em uma urna, ao lado da minha cama, porque um dia vou escolher, junto com meu neto, onde vamos depositá-las.

Depoimento dado a Julia Braun

Publicado em VEJA de 16 de outubro de 2019, edição nº 2656

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