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Presa por estupro e morte de menino, Suzy tentou reduzir pena duas vezes

Pivô de polêmica após abraço de Drauzio Varella, trans não pode mais recorrer; médico e Globo pediram desculpas à família da vítima

Por João Batista Jr., Roberta Paduan Atualizado em 10 mar 2020, 21h49 - Publicado em 10 mar 2020, 20h07

A defesa da trans Suzy Oliveira, que virou alvo de intensa polêmica nas redes sociais ao ser abraçada pelo médico Drauzio Varella numa reportagem do Fantástico, da TV Globo, exibida no domingo, 1º de março, já tentou duas vezes, sem sucesso, a revisão de sua pena de 36 anos e oito meses de prisão em regime fechado.

Suzy, cujo nome de batismo é Rafael Tadeu de Oliveira Santos, foi condenada pelo assassinato e estupro de um menino de 9 anos, em maio de 2010. O crime foi cometido na casa onde ela morava, na região do Tatuapé, na Zona Leste da capital paulista – a criança residia na mesma rua.

Ao confessar o crime, Suzy contou que atraiu o menino para sua casa, pedindo que ele a ajudasse a carregar um monitor para dentro de sua residência. Suzy sabia que o garoto ficava sozinho, enquanto a mãe trabalhava. Após cometer o crime sexual, asfixiou a criança e deixou seu corpo escondido em sua residência por dois dias. Depois disso, resolveu colocar o cadáver da criança nas proximidades da casa de seus pais e avisá-los, sem, no entanto, dizer que havia sido o autor do crime.

O processo de Suzy foi transitado em julgado em junho de 2014. Os pedidos de revisão penal foram apresentados pela Defensoria Pública entre 2015 e 2017 – agora não cabe mais pedido de revisão. As principais alegações dos defensores eram as de que o réu era primário, ou seja, nunca havia cometido crimes anteriormente, e confessara os delitos, o que deveria atenuar a pena. De acordo com o juiz que a condenou, a intensidade do dolo, a premeditação, a má conduta social, a periculosidade exacerbada e as consequências dos crimes justificavam a dosimetria elevada da pena.

Do céu ao inferno

Presa na Penitenciária José Parada Neto, na cidade de Guarulhos, em São Paulo, Suzy foi do céu ao inferno em questão de dias. Ao se tornar personagem da reportagem de Drauzio Varellaganhou apoio de parte do público após dizer que não recebia a visita de parentes há oito anos. A cena do abraço comovente do médico virou um dos assuntos mais comentados no Twitter. Suzy recebeu em três dias mais de 200 cartas e presentes como maquiagem e livros.

Até então assistida pela Defensoria Pública, Suzy ganhou a solidariedade da advogada Bruna Paz de Castro, que a visitou uma semana depois de ver a reportagem. Bruna atenderá Suzy gratuitamente em seu processo de execução penal. “Dentro da lei, claro, meu objetivo é garantir os benefícios a que ela tem direito, como a remição de um dia de pena a cada três trabalhados”, afirmou a advogada. Suzy trabalha em uma fábrica dentro da penitenciária.

Parte da solidariedade acabou quando foi revelada a razão de sua condenação. Suzy e Drauzio Varella, então, viraram alvo de ataques em redes sociais endossados, inclusive, pelo presidente Jair Bolsonaro. Varella chegou a escrever um comunicado em que afirma: “Sou médico, não juiz.” Suzy também se manifestou por carta: “Eu sei que errei e em momento algum tentei passar como inocente (…). Eu estou aqui pagando por tudo o que eu cometi.”

Nesse período em que virou assunto nacional no mundo externo, dentro das grades nada mudou. A rotina de Suzy não acabou alterada nem sua segurança foi reforçada. A Penitenciária José Parada Neto, em Guarulhos, é uma unidade destinada especialmente aos condenados por crimes sexuais. Se estivesse em uma cadeia comum, Suzy teria sua integridade física ameaçada. Na Parada Neto, ela cumpre pena em cela ao lado de pessoas presas pelo mesmo tipo de crime.

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Drauzio pede desculpas

No início da noite desta terça-feira, 10, Drauzio Varella gravou um vídeo no qual pede, pela primeira vez, desculpas à família do menino assassinado. Antes, ele havia emitido uma nota em que dizia apenas que era “médico, não juiz” e que tanto no seu consultório quanto nas penitenciárias não pergunta sobre o que os seus pacientes possam ter feito de errado.

Agora, em vídeo de pouco mais de 2 minutos (veja abaixo), o médico afirma que não sabia que Suzy havia sido condenada por um crime violento. “Foi revelado para o país, inclusive para mim mesmo, o crime cometido por uma das entrevistadas da matéria que apresentei no Fantástico (…) Não há o que falar, é um crime que choca a todos nós”, afirma.

“Posso imaginar a dor e peço desculpas para a família do menino que foi involuntariamente envolvida no caso. Na matéria em questão, o foco era mostrar as condições em que vivem as transexuais presas. As estatísticas oficiais mostram que a maioria delas está presa por roubo e furto. A maneira como Susy foi apresentada dá a entender que ela fazia parte desse grupo majoritário. Por isso, eu entendo a frustração de quem se decepcionou comigo”, diz.

De acordo com ele, ao terminar a entrevista, ficou comovido pelo fato de Suzy ter dito que estava há anos sem receber a visita e pelo olhar que ela lhe lançou – foi quando decidiu abraçá-la. “Para quem acha que eu errei, desculpa, mas esse é o meu jeito. Eu lamento, mas assumo totalmente a responsabilidade pela repercussão negativa que o caso teve”, relata.

Globo

Na edição do Jornal Nacional desta terça 10, a Rede Globo e o Fantástico, por meio do apresentador William Bonner, também pediram desculpas à família da vítima e a todos os telespectadores. “Apenas depois da exibição do quadro, o Fantástico tomou conhecimento da gravidade do crime”, disse. “Só hoje a Globo se manifesta com mais clareza sobre o assunto porque respeitou protocolos de segurança. Protocolos que autoridades públicas não seguiram.”

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