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Região ibero-americana recupera papel do Estado como resposta à crise

Assunção, 29 out (EFE).- Os líderes ibero-americanos encerraram neste sábado em Assunção sua 21ª Cúpula após um debate sobre o papel do Estado no contexto de crise, no qual o equatoriano Rafael Correa foi a nota destoante ao sair do plenário na hora da palavra do Banco Mundial (BM).

Correa recusou escutar a exposição da vice-presidente para a América Latina do BM, Pamela Cox, a quem disse que deveria começar pedindo ‘desculpas’ pelo dano que o neoliberalismo imposto pelo organismo fez à América Latina e ao planeta.

Só o presidente da Bolívia, Evo Morales, uniu-se ao discurso de Correa e pediu ao BM para ressarcir a América Latina, mas o anfitrião da cúpula, o paraguaio Fernando Lugo, preferiu na entrevista coletiva final louvar a contribuição que os organismos internacionais fornecem a estas cúpulas.

‘Não há organismos perfeitos nem processos quimicamente puros’, disse, para acrescentar que ‘a dissidência enriquece a discussão’ e agradecer as contribuições de instituições como Cepal, CAF e BID, porque ‘são ingredientes que podem ajudar na busca de soluções’.

Na primeira sessão plenária da cúpula os discursos se centraram em advertências sobre os perigos que a crise internacional pode trazer para a América Latina, apesar de a região ter respondido até agora de maneira bem-sucedida ao que o presidente peruano, Ollanta Humala, chamou de ‘tempestade do norte’.

Seu colega mexicano, Felipe Calderón, alertou que o período de ‘vacas gordas’ que hoje desfruta a América Latina pode ‘terminar subitamente’ quando os preços das matérias-primas que exporta para a Ásia caírem, exacerbados pela especulação financeira.

Outros, como o panamenho Ricardo Martinelli, propuseram diretamente que a região emita uma mensagem ‘alta e clara’ contra a ‘especulação desmesurada’, ao considerar que ela danifica a economia latino-americana.

Na segunda parte da sessão, após um almoço e a foto oficial, discursaram os vice-presidentes e chanceleres de uma dezena de países em representação dos chefes de Estado que não puderam participar e abordaram tanto a crise como assuntos internos.

O rei Juan Carlos da Espanha foi o encarregado de pronunciar o discurso de encerramento com um convite à cúpula do próximo ano, que será realizada em Cádiz, por causa do bicentenário da Constituição de 1812 que, segundo lembrou o presidente do Governo, José Luis Rodríguez Zapatero, teve vida curta por causa da resposta das ‘forças reacionárias’.

‘Para muitas de nossas nações foi sem dúvida um momento histórico. A Constituição de 1812, que transformava o súdito em cidadão, não foi só a primeira promulgada na Espanha, mas também uma das mais avançadas de sua época’, destacou o rei.

Na entrevista coletiva de encerramento da cúpula, Zapatero definiu o debate em Assunção como ‘um dos mais ricos’ dos últimos tempos e destacou que a circunstância de crise serviu de incentivo.

Lugo, que compareceu à entrevista coletiva com o presidente do Governo espanhol e com o chefe de Estado panamenho, Ricardo Martinelli, que será o anfitrião da cúpula de 2013, assinalou que em Assunção se abordou a necessidade de ‘reconstruir as instituições públicas’ para enfrentar os desafios que um desenvolvimento não alcançado impõe.

‘Reconhecemos que é necessário abrigar Estados fortalecidos e comprometidos com cada homem e com cada mulher ibero-americanos e que os problemas e necessidades de nossos povos já não estão a cargo da lógica do mercado, mas constituem a razão de ser de nossas estruturas’, disse o anfitrião.

Ao comentar os resultados da Cúpula, o ministro da Informação do Paraguai, Augusto dos Santos, disse à Agência Efe que a região ibero-americana mandou às nações industrializadas a mensagem de ‘que não compartilhem apenas as consequências da crise, mas também o debate prévio à definição das grandes estratégias econômicas’. EFE