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Prisão de Nem é oportunidade para polícia do Rio depurar seus quadros

Reportagem de VEJA desta semana mostra como o traficante Nem comandou por seis anos a favela da Rocinha, um dos mais lucrativos enclaves do crime no Rio, graças à proteção de uma rede de policiais corruptos — que ele agora pode entregar

Por Leslie Leitão 12 nov 2011, 08h03

Três pilares sustentaram o reinado de seis anos de Antônio Francisco Bonfim Lopes, o Nem, 34 anos, na favela da Rocinha: a corrupção policial, o terror e o assistencialismo barato. O primeiro pilar ruiu na semana passada, quando um grupo de policiais militares se negou a aceitar a oferta de suborno feita por três homens que transportavam o traficante escondido no porta-malas de um Toyota. Sem alternativa, Nem surgiu com as mãos para o alto e uma camisa dois números maior do que ele – na correria da fuga, o encarregado de comprar “roupas sociais” para o chefe havia errado na escolha do tamanho. Estava capturado o marginal que comandou por anos o maior entreposto de drogas da cidade. Com 200 000 habitantes, a favela da Rocinha, encravada na Zona Sul carioca, foi transformada em uma fortaleza do crime. Sob a guarda de 400 homens munidos de granadas, fuzis e até metralhadoras antiaéreas, ela produzia, em suas próprias refinarias, 5 toneladas de cocaína por ano – o suficiente para abastecer cinquenta favelas.

Os amigos do chefe - Os jogadores Adriano (à esq.) e Vágner Love: presentes às festas patrocinadas por Nem
Os amigos do chefe – Os jogadores Adriano (à esq.) e Vágner Love: presentes às festas patrocinadas por Nem VEJA

Enquanto zombou dos cidadãos de bem do Rio, o traficante Nem viveu uma vida de luxos e exerceu poderes de tirano. Passava a maior parte do tempo em sua casa, no alto do morro. Lá, distraía-se em uma academia de ginástica particular, promovia churrascos à beira da piscina e recebia artistas e jogadores de futebol, como Vágner Love e Adriano (o Imperador chegou a pernoitar ali ao menos uma vez). Mesmo com a cabeça a prêmio, o traficante não costumava se ater aos limites do seu território. Foi visto divertindo-se numa boate da moda e passeando em um shopping vizinho à favela. O tamanho da sua confiança era proporcional ao preço que pagava por ela. Calcula-se que sua quadrilha faturasse 60 milhões de reais por ano com a venda de armas e drogas, mais cooperativas de vans, mototáxis e a extorsão de comerciantes do morro. Metade disso, declarou o traficante na delegacia, ia para o pagamento de policiais corruptos.

Fiadores da sua liberdade, eles tratavam de informar o traficante sobre as operações montadas para sua captura. Em pelo menos vinte delas, houve vazamento de informações, segundo o setor de inteligência da Polícia Civil. Em todas essas ocasiões, Nem e sua gangue infiltraram-se matagal adentro até os agentes deixarem o morro, de mãos vazias. Desde 2007, doze policiais foram presos por envolvimento com a quadrilha. Quatro deles, da Delegacia de Combate às Drogas, recebiam “mesadas” de 15 000 reais para fazer vista grossa à bandidagem. Na semana passada, a PF flagrou o próprio inspetor que liderava as investigações sobre o bando de Nem, Carlos Daniel Dias, auxiliando os comparsas do traficante em uma tentativa de fuga. Foi preso. Mais vinte nomes seguem em uma lista de suspeitos, incluindo agentes do Batalhão de Operações Especiais (Bope).

Luxo na favela - A Rocinha, o maior entreposto de drogas do Rio. Em destaque, a casa de Nem: academia de ginástica, piscina e hidromassagem
Luxo na favela – A Rocinha, o maior entreposto de drogas do Rio. Em destaque, a casa de Nem: academia de ginástica, piscina e hidromassagem VEJA

Os bandidos de farda não só faziam a segurança do chefão da Rocinha como davam ao seu bando treinamento de guerrilha, igual ao que receberam na Academia. A intimidade com os marginais era tanta que, na favela, eles tinham direito a regalias como o “camarote da polícia”, um “espaço vip” localizado na quadra em que Nem promovia festanças regadas a uísque Blue Label. “Nenhum bandido da cidade conseguiu cooptar tantos homens da corporação para seu esquema”, afirma um integrante da alta cúpula da Polícia Civil.

Os métodos que o traficante utilizava para comprar o silêncio dos moradores da Rocinha não se limitavam à distribuição de cestas básicas, patrocínio de viagens para o Nordeste e tratamentos de saúde. Moradores relatam que ele costumava surrar “desafetos” em público, para que servissem como exemplo, e forçar mulheres “desobedientes” a raspar a cabeça. Matava suas vítimas com requintes de crueldade. Uma delas foi esquartejada. Certa vez, o bandido pôs no alto-falante da favela uma gravação em que um morador entregava informações de sua quadrilha à polícia. Em seguida, o homem apareceu morto. Não é de estranhar, portanto, que, quando, três anos atrás, Nem avisou que não admitia a derrota do seu candidato a vereador, poucos se atreveram a ignorar a orientação.

Ao saber que a ocupação de seu território pela polícia era iminente, Nem passou a dar demonstrações de poder. Na semana passada, seus homens circulavam armados, e até uma bazuca foi exibida no meio da rua. Mas o esquema começou a ruir quando uma equipe da Polícia Federal flagrou cinco agentes à paisana fazendo a escolta de integrantes do bando que tentavam fugir da Rocinha levando fuzis, pistolas e granadas. Os policiais foram presos e a notícia acendeu o alerta vermelho para Nem. Há seis meses, ele atraía emissários de ONGs e da própria polícia para conversas em seu bunker, sempre acenando com a possibilidade de uma rendição. Na quarta-feira, ficou claro que tudo não passava de teatro.

Politicamente, a prisão do traficante marca um tento para o governador Sérgio Cabral – que, ninguém duvida, saberá explorar a notícia até a última linha. Para os cidadãos de bem do Rio, ela sinaliza a esperança de que, se não dá para acabar com o tráfico de uma só investida, é possível, sim, romper artéria por artéria até exauri-lo por completo. Diz Pedro Medina, à frente da Delegacia de Combate às Drogas: “O enfraquecimento da Rocinha rompe uma veia estratégica para a sobrevivência desse grupo criminoso”.

O reinado de Nem veio abaixo quando um de seus pilares ruiu. E, para que isso acontecesse, bastou que um grupo de policiais se negasse a acobertá-lo mais uma vez. A prisão de Nem representa, para a polícia do Rio, uma chance de ouro para depurar seus quadros – dado que o traficante é um compêndio vivo do que há de pior na instituição. Sua declaração, feita logo após a captura, de que metade do faturamento de sua quadrilha ia para policiais corruptos soou como uma tentativa desesperada de obter um seguro de vida. A segurança do traficante agora está nas mãos do estado – e tudo indica que preservá-la será um desafio.

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