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Por que quatro países questionaram decisões da Justiça brasileira envolvendo tentativa de golpe

As investigações deixaram claro que, entre os acusados, havia gente realmente empenhada em ferir de morte a democracia

Por Hugo Marques Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 27 jun 2026, 08h00
Por que quatro países questionaram decisões da Justiça brasileira envolvendo tentativa de golpe Priorizar nos meus resultados Google

Para o Supremo Tribunal Federal, o ex-deputado Eduardo Bolsonaro estimulou sanções contra autoridades brasileiras para criar um ambiente de intimidação e tentar influir no resultado do julgamento de Jair Bolsonaro. Por causa disso, ele foi sentenciado a quatro anos e dois meses de prisão por coação no curso do processo. A decisão repercutiu nos Estados Unidos, onde o filho do ex-­presidente se autoexilou há mais de um ano. Donald Trump, por exemplo, disse, bem a seu estilo, que o país está “um pouco perigoso politicamente”. Mais incisivo, o Departamento de Estado classificou o veredicto como mais um caso de “perseguição e manipulação”. Um porta-voz do órgão afirmou que o processo era parte de uma “guerra jurídica dos tribunais brasileiros contra seus opositores”. Já o ex-deputado disse que o julgamento foi um jogo de cartas marcadas, protestou contra a sentença e, em entrevista a VEJA, fez um desafio: “Quero ver se eles vão ter coragem de mandar a sentença aqui para ser cumprida, para ver se me extraditam. Não vão fazê-lo porque sabem que ela seria rechaçada de pronto”.

ITÁLIA - Zambelli: dúvidas sobre “independência” e “imparcialidade”
ITÁLIA - Zambelli: dúvidas sobre “independência” e “imparcialidade” (./Reprodução)

Como o ex-deputado, há mais de 500 condenados por atentar contra a democracia foragidos no exterior. Assim como Eduardo, praticamente todos alegam ser vítima de perseguição política e pleiteiam asilo nos países em que se encontram. Alguns têm sido bem-sucedidos. Decisões de tribunais e órgãos de Estado de democracias consolidadas têm feito ressalvas sobre métodos e procedimentos da Justiça brasileira. O caso da ex-deputada Carla Zambelli é o mais recente. Ela foi condenada a dez anos de detenção por ter contratado um hacker para invadir o sistema de computadores do Conselho Nacional de Justiça e inserir nele um falso mandado de prisão contra um ministro do Supremo. Cometeu um crime, óbvio. Presa em Roma, aguardou por um ano o julgamento de um pedido de extradição do governo brasileiro. Ao analisar o caso, a Suprema Corte de Cassação da Itália, a última instância da Justiça do país, afirmou ter encontrado no processo elementos que deixavam dúvidas sobre a “independência” e a “imparcialidade” do tribunal que a condenou. A extradição foi negada, Zambelli foi libertada e pode seguir inalcançável, dependendo do resultado de um segundo pedido de extradição que ainda será julgado.

RESPOSTA - Eduardo Bolsonaro: “Quero ver se vão ter coragem de mandar a sentença aqui”
RESPOSTA – Eduardo Bolsonaro: “Quero ver se vão ter coragem de mandar a sentença aqui” (Lev Radin/Alamy/Fotoarena/.)
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Em uma situação parecida, a Justiça da Espanha também se manifestou de maneira crítica no processo em que o governo brasileiro pediu a extradição do blogueiro Oswaldo Eustáquio. Acusado de difundir notícias falsas e com prisão preventiva decretada pelo STF por incitar manifestações consideradas antidemocráticas, ele fugiu para a Europa em 2023 e teve o nome inserido na lista de criminosos procurados pela Interpol. Os juízes espanhóis, no entanto, ao analisar o processo, concluíram que havia “motivação política” nas demandas e negaram os três pedidos de extradição feitos pelo Brasil. Além disso, ressaltaram que os delitos atribuídos ao blogueiro não encontravam abrigo na legislação local. “O que é considerado crime pela Justiça brasileira aqui na Espanha é liberdade de expressão”, comemorou o blogueiro, que trabalha no país como motorista de aplicativo e diz que pretende retornar ao Brasil em janeiro, caso Flávio Bolsonaro seja eleito presidente da República. O senador promete perdão aos condenados por atentar contra a democracia.

ESPANHA - Eustáquio: a Justiça espanhola viu “motivação política”
ESPANHA - Eustáquio: a Justiça espanhola viu “motivação política” (@oswaldo_eustaquio46/Instagram)
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Nos Estados Unidos, além de Eduardo Bolsonaro, dois outros personagens aguardam a decisão do governo americano sobre pedidos de asilo. O ex-deputado Alexandre Ramagem foi condenado a dezesseis anos de prisão por tentativa de golpe de Estado. Antes mesmo de o STF anunciar a sentença, ele havia fugido para os Estados Unidos. Sem visto de permanência, chegou a ser detido pelo serviço de imigração em abril e libertado dois dias depois, o que foi interpretado como uma sinalização positiva em relação ao reconhecimento de sua condição de refugiado. Já o blogueiro Allan dos Santos está nos Estados Unidos desde 2021, depois de o Supremo decretar sua prisão preventiva por difusão e monetização de notícias falsas. A Justiça americana recusou mais de uma vez a extradição. A exemplo do caso de Oswaldo Eustáquio, os magistrados do país também ressaltaram o fato de que as acusações contra o blogueiro não constituíam crime.

NA FILA - Ramagem: o ex-deputado aguarda decisão sobre asilo
NA FILA - Ramagem: o ex-deputado aguarda decisão sobre asilo (@rebecaramagem/Instagram)
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Na Argentina, o país que registra o maior número de pedidos de asilo de brasileiros, há sinais de que novas derrotas podem vir em sequência. Em março, a Comissão Nacional de Refugiados concedeu ao motorista Joel Borges Corrêa, condenado a treze anos e seis meses de prisão por envolvimento nos ataques do 8 de Janeiro, a condição de refugiado. O órgão afirmou que não houve tentativa de golpe por parte do manifestante. “De acordo com inúmeros depoimentos, vídeos, gravações e publicações, é possível argumentar que milhares de pessoas que participaram do protesto em Brasília o fizeram pacificamente e sem conhecimento do contexto político e institucional envolvido, mas, sim, com a convicção, emanada das próprias autoridades, de que o resultado da eleição havia sido manipulado”, diz a decisão. “Em muitos casos, as prisões foram massivas e arbitrárias, e graves violações do devido processo legal foram observadas”, acrescentou o parecer, abrindo caminho para cerca de 200 pedidos similares de asilo político que tramitam no país vizinho. “Quando uma Justiça imparcial analisa os julgamentos do Supremo, a única conclusão a que se pode chegar é que no Brasil o aparato estatal está sendo usado para perseguir opositores”, afirma Ezequiel Silveira, advogado da associação que defende os condenados pelo 8 de Janeiro.

ESTADOS UNIDOS - Allan dos Santos: o blogueiro teve a prisão decretada, escapou e sua extradição foi negada
ESTADOS UNIDOS - Allan dos Santos: o blogueiro teve a prisão decretada, escapou e sua extradição foi negada (./Reprodução)
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Professor da Universidade de Roma, o jurista brasileiro Valerio Mazzuoli avalia que decisões como a da Suprema Corte de Cassação da Itália, que negou a extradição de Carla Zambelli, são tecnicamente sólidas e atendem à jurisprudência da Corte Europeia de Direitos Humanos. “No sistema judiciário europeu não existe a mínima possibilidade de uma pessoa ser condenada por um juiz que se diz vítima do delito. Quem julga tem de ser isento”, ressalta.

FUGA - O motorista Joel Corrêa: vida na Argentina após a condenação
FUGA - O motorista Joel Corrêa: vida na Argentina após a condenação (./Reprodução)
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O STF puniu 1 400 pessoas por envolvimento na trama golpista ocorrida no fim do governo Bolsonaro a penas que variam de cinco a 27 anos de prisão. Entre os condenados estão o ex-presidente da República e militares de alta patente. O relator do processo foi o ministro Alexandre de Moraes. O tribunal, desde então, tem sido alvo de críticas, entre outras, por ter aplicado penas consideradas muito pesadas a manifestantes que tiveram uma participação lateral nos ataques do 8 de Janeiro. Isso, porém, não deve servir de argumento para a defesa de uma impunidade ampla, geral e irrestrita. As investigações deixaram claro que, entre os acusados, havia gente realmente empenhada em ferir de morte a democracia — e esses personagens não podem escapar de uma punição exemplar.

Publicado em VEJA de 26 de junho de 2026, edição nº 3001

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