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Rio vai enfrentar chuvas com centro de prevenção de desastres

Estrutura semelhante à do governo federal vai cruzar informações meteorológicas para alertar moradores de áreas de risco quando houver risco de deslizamento ou inundação

Por Cecília Ritto - 11 nov 2012, 12h45

Até 2010, quando ocorreu a tragédia do Morro do Bumba, a Defesa Civil do Rio de Janeiro de Janeiro atuava administrando desastres. O episódio, seguido menos de um ano depois pela tragédia da serra, alertou o poder público para o óbvio: para proteger a população, é importante fazer a gestão do risco, em vez de contar corpos

Depois das quase mil mortes na região serrana, na enxurrada de 2011, e de um temporal que deixou cariocas ilhados em abril de 2010, quando também desmoronou o Morro do Bumba, em Niterói, o Rio de Janeiro enfrentará o próximo verão com uma estrutura que pretende minimizar os impactos das chuvas. O aprendizado traumático leva o estado a ser o primeiro a ter um centro de monitoramento e alerta de desastres semelhante aos dois em funcionamento operados pelo governo federal. Idealizador do projeto do Rio, o engenheiro Rui Sedor é o mesmo que concebeu os sistemas da União. A lógica da estrutura fluminense é a de permitir que a Defesa Civil tenha rápida comunicação com agentes espalhados por todas as 92 cidades. Na iminência de chuvas, inundações, incêndio ou problemas nucleares – a usina de Angra fica no litoral sul do estado – o centro passará a informação para uma de suas 12 regionais, que atuam em conjunto com agentes comunitários de defesa civil.

Para o verão deste ano, o novo sistema funcionará parcialmente. Mesmo assim, o conceito de integração de profissionais com diferentes especialidades, com comunicação rápida e simples, já deve representar um ganho para o estado. A equipe que vai trabalhar no centro terá 21 pessoas contratadas entre meteorologistas, hidrólogos, técnicos em meteorologia, geotécnicos e especialistas em desastres, além dos oficiais do corpo de bombeiros. O funcionamento será 24h, em um esquema semelhante ao do Centro de Operações da Prefeitura do Rio.

De acordo com Rui Sedor, o sistema federal consegue prevê chuvas fortes com assertividade e antecedência de oito a quatro horas. Parece pouco. Mas, se comparado à previsão de fenômenos que podem ser ainda mais impactantes, é um prazo suficiente para remoção de moradores de áreas perigosas. Em casos de terremotos, os sistemas detectam com uma antecedência de dois minutos. “Por isso, países como Japão e Chile ensinam a população a reagir desde criança. Há treinamentos nas escolas. E, a qualquer terremoto, no caso do Chile, as crianças costumam se abrigar sob uma mesa de carvalho. Desde a pré-escola elas são treinadas”, compara Sedor. “O centro no Rio começará a organizar a ‘orquestra’. Haverá um comandante e a reação das pessoas será de forma padronizada. Imagine se, em uma cidade com a iminência de um furacão, as pessoas do sul pegam o carro para ir para o norte, e as do norte, para o sul?”, diz Sedor, citando um exemplo do que pode ocorrer quando não há deslocamento de pessoas de forma coordenada.

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A partir das informações que serão recebidas e processadas no centro da Praça da Bandeira, o trabalho da Defesa Civil continuará nos locais de risco. Para dezembro deste ano, é prometida a instalação do projeto piloto das Unidades de Proteção Comunitária, as UPCs. Cada unidade é um contêiner, colocado em cada uma das 42 encostas da região serrana em que foi detectado risco. Em cada um deles, haverá até quatro agentes comunitários contratados, com salário de cerca de 750 reais. O objetivo do projeto é dar capilaridade às ações de defesa civil. “Por mais que haja boa vontade dos líderes locais, se a pessoa encarregada não receber salário não terá condição de dedicar 100% de sua disponibilidade a esta função”, explicou o secretário de Defesa Civil do Rio de Janeiro e também comandante do Corpo de Bombeiros, coronel Sérgio Simões. Atualmente, a Defesa Civil trabalha com voluntários nas áreas onde é identificado risco. Eles recebem mensagens de texto sobre possíveis problemas meteorológicos.

LEIA MAIS: A tragédia das chuvas na Região Serrana

Sirenes – Do novo centro, os bombeiros poderão avisar aos agentes para acionar as sirenes. A partir do alerta, moradores são avisados para deixar as casas. Como são pessoas que conhecem a vizinhança, sabem, por exemplo, onde há pessoas portadoras de deficiência, conhecem os caminhos mais seguros e os pontos de apoio. “Com a UPC, estaremos dentro das áreas de risco”, afirma o coronel Luis Guilherme dos Santos, superintendente operacional dos bombeiros do Rio.

Luis Guilherme dos Santos, superintendente operacional dos bombeiros do Rio
Luis Guilherme dos Santos, superintendente operacional dos bombeiros do Rio VEJA

A expectativa é de que, depois do projeto piloto, as UPCs se estendam para 400 pontos onde há algum risco de deslizamento no Rio. As UPCs são o estágio final de uma estrutura que começará no novo centro, que tentará antecipar o desastre. Quando estiver completo, o sistema, ao receber a informação de que uma tempestade se aproxima, poderá cruzar a estimativa de volume chuva esperado com impactos causados em áreas específicas. As informações já estão à disposição, mas ainda não foi feito o cruzamento.

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As regionais da Defesa Civil e as Unidades de Proteção Comunitária terão acesso à rede central e atuarão em conjunto para minimizar os impactos dos desastres. “A nossa estratégia é pulverizar a informação para chegar às pessoas que residem em locais de encosta ou beira de rio”, disse Santos.

Até 2010, quando ocorreu a tragédia do Morro do Bumba, a Defesa Civil do Rio de Janeiro de Janeiro atuava administrando desastres. O episódio, seguido menos de um ano depois pela tragédia da serra, alertou o poder público para o óbvio: para proteger a população, é importante fazer a gestão do risco, em vez de contar corpos.

Em grande parte do estado – e do Brasil – ainda faltam quadros nas defesas civis municipais, e é difícil preparar pessoal qualificado em intervalos curtos. O Serviço Geológico do Estado do Rio (DRM-RJ) mapeou 30 municípios e, ainda este ano, entregará o mapa de outros 36. No entanto, muitas prefeituras não têm técnicos para dar o pontapé no trabalho de contenção de encosta, retirada de pessoas de áreas de risco, reassentamento de famílias. “A transformação de nossos mapas em planos eficientes ainda é algo complexo”, explicou Claudio Amaral, do DRM.

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