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São Paulo tem seu maior carnaval de rua, mas folia ainda tem a marca do improviso

Paulistanos tentam organizar folia de rua, com centenas de blocos pela cidade, mas falta de organização e até de música são as marcas da festa

Por Da Redação - 3 mar 2014, 18h10

São Paulo nunca esteve tão perto de enterrar de vez a pecha de túmulo do samba. Neste ano, a cidade foi tomada por um número recorde de blocos de rua – 214, o triplo em comparação ao ano passado -, que se concentraram em tradicionais bairros boêmios paulistanos, como Pinheiros e Vila Madalena, e chegaram a regiões até então excluídas do roteiro da folia, como a Mooca, na Zona Leste. Nas ruas, porém, o que se notou foram aglomerações de pessoas disputando espaço com o trânsito, interrompido muito depois do início das concentrações. Em outros casos, os foliões invadiram ruas liberadas para o tráfego, provocando confusão com motoristas. Vias importantes da cidade tiveram o fluxo bloqueado sem aviso prévio para a passagem dos blocos.

É mais do que esperado que o carnaval de rua de São Paulo cresça, mas de forma ordenada. O melhor exemplo foi o que ocorreu há três anos no Rio de Janeiro, que conseguiu estabelecer uma agenda para os blocos, com itinerários e horários de saída e chegada rígidos. Assim, os blocos que começaram de forma tímida e simpática, na Zona Sul do Rio, foram deslocados para áreas mais amplas. O Monobloco e o Bloco da Preta (Gil) são os casos mais conhecidos de agremiações que, justamente por seu sucesso, foram retirados da orla. Ainda assim, continuaram a crescer e acarretaram uma série de transtornos aos moradores e foliões como o xixi pelas ruas, o maior inimigo do carnaval de rua carioca.

Apesar do número significativo, poucos blocos conseguiram reunir multidões nos moldes do carnaval de rua carioca, onde o Cordão da Bola Preta, por exemplo, arrastou 1,3 milhão de pessoas no sábado. O Bloco Esfarrapado, o mais antigo de São Paulo, criado em 1947, saiu na segunda-feira de Carnaval pelas ruas do Bixiga com cerca de 10.000 pessoas, que cantaram marchinhas e o samba-enredo da Vai-Vai, escola do bairro.

O carnaval de rua tem suas vantagens: é possível aproveitar a festa com fantasias caseiras, muito mais baratas do que o custo médio para quem desfila no Sambódromo do Anhembi – o figurino custa cerca de 1.000 reais -, além de não ser obrigatório frequentar ensaios das escolas de samba.

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Também há opções para quem busca um bloco “família”, destinado a crianças, e para o público solteiro, com os encontros em clima de micareta, no clima do tradicional carnaval de Salvador, na Bahia. A diferença é que, na capital baiana, um abadá (camiseta-ingresso) para o percurso dos trios-elétricos chega a custar 1.500 reais.

A folia paulistana também foi marcada por improvisações: em alguns blocos, como o João Capota, no bairro do Sumaré, caixas de som com música eletrônica foram usadas por falta de bandas. Já nos blocos dos “mauricinhos” e “patricinhas”, em regiões mais ricas da cidade, ambulantes vendiam cerveja com máquinas de cartões de débito ou crédito.

Rio – Apesar do empenho da prefeitura do Rio de Janeiro para organizar a festa, os “clandestinos” continuam encontrando brechas para começar e terminar sua apresentação onde bem entendem. Não tem graça.

A ordem na folia, ao contrário do que desejam os foliões “radicais”, serve não para limitá-la, mas para promover algum conforto. Sanitários químicos, ambulâncias, agentes de controle do trânsito e até médicos nas unidades de saúde de referência são redistribuídos de acordo com a agenda oficial. A criação de multa – são 157 reais para quem é flagrado urinando em áreas públicas – ajudou a desencorajar os porcalhões, mas o odor das ruas por onde passam os blocos ainda denuncia o desrespeito.

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As dimensões da festa desafiam a capacidade dos organizadores de eventos. Como manter, em uma área, sanitários químicos para um milhão de pessoas – caso do Cordão da Bola Preta – e, no dia seguinte, deslocar ou criar estrutura semelhante na orla da Zona Sul? Quem desempata a questão é a educação do público. Algo que não se controla, é verdade, mas que tende a ter colaboração proporcional com o nível de organização da festa. Ou, trocando em miúdos, a chance de alguém urinar na rua, jogar lixo ou causar qualquer tumulto é reduzida se há banheiros sinalizados à vista, se o policiamento está presente e se o trânsito foi desviado de forma satisfatória.

Segregação – Há uma diferença substancial nos blocos de rua que agitam o Rio e aquele famoso Carnaval de rua de Salvador. A festança montada pelos baianos segrega o público: há os que pagam até alguns milhares de reais nos abadás dos trios elétricos famosos e os que vão à margem da organização. A luta dos blocos no Rio é para evitar esse tipo de segregação, o que, naturalmente, quebraria o espírito da festa. Sem abadá, sem corda para separar dois tipos de público e sem a fileira de seguranças, a massa embalada por todos os ritmos se acomoda como pode pelas ruas da cidade.

E, mais uma vez, é a ordem pública quem pode manter algum nível de conforto. Os blocos estão por toda a cidade, mas algumas áreas são mais castigadas: Botafogo, Ipanema, Laranjeiras e a região da Lapa têm uma concentração de blocos que beira as dezenas em cada dia de folia. Quando um bloco de milhares de pessoas se desloca, quem não está na folia não se movimenta. Na manhã desta segunda-feira, 3, um dos grandes blocos fez seu percurso em Laranjeiras e em Santa Teresa: o Volta Alice – batizado em homenagem à Rua Alice, onde fica a Casa Rosa, antigo prostíbulo hoje transformado em casa noturna – arrastou cerca de 10.000 pessoas a partir das 9 horas, subindo as ladeiras em direção a Santa Teresa. O desfile paralisa todos os anos parte da Rua das Laranjeiras. Com divulgação prévia do trajeto e dos horários, o transtorno é temporário, e assimilado por quem mora na região. Um bloco ‘clandestino’ certamente tornaria a festa um problema de grandes proporções.

A estimativa do governo do Estado do Rio é de que, neste ano, o Carnaval – de rua, da Sapucaí e dos bailes – movimente ao todo cerca de 950 milhões de dólares, ou 2,2 bilhões de reais. A maior fatia, cerca de 750 milhões de dólares, fica com o turismo, a indústria hoteleira e setores ligados à hospedagem e à visitação. Os demais setores beneficiados são as escolas de samba – e toda a cadeia de serviços necessária aos desfiles -, aos eventos paralelos e à decoração de rua.

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De acordo com a Secretaria Estadual de Desenvolvimento Econômico, o montante é 10% superior ao do ano passado. O crescimento do volume de negócios tem sido constante, com variação positiva entre 5% e 7% a cada ano. A festa, como se vê, deixou de ser (apenas) dos foliões ou dos sambistas.

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