Primeira mulher à frente da Fiocruz, Nísia Trindade relata misoginia em livro
Autora fala das tentativas de silenciamento e resistência à sua liderança
Entre os bastidores da pandemia de covid-19, das negociações para viabilizar a produção da vacina de Oxford/AstraZeneca no Brasil e da reconstrução do Ministério da Saúde, um dos capítulos mais pessoais de Ainda há tempo: a pandemia de covid-19 e a transformação do futuro, revela os obstáculos enfrentados por Nísia Trindade por ser mulher em espaços historicamente ocupados por homens.
Primeira mulher a presidir a Fiocruz e a comandar o Ministério da Saúde, Nísia dedica um capítulo inteiro à reflexão sobre as barreiras impostas às mulheres na vida pública. Na obra, afirma que sua trajetória expõe “as estruturas históricas de poder”, “os limites impostos às mulheres” e “as formas persistentes de dominação”. Também compara esse processo ao “silenciamento histórico” feminino e relata episódios de preconceito e resistência vividos ao longo de sua carreira.
A socióloga e sanitarista relembra, por exemplo, que sua nomeação para a presidência da Fiocruz, em 2017, foi alvo de uma tentativa de reversão dentro do governo federal, mesmo após vencer a eleição interna com cerca de 60% dos votos. A mobilização de cientistas, sanitaristas e lideranças políticas fez com que a decisão fosse revertida. Já sua recondução ao cargo, em 2021, ocorreu em meio às pressões do governo Bolsonaro.
Ao longo do livro, Nísia também relata situações recorrentes de deslegitimação de sua autoridade, como ocasiões em que era interrompida por colegas homens durante reuniões ou quando seu vice era convidado a se manifestar em seu lugar.
Pesquisadora emérita da Fiocruz e membro titular da Academia Brasileira de Ciências, ela afirma à coluna GENTE que decidiu registrar essas experiências para romper o silêncio sobre aquele período.
“Procurei, acima de tudo, ser uma narradora sincera. O que compartilho constitui um mosaico de experiências, análises e testemunhos organizados em duas partes. Este livro é fruto da decisão de dizer aquilo que não pude expressar plenamente durante aqueles três anos que pareceram décadas. O silêncio é o pior adversário dos traumas, sobretudo quando eles são coletivos”.
Nísia lança Ainda há tempo na segunda-feira, 13, às 19h, na Livraria da Travessa, em Ipanema, no Rio. Depois, segue com a agenda de lançamentos pelo estado, incluindo Niterói, no dia 29, durante a reunião anual da SBPC na UFF e também na Livraria da Travessa da cidade.
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