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Sem blocos, Vila Madalena tem ‘pancadão’ e drogas

Reduto boêmio da cidade, ruas do bairro foram tomadas por 40.000 pessoas nas madrugadas do final de semana mesmo sem os blocos de carnaval

Para tentar impedir as confusões ocorridas durante a Copa do Mundo, quando a região da Vila Madalena tornou-se o principal point dos boêmios da cidade, a prefeitura de São Paulo ampliou a fiscalização de vendedores ambulantes, instalou banheiros químicos, deslocou os blocos mais tradicionais para áreas maiores e montou uma operação especial de trânsito. Mas a mobilização não funcionou: 40.000 a 50.000 pessoas, segundo a Companhia de Engenharia de Tráfego (CET), lotaram as ruas Aspicuelta, Fradique Coutinho, Mourato Coelho e Girassol. Sem as marchinhas e instrumentos musicais, a trilha sonora foi funk e música eletrônica no porta-malas de carros. E um dado preocupante: a reportagem do site de VEJA presenciou a venda e o consumo livre de drogas – “Olha o doce! Olha o doce!”, era ouvido com frequência no meio da multidão em referência ao ácido lisérgico (LSD).

O efetivo da Polícia Militar foi reforçado: uma base de comando foi montada na rua Mourato Coelho com viaturas e guarnições de outras áreas, e uma central de monitoramento da Sociedade Amigos da Vila Madalena (Savima) em um contêiner. A associação colocou à disposição da PM as imagens do circuito de dez câmeras instaladas na região para identificar delitos. O presidente da Savima, Cassio Calazans de Freitas, afirmou que houve pelo menos cinco prisões no bairro – em uma delas, um homem foi detido com um revólver, segundo Calazans. Procurada, a assessoria da Polícia Militar não informou o número de prisões nem apreensões de drogas ou armas – o balanço deve ser divulgado somente após os quatro dias de carnaval.

O horário estabelecido para dispersão – no máximo, até a 1 hora – foi desrespeitado tanto no sábado quanto no domingo. Formando um cordão de isolamento, os policiais caminhavam pelas ruas tentando dispersar a multidão – no domingo, uma forte chuva contribuiu para que a desmobilização fosse mais rápida.

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Blocos fecham ruas em São Paulo e surpreendem CET

Mesmo com a instalação de 900 banheiros químicos pelas ruas de São Paulo – foram 200 no ano passado -, a reportagem flagrou inúmeras pessoas urinando na porta de casas, condomínios e igrejas. O cheiro de urina era forte. A restrição da administração municipal à venda de garrafas de vidro também foi descumprida, inclusive por ambulantes com a credencial da prefeitura à vista.

“O que a gente vê é que não tem bloco nenhum e um mar de gente andando pelas ruas até as 5 horas da manhã. A Vila Madalena não é Salvador. São ruas estreitas, cheias de declive. Era um bairro residencial antes de ser reduto boêmio. Os restaurantes e bares vieram depois. Não tenho problema nenhum com carnaval, mas não teve bloco nesses dias”, disse Calazans, que mora na região há mais de cinquenta anos.

Muitos foliões foram à Vila Madalena atrás de blocos de carnaval e se frustraram. “Nós fomos para a Vila para ver o que ia ter. Mas saímos rápido, porque era aquela galera ‘gigantesca’ na rua sem saber de onde vinha a música. Não tinha nada a ver com carnaval, parecia uma algazarra infernal”, disse o publicitário Pedro Ferreira Santos, de 22 anos, que já havia ido nos blocos Bangalafumenga e Bastardos. “Não pretendo voltar mais, só se tiver certeza que vai ter alguma coisa mesmo”, completou.