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Segurança: o dever de casa para a Olimpíada

Em 2016, polícia e Forças Armadas terão, simultaneamente, deslocamentos de mais de cem delegações pela cidade. Falhas do esquema de proteção ao papa Francisco estão sendo avaliadas pelo Ministério da Justiça

Por Cecília Ritto - 3 ago 2013, 19h23

Entre as muitas memórias deixadas pela visita do papa Francisco ao Rio de Janeiro, uma não tem qualquer relação com a religião ou o legado de esperança do pontífice. Pelo contrário, há uma espécie de trauma e estresse com uma das maiores concentrações de público que a cidade já viveu, com o agravante de uma mudança brusca de programação. Há lições em todos os setores, da organização do trânsito e do transporte à forma como o município deve fiscalizar os projetos apresentados pelos organizadores de eventos privados. Mas a área mais sensível e desafiadora ainda é a segurança – justamente algo no qual a cidade foi reprovada durante a Jornada Mundial da Juventude.

Principal organizadora da Olimpíada, ao lado do Comitê Olímpico Internacional (COI), a prefeitura não é encarregada diretamente da segurança. Cabe à Secretaria Extraordinária de Grandes Eventos, do Ministério da Justiça, elaborar o planejamento para 2016. A secretaria usará a experiência da Copa das Confederações e da Jornada Mundial da Juventude para elaborar rotas, escoltas, proteger instalações, assegurar a tranquilidade da chegada de turistas nos aeroportos e rodovias e cuidar para que nada aconteça às delegações. “É o evento mais complexo”, afirma o diretor da secretaria, José Monteiro.

O cálculo de Monteiro prevê, em um só dia de competição, o deslocamento simultâneo de 105 delegações pela cidade – o que faz da JMJ, para efeitos de planejamento de segurança pelo Ministério da Justiça, um pequeno aperitivo, apenas. Os jogos vão mobilizar delegações de quase 200 países, que, assim como os árbitros, os executivos da Fifa e as autoridades, terão segurança aproximada e escolta da polícia. A instituição também terá de fazer a segurança de 100 instalações, que vão desde o centro de mídia aos hotéis.

O cenário é completamente diferente da Jornada, um evento em que os acontecimentos principais se concentraram em Copacabana e no qual a chegada dos participantes – os peregrinos – se deu majoritariamente em ônibus. O Rio teve uma pequena amostra do que será a Copa do Mundo, com os jogos da Copa das Confederações. Mas na Olimpíada os eventos estarão espalhados por toda a cidade. A maior parte dos torcedores chegará pelos aeroportos.

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Desembarque do papa – Uma das lições da Jornada e da Copa das Confederações para a segurança foi o sistema de escoltas, que chegaram a 700 no total, somados os dois eventos de junho e julho. O papa teve 20 compromissos no Rio de Janeiro – todos implicaram no acionamento de batedores e de segurança muito próxima do pontífice. No primeiro deslocamento de Francisco em solo carioca, a equipe se deparou com um engarrafamento na Avenida Presidente Vargas e com uma chance real de perigo ao pontífice. A cena foi noticiada em diversos jornais estrangeiros e, junto à mudança da vigília e da missa final de Guaratiba para Copacabana, é um dos motivos de crítica à organização e à segurança. A Secretaria de Grandes Eventos está debruçada sobre o caso. A análise não foi concluída, mas, por enquanto, as informações são de que o papa, ao ver a multidão e pedir para o motorista do carro reduzir a velocidade, fez os batedores recuarem para manter o que chamam de ‘cápsula de segurança’. “Por isso, perderam a oportunidade de desobstruir a via”, afirma Monteiro. Depois de reduzir a velocidade, a armadilha estava criada: não era possível que a polícia abrisse espaço em uma via tomada por fiéis, correndo o risco de atropelamento. “O que fica para nós é que, consideradas as 700 escoltas, elas deram certo”, diz Monteiro, para que, apesar de todos os problemas, a JMJ foi um evento que deu certo.

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Na Copa das Confederações, os trajetos das delegações tiveram de ser repensados inúmeras vezes. Para cada deslocamento dos times, tinham sido traçadas três rotas – uma oficial e duas alternativas. Perto do evento, a onda de manifestações fez com que além dos três trajetos, fossem pensados outros dois. Minutos antes de uma delegação deixar o hotel, um helicóptero da polícia ‘varria’ a rota principal. Se estivesse ocupada com manifestação, começava-se a buscar as outras opções. Houve caso de as quatro primeiras estarem ocupadas com protestos e apenas a quinta estar livre. “Usamos rotas alternativas com todas as delegações”, afirma o diretor da secretaria.

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Para a Copa do Mundo, o planejamento da segurança será parecido com o das Confederações, mas com quantidade maior de militares envolvidos. A Copa do Mundo, segundo a secretaria, é seis vezes maior. O número de público, de jogos e de estrangeiros cresce significativamente, mas as áreas de interesse operacional são as mesmas: estádio, zonas hoteleiras e turísticas, portos, aeroportos, acessos à cidade e fronteiras. A diferença fica por conta das áreas de grande circulação de torcedores que se unem para assistir aos jogos por um telão montado pela organização.

Para a Olimpíada, o trabalho será maior, e está sendo pensado desde 2012. A fase de agora ainda é a primeira de três etapas principais. Até o fim do ano, termina a parte estratégica, que define o que será feito de forma geral. Depois, será montado o planejamento tático, com o objetivo de mostrar como será feito. Por último, o operacional, dirá qual força vai atuar e em quais momentos. No cenário ideal, o turista não verá as Forças Armadas nas ruas. O Exército deve ficar aquartelado para situações emergenciais.

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