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‘Rolezinho’ ganha tom político e vira passeata

Entidade a favor dos direitos dos negros e o Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST) organizam 'protestos' em shopping centers

Por Mariana Zylberkan 15 jan 2014, 22h43

Organizados por jovens da periferia de São Paulo, os chamados “rolezinhos” em shoppings centers seguiam um modelo de convocação padrão em páginas do Facebook: “Não é encontro de fãs, porque aqui ninguém é famoso. É mesmo para dar uma curtida, tumultuar, tirar várias fotos e dar uns beijos”. Desde o início desta semana, porém, o tom de brincadeira abriu espaço para a manipulação de movimentos de esquerda, que encontraram na confusão causada pela invasão de jovens nos corredores de shoppings uma brecha para impor um deturpado discurso político. Com o poder de disseminação das redes sociais, os rolezinhos se espalharam pelo país. E até entidades de defesa dos direitos dos negros e o Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST) agora querem convocar seus próprios rolezinhos. O primeiro deles está marcado para esta quinta-feira. Na página do MTST no Facebook, há um chamado para o “Rolezão contra o Apartheid” nos shoppings Jardim Sul e Campo Limpo, em São Paulo. No próximo sábado, será a vez do JK Iguatemi receber o “rolé contra o racismo”.

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A modalidade do “rolezinho engajado” surgiu na esteira de uma liminar obtida na Justiça pelo Shopping JK Iguatemi, que barrou a entrada de menores desacompanhados no último fim de semana. Simultaneamente, policiais combateram com bombas de efeito moral e disparos de balas de borracha o “rolezinho” organizado no Shopping Metrô Itaquera, na periferia paulistana. Os ativistas acusam os centros comerciais de discriminação ao selecionar quem podia entrar ou não no local, um espaço de livre trânsito, mas povoado por estabelecimentos privados. Ativistas usam o documentário Hiato como exemplo de conduta. No vídeo de 2000, um grupo de sem-teto foi a um shopping na Zona Sul do Rio de Janeiro e provocou mal-estar de lojistas e consumidores ao provar roupas e comer sanduíches de mortadela na praça de alimentação.

Os “rolezinhos” são frequentados por jovens da periferia adeptos do chamado funk ostentação. São fãs do MC Daleste, assassinado em julho do ano passado durante um show na cidade de Campinas (SP). Trechos de suas músicas são reproduzidos nas redes sociais por jovens, como o aspirante a cantor de funk Jefferson Luis, de 20 anos. Foi ele quem convocou o “rolezinho” no shopping Internacional de Guarulhos, em dezembro, para “protestar contra a falta de opções de lazer na periferia”. Na ocasião, a aglomeração de funkeiros coincidiu com a aprovação na Câmara Municipal de São Paulo do projeto de lei que proíbe a organização de bailes funk a céu aberto nas ruas da cidade. O prefeito Fernando Haddad (PT) vetou o texto no último dia 7, conforme publicação no Diário Oficial.

Assim como aconteceu com os protestos de junho, são muitas as tentativas de explicar as motivações e teorias sociais por trás do movimento de jovens da periferia paulistana – agora do país todo. O presidente da Associação Brasileira de Shoppings Centers (Abrasce), Luiz Fernando Veiga, juntou os dois fenômenos de massa em uma mesma frase para tentar chegar a alguma conclusão, evocando os “Black blocs” que se infiltraram nos protestos pela redução das tarifas de transporte público em 2013: “As pessoas viram os protestos terminar em quebra-quebra e acham que vai acontecer a mesma coisa quando veem um monte de jovens correndo pelos corredores do shopping. Cria-se um clima de pânico”.

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O setor se esforça para afastar qualquer rusga de preocupação com os “rolezinhos”. De acordo com Veiga, 30% dos custos de um shopping é voltado à segurança. Tanto investimento é feito para consolidar a imagem de segurança nos centros comerciais. “É como uma tempestade de verão, vai passar”, diz o presidente da Abrasce, após se reunir em caráter emergencial com representantes de 55 shoppings do Estado de São Paulo, nesta quarta-feira.

Em reunião com o comando da Policia Militar nesta quarta-feira, o secretário da Segurança Pública, Fernando Grella Vieira, chamou os “rolezinhos” de fenômeno cultural que não deve ser tratado como caso de polícia. O governador Geraldo Alckmin (PSDB) declarou no início da semana que irá apurar acusações de exageros da PM ao conter o “rolezinho” no shopping Metrô Itaquera com bombas de efeito moral e tiros de bala de borracha.

Apesar dos discursos, a aglomeração de pessoas é uma preocupação real. Nos cinco encontros em shoppings realizados desde dezembro, foram registrados oito boletins de ocorrência e quatro inquéritos policiais foram abertos. Dois deles são investigados pelo 65° DP (Artur Alvim). O mais recente inclui imagens captadas pelas câmeras de segurança do Shopping Metrô Itaquera, que mostra uma correria seguida por um ataque a dois irmãos, que tiveram a carteira, o celular e uma corrente de ouro roubados. A cena aconteceu no último fim de semana, quando um stand de produtos eletrônicos na estação de metrô foi saqueado por um grupo que fugia dos seguranças do shopping. “Os ‘rolezinhos’ só viram caso de polícia quando infrações são cometidas. Mas, é inegável que o registro dessas infrações aumenta quando há aglomeração de pessoas”, diz o delegado titular da 65º DP, Luiz Antônio da Cruz.

Boatos – Mesmo rápida, a confusão provocada pelo “rolezinho” deixa um rastro de insegurança por onde passa, assim como ocorre em outros tipos de multidões – estádios de futebol são um bom exemplo.

São muitas as informações desencontradas que circulam entre lojistas e frequentadores do Shopping Metrô Itaquera. Uma funcionária afirma que a loja Boticário foi destruída no último fim de semana e que jovens chegaram a fumar maconha nos corredores. Vendedoras da loja desmentiram a informação e disseram que, assim como todos os lojistas, abaixam as portas quando percebem princípio de tumulto.

“Na primeira vez, tinha jovens com bebidas subindo nas mesas. Quando percebo um movimento diferente, eu falo para famílias com crianças: ‘Vai embora porque vai piorar'”, diz Gabrielle Leandro, de 18 anos, vendedora da loja Twister Games.

Os frequentadores se dividem entre opiniões que defendem ou rejeitam barrar jovens na entrada dos shoppings. “A juventude deveria ser mais criativa, sem bagunça. Se eles cantassem músicas ou declamassem poesias eu aplaudiria, mas não devem ser barrados”, diz o aposentado Evaldo Pereira dos Santos, 67 anos.

Desde o começo do ano, ao menos seis shoppings centers entraram com pedido de liminares para barrar a entrada de possíveis adeptos dos “rolezinhos”. O Shopping Parque Dom Pedro, em Campinas, teve o pedido negado, e o Shopping Campo Limpo, parcialmente aceito. O próprio juiz que concedeu o direito ao Shopping JK Iguatemi refletiu sobre a saia-justa jurídica em sua decisão. “O Estado não pode garantir o direito de manifestações e olvidar-se do direito de propriedade, do livre exercício da profissão e da segurança pública”, escreveu o juiz Alberto Gibin Villela da 14.ª Vara Cível da Comarca de São Paulo.

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