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Segurança de chefe de gabinete de Beltrame buscava propina dos ‘caveiras’ dentro da favela

Cabo Mieipe era lotado no Bope, mas desde maio trabalhava com Marcelo Montanha, homem de confiança do secretário de segurança do Rio. Ele subia o Juramentinho para receber dinheiro das informações vazadas a traficantes e foi preso ontem após voltar de Miami

As investigações da Subsecretaria de Segurança (SSinte) e do Ministério Público, que desencadearam na prisão de seis policiais que formavam uma quadrilha dentro do Batalhão de Operações Especiais (Bope), revelam que esses integrantes da tropa de elite da Polícia Militar estavam bem próximos da cúpula da Secretaria de Segurança do Rio de Janeiro. Na noite de domingo, o cabo Rodrigo Mileipe Vermelho Reis, que teve a prisão decretada pela Justiça na semana passada, foi o último a se entregar. Desde maio, ele era integrante da equipe que faz a escolta de Marcelo Montanha, chefe de gabinete e braço-direito do secretário José Mariano Beltrame. Mas não era esta a sua única função na vida. Era Mileipe, também, o responsável por arrecadar o dinheiro de propina pago dentro do Morro do Juramentinho, em Vicente de Carvalho, para que as informações de qualquer ação fossem vazadas a criminosos da facção Comando Vermelho.

De acordo com a denúncia dos promotores, o grupo recebia de 2 000 a 10 000 reais semanais de cada uma das 11 favelas dominadas pelo CV. O coordenador do esquema era o sargento Silvestre André da Silva Felizardo, que desde dezembro do ano passado estava lotado no 15ºBPM (Duque de Caxias). Mesmo lotado no Bope, Mileipe – que se identificava aos bandidos como Preto 4 – prestava esse serviço na Secretaria. Um oficial da tropa diz que ‘foi feito um pedido por cima’ para que ele ocupasse a função da escolta do chefe de gabinete. Procurado por VEJA, Marcelo Montanha informou, através de sua assessoria de comunicação, que o cabo preso “faz parte do Grupo de Proteção de Autoridades do Bope (GPA), designado pelo comando da unidade, não tendo nenhum deles sido escolhido” por ele.

Mileipe tinha outra renda extra que, mesmo sendo uma atividade ilegal, ele não fazia questão de esconder. Em uma de suas contas no Facebook, Rodrigo Mileipe Impo (deletada no sábado), o cabo criou uma espécie de Outlet virtual, vendendo qualquer tipo de mercadoria que contrabandeava dos Estados Unidos e oferecia a preços mais caros no Brasil. “Toda hora ele ia lá fora comprar as coisas e revendia aqui”, conta um soldado do Bope. Relógios, bolsas, perfumes, videogames, tênis, smartphones, roupas de todas as marcas. Estava tudo ali na página do policial, que ostentava também fotos de viagens na classe executiva do avião. As ofertas e negociações de preço também eram feitas pela internet.

O cabo foi o último do grupo a ser preso, justamente porque estava numa dessas viagens. Quando a Operação Black Evil (Mal Negro, numa alusão ao uniforme da tropa) foi desencadeada, ele estava em Miami, na Flórida. Outra cidade muito visitada pelo policial-muambeiro era Orlando. Questionado se tinha conhecimento sobre este ramo de atividade de seu segurança, Montanha disse que ‘obviamente, não’. O chefe de gabinete, que mantém uma casa na cidade de Kissemmee, vizinha a Orlando, afirmou não manter qualquer contato com Mileipe fora do trabalho, e que os dois “nunca viajaram juntos para os Estados Unidos ou qualquer outro lugar, visto que não há qualquer tipo de relação pessoal”.

Dos 15 mandados de busca e apreensão expedidos, a Ssinte cumpriu um deles na casa de Rodrigo Mileipe. Lá, foram apreendidos 70 000 reais em espécie. Como o site de Veja mostrou nas mensagens interceptadas pelos investigadores, Preto 4 foi o responsável, por exemplo, por dar o alerta numa operação do Bope do dia 17 de setembro. Sem saber ainda para onde o grupo iria, ele deixou os criminosos de sobreaviso: “O Preto 4 falou que vão sair daqui a pouco, mas ainda não sabre pra onde vão. Geral do CV fica ligado pra não sofrer surpresa desagradável”. Agora, ele se juntou aos outros cinco presos da ação de sexta-feira. Todos estão no Presídio Vieira Ferreira Neto, em Niterói.