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‘Se a barragem tivesse rompido à noite, todos teriam morrido’, diz prefeito de Mariana

Duarte Júnior afirma que a Samarco não avisou a população sobre rompimento – e que moradores de Bento Rodrigues foram salvos pela solidariedade dos vizinhos

Por Carolina Farina - 11 nov 2015, 06h54

“Sem mineração, Mariana acaba. Essa catástrofe é muito maior do que se imagina”.

Quando duas barragens da mineradora Samarco romperam na cidade mineira de Mariana na semana passada, destruindo com uma avalanche de lama diversos distritos da região, o prefeito Duarte Júnior (PPS) estava prestes a completar seu quinto mês no cargo: ele assumiu o posto em 10 de junho, no lugar de Celso Cota (PSDB), cassado depois de ser condenado por improbidade administrativa. Agora, o prefeito de 35 anos tem de administrar uma cidade abalada por aquela que já é considerada a maior tragédia ambiental da história de Minas Gerais – e lidar diariamente com o desespero dos moradores locais. Ao site de VEJA, Duarte Júnior falou sobre o clima de medo que impera em Mariana, sobretudo no distrito de Bento Rodrigues, o mais afetado pela tragédia. “Não vejo a possibilidade de Bento se reerguer”, afirma. Confira a entrevista a seguir:

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Como está o relacionamento com a Samarco? A mineradora está prestando apoio à cidade?

A empresa sempre foi muito bem vista na cidade. Antes da tragédia, os funcionários tinham muito orgulho de trabalhar lá. Agora, fica difícil dimensionar o sentimento da população de Mariana quanto à Samarco. Mas, enquanto Executivo, posso dizer que até agora a empresa tem atendido tudo o que solicitamos: hotéis e casas para os afetados, helicóptero para o resgate. Eles estão pagando alimentação e estadia. Mas, para mim, a empresa nada mais faz do que sua obrigação, já que é responsável por tudo o que aconteceu.

Por que acredita que a Samarco seja culpada pela tragédia?

Eles afirmaram que tinham um plano estratégico de contingência em caso de rompimento das barragens e que esse plano foi aprovado. Mas que tipo de plano não prevê uma sirene ou um botão do pânico para avisar a população de que uma catástrofe ocorreu? Não se pode achar que haverá tempo de avisar a todos por telefone, que vão ligar e dizer que as pessoas têm cinco minutos pra sair de casa. Houve uma falha e é importante que a empresa assuma isso. Ainda vamos ter estudos para entender o porquê do rompimento da barragem, mas houve uma falha de comunicação que custou vidas. Os moradores com quem conversei dizem que tinham medo da barragem romper e já haviam levado essa questão à empresa, mas a Samarco lhes disse que era seguro.

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Esse plano não passou pela prefeitura?

Não. Esse plano foi construído e apresentado ao Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM), do governo federal. Houve uma falha na forma como as coisas aconteceram: a Samarco não telefonou para ninguém, embora diga que sim. E ainda que tenham ligado, o sistema claramente falhou.

O saldo de mortos em Mariana é menor do que o comum em catástrofes ambientais dessa magnitude. A que se deve esse quadro?

Aos heróis de Mariana. Houve pessoas que saíram pelas ruas de Bento resgatando pessoas e avisando os vizinhos. Todos se ajudaram. Um funcionário de uma obra passou com seu caminhão recolhendo moradores. Outra jovem circulou pelo distrito em sua moto avisando a todos e levando pessoas até acabar a gasolina. Eles correram risco de vida para ajudar os demais. A solidariedade salvou as pessoas do distrito, porque não houve aviso da Samarco. De fato, o saldo de mortos é baixo tendo em vista que se trata de um distrito de 600 moradores. A tendência era que aquele povo tivesse sido dizimado. Se a barragem tivesse rompido à noite, teria morrido todo mundo. A solidariedade das pessoas me deixa muito satisfeito. Aliás, tenho dito que são os voluntários, e não a prefeitura, que têm tocado a cidade. Eles é que ficam aqui virando noite, organizando doações.

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Acredita que será possível reconstruir a cidade?

Bem, vejamos o distrito de Bento Rodrigues, que tem uma importância histórica enorme para Mariana – era uma referência, muito bonito, turístico. Como leigo, não consigo ver possibilidade de Bento se reerguer. O que tem de lama lá é impressionante. As pessoas não querem voltar para lá. Elas perderam tudo, perderam entes queridos e sabem que há outra barragem de rejeitos sobre o distrito. Acho muito difícil ser reconstruído. Essa é uma percepção minha, mas ouvi pessoas que experiência em catástrofes e a avaliação é a mesma. Nem sei se a empresa tem condições de remover toda aquela lama. Já em Paracatu, embora tenha perdido 60% de sua infraestrutura, eu vejo maior possibilidade de reconstrução. Mas Bento tem uma importância muito grande e não pode simplesmente acabar. Precisamos estudar o que vai ser feito.

Qual pode ser o efeito futuro dessa tragédia?

Fico preocupado porque agora surgem pessoas dizendo que Mariana não pode mais comportar mineração. O município minera há cinquenta anos e nunca houve diversificação da atividade econômica. Todos os que já tiveram mandato têm culpa nisso, eu inclusive. Se a mineração acabar, minha arrecadação cairá tanto que não poderei manter os serviços básicos. Direta ou indiretamente, 80% da receita da cidade vêm da mineração. Sem mineração, Mariana acaba. Essa catástrofe é muito maior do que se imagina.

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Qual a principal reivindicação das famílias afetadas pela tragédia?

Querem mais informações. Todos reclamam que a informação não chega aos parentes das vítimas, por isso agora todos os dados que forem repassados à imprensa terão antes de ser informados às famílias. Os moradores questionam como vão continuar vivendo, porque têm necessidades básicas e perderam tudo. O Ministério Público solicitou à Samarco que fizesse um repasse mensal para as pessoas afetadas. A empresa disse que, assim que receber o documento, tomará as providências.

De quanto será esse repasse?

Não houve uma definição. O ideal seria que o repasse fosse feito de acordo com a renda prévia de cada morador, para que as pessoas pudessem manter seu padrão de vida.

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Como garantir que haverá punição aos responsáveis?

Tenho dito que estamos trabalhando em tópicos. O primeiro é achar sobreviventes. O principal objetivo é a vida. Mas, depois, tem de haver uma indenização aos familiares. A empresa tem que reconstruir tudo o que foi destruído, todos os distritos. A empresa tem que assumir que falhou – e que essa falha foi grave. A Samarco tem de assumir que errou e que esse erro vitimou pessoas que não poderiam ter sido vitimadas. Mas ainda que se puna a Samarco, não se pode extinguir a mineração.

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