Assine VEJA por R$2,00/semana
Continua após publicidade

Senador petista chama atenção por ideias na contramão do partido

Fabiano Contarato defendeu o fim da saidinha, a ampliação do uso de armas para certas categorias profissionais e o aumento da punição a menores infratores

Por Marcela Mattos Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO Atualizado em 8 Maio 2024, 13h22 - Publicado em 12 abr 2024, 06h00

Em uma das primeiras votações deste ano, o governo Lula sofreu um revés no Senado ao ver um projeto encampado pela oposição ser aprovado de maneira acachapante. Sob a batuta de figuras como Flávio Bolsonaro e Sergio Moro, a proposta que proíbe a chamada saidinha de presos em datas comemorativas — Natal e Dia das Mães, por exemplo — recebeu apenas dois votos contrários, deixou as lideranças governistas em saia justa e promoveu o sumiço de parlamentares que evitavam se posicionar sobre o tema. No plenário, uma tropa animada vociferava contra os benefícios para “bandidos” e “vagabundos”, enquanto parlamentares progressistas fugiam do fogo cruzado. O estranho silêncio da esquerda seria praticamente absoluto, não fosse a voz de quem, à época, ocupava justamente a posição de líder do PT, o senador Fabiano Contarato. Ao contrário do que muitos esperavam, porém, o parlamentar juntou-­se aos oposicionistas, defendeu o arrocho aos detentos e propôs medidas de contenção ainda mais duras.

 

RESTRIÇÃO - Saidinha: pauta está no topo das preocupações dos eleitores
RESTRIÇÃO - Saidinha: pauta está no topo das preocupações dos eleitores (Akira Onuma/Ascom Susipe/.)

Delegado de polícia por quase três décadas e natural do Espírito Santo, um estado majoritariamente conservador, Contarato é um dos poucos parlamentares governistas que se engajam na agenda da segurança pública — uma pauta instrumentalizada pelo ex-presidente Jair Bolsonaro e seus apoiadores e que está no topo das preocupações do eleitorado nacional. No caso da restrição da saidinha, ele justifica que já há muitos benefícios para os presos, como a progressão de regime ao cumprimento de um sexto da pena e o abatimento de dias de detenção condicionado ao período de trabalho, o que, na prática, libera precocemente inclusive quem cometeu atrocidades como assassinatos. O senador também esteve à frente de projetos que concederam o porte de armas a diversas categorias, como aos agentes socioeducativos e servidores da Funai. Segundo ele, em todos esses casos, o armamento se justifica pelo risco inerente à atuação profissional.

Em outro assunto caro ao PT, o senador defende aumentar o período de internação dos adolescentes que cometeram crimes, passando o prazo máximo de três para cinco anos. A inspiração da proposta está em um caso que presenciou, enquanto delegado, de um jovem de 17 anos que havia matado um homem — “um pai de família” — a pauladas. A justiça puniu o criminoso com apenas um ano de internação. “Isso não é razoável. Mas são assuntos em que a própria esquerda faz questão de ficar inerte ou pecar por omissão. E a consequência é que a esquerda acaba sendo atropelada, e por projetos muito piores”, afirma o senador. Para Contarato, seus pares ideológicos precisam ajustar o discurso de defesa dos direitos humanos para não serem carimbados como “defensores de bandidos”. “Infelizmente, a esquerda pega só um fio dos direitos humanos, que é o da população carcerária. Isso é um grande erro. Nós temos de falar em direitos humanos para as famílias vítimas de abuso sexual, para as mulheres que foram vítimas de violência doméstica, para a família de policiais que foram mortos em conflitos. Esses são os direitos humanos em sua amplitude”, defende.

Continua após a publicidade
PORTE - Armamento: necessidade diante do risco inerente à atuação profissional
PORTE - Armamento: necessidade diante do risco inerente à atuação profissional (Funai/Divulgação)

Embora abrace pautas conservadoras, o senador também acumula divergências com parlamentares de direita que compõem a famosa bancada da bala no Congresso. Ele vem cerrando fileiras contra o que chama de populismo com a agenda de segurança, como as propostas que aumentam penas para crimes como estelionato e furto de cabos de energia. Também é contrário à PEC das Drogas, que deve incendiar o debate nos próximos dias ao contrariar julgamento que está em andamento na Suprema Corte e criminalizar o porte de qualquer quantidade de entorpecentes. Há ainda uma terceira bandeira do parlamentar que não encontra eco no campo conservador. Gay e pai de dois filhos, ele é um dos principais defensores da igualdade de gênero, encampa uma série de projetos direcionados ao público LGBTQIA+ e cobra diariamente da cúpula do Senado o avanço de propostas contra a discriminação. “É um tabu votar temas como segurança, assim como é um tabu votar pautas relativas a orientação sexual. E apoiar as duas causas não é contraditório”, afirma. Em um Congresso cada vez mais polarizado, posturas coerentes e equilibradas, como a do senador, são cada vez mais raras.

Publicado em VEJA de 12 de abril de 2024, edição nº 2888

Publicidade

Matéria exclusiva para assinantes. Faça seu login

Este usuário não possui direito de acesso neste conteúdo. Para mudar de conta, faça seu login

Domine o fato. Confie na fonte.

10 grandes marcas em uma única assinatura digital

MELHOR
OFERTA

Digital Completo
Digital Completo

Acesso ilimitado ao site, edições digitais e acervo de todos os títulos Abril nos apps*

a partir de R$ 2,00/semana*

ou
Impressa + Digital
Impressa + Digital

Receba Veja impressa e tenha acesso ilimitado ao site, edições digitais e acervo de todos os títulos Abril nos apps*

a partir de R$ 39,90/mês

*Acesso ilimitado ao site e edições digitais de todos os títulos Abril, ao acervo completo de Veja e Quatro Rodas e todas as edições dos últimos 7 anos de Claudia, Superinteressante, VC S/A, Você RH e Veja Saúde, incluindo edições especiais e históricas no app.
*Pagamento único anual de R$96, equivalente a R$2 por semana.

PARABÉNS! Você já pode ler essa matéria grátis.
Fechar

Não vá embora sem ler essa matéria!
Assista um anúncio e leia grátis
CLIQUE AQUI.