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Sete meses na montanha-russa

O governo de Jânio tangenciou o penhasco com perturbadora frequência, alternando freadas bruscas com acelerações vertiginosas. O abandono prematuro do governo foi uma das cenas desse mesmíssimo roteiro

Por Da Redação 20 ago 2011, 09h53

Em 1° de fevereiro de 1961, 24 horas depois da posse de Jânio, a maioria oposicionista no Congresso ameaçou-o com a convocação de uma sessão especial da Câmara e do Senado caso continuasse hostilizando o antecessor. O novo presidente reagiu com a criação de cinco comissões de sindicância, chefiadas por militares e incumbidas de investigar “focos de corrupção” que dizia ter herdado de JK. Nos 204 dias seguintes, o Brasil viajou numa montanha-russa monitorada por um quarentão que obedecia a impulsos ditados pelo instinto. Sempre dera certo.

Tangenciando o penhasco com perturbadora frequência, alternando freadas bruscas com acelerações vertiginosas, entre uma crítica a Juscelino e um ataque ao Poder Legislativo, Jânio aumentou de seis para oito horas o expediente dos servidores públicos, tornou obrigatório o cartão de ponto, exonerou todos os contratados nos cinco meses anteriores, suspendeu nomeações por um ano, reduziu o orçamento das Forças Armadas e o soldo dos militares em serviço no exterior, diminuiu o número de funcionários em todas as embaixadas, tabelou o preço do arroz e do feijão, solidarizou-se com Fidel Castro no episódio da invasão de Cuba financiada pelos Estados Unidos, baixou medidas de combate ao monopólio, desvalorizou a moeda, determinou ao Itamaraty que apressasse o restabelecimento de relações diplomáticas com a União Soviética, proibiu biquíni na praia, maiô em concurso de miss, lança-perfume, corridas de cavalo em dias úteis, veiculação de comerciais no cinema e brigas de galo, ordenou a prisão de um general que presidira a Petrobras e tirou do ar por três dias a Rádio JB para puni-la por críticas ao governo, mobilizou o Exército para reprimir uma greve de estudantes em Recife, brigou com a UDN, afastou-se dos demais partidos que tentavam ampará-lo, instituiu o governo itinerante, regulamentou a remessa de juros para o exterior, enviou o vice João Goulart à China em missão oficial, condecorou Che Guevara e rompeu com Carlos Lacerda.

No 207° dia de governo, renunciou à Presidência da República.

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