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Senegaleses formam nova onda de estrangeiros trazidos por coiotes ao país

Cidadãos do país africano foram os que mais solicitaram refúgio ao Brasil entre janeiro e outubro no ano passado – nenhum pedido foi aceito

Por Da Redação 8 jul 2015, 10h01

Todo dia, às 17h30, Papa Bá, de 28 anos, se reúne com outros trinta muçulmanos para rezar em direção a Meca, na Arábia Saudita. Esse é um dos únicos momentos em que encontra alguma familiaridade com os costumes de casa. Senegalês, Bá está em São Paulo há menos de uma semana e já se juntou a uma comunidade que cresce a cada dia na cidade. Entre janeiro e outubro de 2014, os senegaleses foram o povo que mais solicitou refúgio ao Brasil – 1.687, de 8.302 pedidos. Apesar disso, o Comitê Nacional de Refugiados (Conare) não aceitou no ano passado nenhum pedido de cidadãos daquele país. Sem serem considerados refugiados, o que garante direitos iguais aos de qualquer estrangeiro legalizado, eles enfrentam dificuldades para se manter no país.

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Bá fez uma viagem de nove dias até o Brasil. Com custo de cerca de 3.500 dólares, ele teve “escalas” em Madri, na Espanha; Quito, no Equador; e Lima, no Peru. Só depois conseguiu entrar no Brasil, pelo Acre, e, então, de Rio Branco seguir para São Paulo.

Nilson Mourão, secretário de Direitos Humanos do Acre, disse que os senegaleses são, atrás dos haitianos, o segundo maior grupo de estrangeiros “agenciados” por duas equipes de coiotes para entrar no Brasil – uma que os ajuda a chegar ao Equador e outra que os encaminha até Rio Branco.

Bá é formado em Línguas Estrangeiras em uma universidade pública do Senegal e disse que todo o sacrifício da viagem foi válido para fugir da pobreza de seu país. Desde que se formou, há dois anos, ele não conseguia emprego. Agora, ele espera continuar os estudos em uma universidade brasileira e trabalhar com tradução.

De acordo com o Conare, o refúgio não é concedido se não for comprovado “o temor de perseguição por motivos de raça, religião, grupo social ou opiniões políticas, pelo qual o solicitante se viu obrigado a deixar o seu país de origem” ou quando não é verificada uma situação grave e generalizada de violação dos direitos humanos. Esse seria o caso dos senegaleses. O país, apesar de ter uma situação de miséria e pouca oferta de empregos (está entre os 25 países com mais baixo Índice de Desenvolvimento Humano), não sofre com guerras civis e tem uma democracia considerada consolidada.

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A senegalesa Astu Culibaly, de 28 anos, decidiu, mesmo grávida de cinco meses, vir ao Brasil por causa da falta de oportunidades em seu país. “Estava sem emprego há mais de um ano e queria dar melhores condições à minha filha”. Mesmo a viagem de nove dias pareceu mais fácil que a realidade que ela encontrou no Brasil. Grávida, não arrumava emprego e, depois, sem ter onde deixar a filha, também não conseguia trabalhar.

Agora, três anos depois e com mais uma filha de seis meses, Astu foi empregada por uma senegalesa que vende marmitex na Liberdade. “Consegui vaga na creche para as duas e, agora, posso trabalhar. Mas é difícil, ganho 700 reais, mas só de aluguel por um quarto pago 400 reais.”

Com maioria da população muçulmana, os senegaleses que chegam a São Paulo costumam procurar abrigo em uma mesquita, na Rua Guaianases, no centro. Moruf Lawal, presidente da mesquita, disse que o local acolhe por dia cerca de setenta a oitenta imigrantes. Ele estima que um terço seja de senegaleses. “Eles não tinham esperança de conseguir emprego no Senegal. Mesmo sendo difícil, aqui há oportunidades”, disse Lawal. Muitos se juntaram aos vendedores ambulantes do centro.

Abrigos – Com a chegada constante de imigrantes a São Paulo, a Igreja Católica montou mais dois abrigos para acolher estrangeiros nas últimas duas semanas. Ao todo, são 210 novas vagas. Um dos abrigos, com 150 vagas, está funcionando em um imóvel na região do Pari. O local pertence à Congregação das Irmãs Scalabrinianas. O outro, com sessenta vagas, foi montado em um imóvel da Pastoral da Criança, na Armênia, e é administrado pela prefeitura. Os dois têm caráter emergencial e vão ajudar a “desafogar” o abrigo da Casa do Migrante, mantido pela Igreja Nossa Senhora da Paz, que tem 110 vagas.

Como é um dos abrigos mais conhecidos da cidade, a casa recebe muitas doações de comida e itens de higiene e, por isso, é frequentemente procurada pelas mesquitas que abrigam muçulmanos. “Sempre que eles pedem, nós ajudamos”. A prefeitura paulistana também mantém um abrigo com 150 vagas para estrangeiros e um edital para a abertura de um novo local, com mais 150 vagas. Camila Baraldi, coordenadora municipal de Políticas para Migrantes, disse que o Centro de Referência Acolhida do Imigrante, no Terminal Barra Funda, verificou que nos últimos meses apenas 15% dos atendidos precisavam de abrigo – a maioria só precisava de orientação para encontrar um parente ou amigo.

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(Com Estadão Conteúdo)

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