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Reservatório que abastece São Paulo atinge pior nível na década

Em uma das represas que faz parte do sistema que abastece a capital e outros dez municípios, a água está 18 metros abaixo de sua capacidade

Por Camila Almeida - 13 fev 2014, 19h19

A pancada de chuva que caiu sobre a Grande São Paulo nesta quinta-feira não bastou para reverter a situação crítica do Sistema Cantareira, principal fonte de abastecimento da região metropolitana. Devido a uma série de fatores climáticos, como temperaturas elevadas e escassez histórica de chuvas, o sistema registra o menor nível dos últimos dez anos. Em janeiro de 2011, o nível de água armazenada era de 94,3%. Caiu para 74,8% em 2012, 52,3% em 2013 e, agora, 18,8%.

O reservatório da represa Jaguari, que integra o Sistema Cantareira, fica 844 metros acima do nível do mar quando está cheio. Nesta quinta-feira, o pouco de água que ainda resta marcava 825,87 – 18 metros abaixo da capacidade total da represa, o que equivale a um edifício de seis andares. No trecho mais crítico, a falta de chuvas fez surgir uma praia de dois quilômetros, porque a água não alcança mais a margem habitual. A diferença é que, em vez de areia, há um solo rachado e quebradiço. E a garoa que caiu nesta quinta sobre a região da represa, perto da divisa entre São Paulo e Minas Gerais, não é o bastante para alterar o cenário.

Numa das margens do reservatório, funcionários de uma empresa terceirizada capinavam nesta quinta o mato em uma área onde nunca haviam trabalhado. A ladeira cheia de pedras pela qual se aventuravam com o cortador de grama sempre esteve submersa. “Antes, a gente só capinava a margem, para não contaminar a água. Agora, tem toda essa área exposta para cuidar. Todo este mato aqui não existia, ficava debaixo d’água”, mostra o funcionário João Batista.

Pelo chão, há dezenas de conchas ressecadas e sem cor. Também há pequenos peixes mortos, fritando ao sol. Cada vez que o nível da água desce, novas réguas de medição são colocadas para que seja possível avaliar o quanto de água ainda resta no reservatório.

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Nunca se viu uma seca tão drástica desde que o sistema foi montado, em 1930. O recorde do mês de fevereiro na história da medição do Sistema Cantareira foi de 202,6 mm de chuva. Em fevereiro deste ano, a pluviometria acumulada é de apenas 2,1 mm.

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“Eu nunca vi este lugar assim” – De acordo com um dos agentes operacionais da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo, a Sabesp, que trabalha na reserva Jaguari há dez anos, a situação vivida hoje não é sequer comparável à seca de 2004, também severa. Este ano, o funcionário passou a caminhar por áreas que sequer conhecia, como a área de abertura das comportas, que hoje está completamente seca.

No topo de um morro mora a família de Nestor Algarve, 64 anos, ex-funcionário da Sabesp. Ele mora na região de Rio Acima, na cidade de Vargem, há 17 anos. Do quintal, tem vista para o reservatório de Jaguari, mas, lá de cima, o que agora se destaca na paisagem é a terra vermelha exposta ao redor. “Eu nunca vi este lugar assim antes”, lamenta. Assim que se mudou, costumava pescar tilápias, bagres e dourados na represa. “Os pescadores têm reclamado que só dá para pegar lambari. Tem muitos ainda, mas são todos pequenos”, explica.

Rejeitando a ideia de racionamento de água, o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), receberá ainda nesta quinta-feira um estudo da Sabesp que avalia a possibilidade de utilizar 400 milhões de metros cúbicos de água do Sistema Cantareira que não são utilizados normalmente. “Vamos ver quando custa a sucção, bombeamento, bombas, equipamentos e a viabilidade”, afirmou o governador.

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Uma tentativa de amenizar os danos da estiagem histórica são obras de emergência, como a formação de uma Parceria Público-Privada (PPP) para criar um novo sistema de água, do rio São Lourenço. “Em quatro anos, o setor privado nos aportará 5 metros cúbicos por segundo de água tratada em São Paulo do sistema do São Lourenço”, afirmou Alckmin. Segundo o governador, essa é uma das medidas que trarão segurança de abastecimento para região metropolitana.

A água que abastece São Paulo

O Sistema Cantareira, formado pelas represas Jaguari, Cachoeira, Atibainha e Paiva Castro, tem capacidade total de um trilhão de litros e abastece 8,8 milhões de pessoas na capital e outros dez municípios em todo o Estado.

Atualização: 12/2/2014

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